O bispo dom Pedro Luiz Stringhini, 56 anos, foi escolhido pelo papa Bento XVI para ser o terceiro religioso a comandar a Diocese de Franca na última quarta-feira. Considerado uma das personalidades mais queridas dentro da comunidade católica no Estado de São Paulo, dom Pedro Stringhini recebeu ordenação diaconal em 27 de abril em 1980, através do bispo Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida e a ordenação sacerdotal em 9 de agosto do mesmo ano, através do bispo Dom Paulo Evaristo Arns. Mas, em 2001, dia 10 de março, obteve a ordenação episcopal, pelo bispo dom Cláudio Hummes.
Dom Pedro Stringhini bacharelou em letras e teologia, sendo mestre em exegese pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Natural de Laranjal Paulista, o novo comandante da Diocese de Franca deverá realizar uma visita cordial ao bispo emérito dom Diógenes Silva Mathes na próxima semana, onde visitará algumas comunidades para definir a celebração de posse no dia 21 de fevereiro.
Ao falar com exclusividade sobre sua vida e a nomeação para a Diocese de Franca, dom Pedro Stringhini revelou vários detalhes que poderão ser acompanhados pelos leitores.
Como o senhor recebeu a notícia de que assumiria a Diocese de Franca?
Pedro Luiz Stringhini: No último dia 10 de dezembro, o senhor Núncio Apostólico, Dom Lorenzo Baldisseri, comunicou-me a nomeação. Respondi imediatamente que aceitava esta missão acolhendo de coração aberto o pedido do Santo Padre Bento XVI. Estou alegre, feliz e confiante na graça de Deus. O bispo, sucessor dos apóstolos, age não em nome próprio, mas em nome da Igreja; e a Igreja realiza o que Jesus Cristo pede, que levemos o Evangelho de Deus a todos os lugares.
Já conhecia Franca e qual a informação que tem sobre a cidade?
Stringhini: Ainda não conheço a cidade Franca, conhecida como a capital do calçado, e os dezenove municípios que compõe a Diocese de Franca. Sei que se trata de uma região muito bonita e de um povo bom e trabalhador. Eu também nasci no interior do Estado de São Paulo, a cidade de Laranjal Paulista.
Quando o senhor pretende fazer a primeira visita a Diocese e como será?
Stringhini: Chegarei em Franca pela primeira vez no dia 11 de janeiro. Passarei alguns dias realizando os primeiros contatos e celebrando cada dia a eucaristia, conforme programa que está sendo preparado pelo administrador diocesano padre Jamil Alves de Souza.
Quando o senhor assume a Diocese de Franca? A posse como bispo diocesano de Franca acontece quando e são esperados muitos convidados? Como acontece essa celebração?
Stringhini: Tomo posse do cargo de 3º bispo diocesano de Franca no dia 21 de fevereiro, às 16 horas. Convido a todos para participarem desse ato e da celebração eucarística que marcará esse momento. O cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, já confirmou sua presença. O arcebispo metropolitano de Ribeirão Preto, Dom Joviano de Lima Júnior, também estará presente, pois a diocese de Franca pertence à Província Eclesiástica de Ribeirão Preto.
É verdade que a primeira celebração do senhor em Franca poderá ocorrer na periferia da cidade. Por quê?
Stringhini: Começo pela periferia para indicar a opção de Jesus Cristo e da Igreja pelos pobres. Depois que tomar posse, passo a passo, visitarei e celebrarei na Catedral e em todas as paróquias e comunidades.
Que tipo de ações o senhor já realizou dentro da comunidade católica e que trouxe grandes benefícios para a sociedade?
Stringhini: Na juventude (1975-76), trabalhei dois anos como missionário leigo na Prelazia de Itacoatiara, então Igreja-irmã da Arquidiocese de São Paulo, no tempo de Dom Paulo Evaristo Arns. Nos 29 anos de padre, sempre trabalhei na periferia, especificamente na Zona Leste da Capital Paulista, onde a Igreja sempre foi protagonista, no tempo da ditadura militar e depois desta, junto aos movimentos populares de moradia, saúde, educação. Essa atuação se dá, sobretudo, através das pastorais sociais e da pastoral de fé e compromisso social (fé e política). O que mais eu fiz, como padre e como bispo, foi trabalhar com nas comunidades (paroquiais, eclesiais, novas ...), tanto as já existentes quanto as muitas que tive a alegria de iniciar, especialmente quando um novo bairro ou assentamento ia surgindo na periferia. Hoje, o desafio maior é formar comunidades eclesiais nos centros urbanos mais desenvolvidos e mais ricos. Também, estamos tentando fazer isso em São Paulo. Como bispo (nove anos), sempre estive, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ligado ao mutirão de superação da miséria e da fome (cf. Doc. 69 da CNBB) e à comissão episcopal de pastoral para o serviço da caridade, justiça e paz, que, nos últimos anos, tem refletido muito, até com publicações, sobre mudanças climáticas e aquecimento global. Em São Paulo, há seis anos, iniciamos a Pastoral da Ecologia. Nos anos noventa, trabalhei também como padre professor na Faculdade de Teologia da Arquidiocese de São Paulo (Ipiranga).
O senhor pode dizer que essas ações foram desafios em sua vida e sarcedotal?
Stringhini: As questões sociais concernentes à superação da fome, da pobreza, distribuição das riquezas, justiça social; e as questões ambientais relativas à degradação ambiental, a urgência de mudanças de paradigma de desenvolvimento e consumo, em vista do cuidado com o planeta terra, nossa casa (em grego oikos; daí o termo ecologia), são desafios para todo cidadão, todo cristão, toda a sociedade e toda a Igreja. A mensagem do Papa para o dia mundial da Paz (1º de janeiro) traz como título "Se quiseres cultivar a Paz, preserva a criação".
Qual a sua origem (cidade) e como iniciou a vida sarcedotal (quando)?
Stringhini: Nasci no interior de São Paulo, na cidade de Laranjal Paulista, onde vivem meus pais e quase toda minha família. Sou de origem rural e de família católica, de modo que a grande referência que tive, na infância, foi, graças a Deus, a Igreja católica. Sempre quis ser padre. Com onze anos, ingressei no Seminário Menor, em Sorocaba. O seminário foi fechado, concluí o primeiro e segundo graus em Laranjal Paulista. Com 18 anos, mudei-me para São Paulo, a fim de estudar e trabalhar. Fui logo me envolvendo e envolvido pela Igreja de São Paulo, onde vivi até hoje.
A nomeação do Papa Bento XVI foi uma surpresa. Como o senhor recebeu essa honrosa missão?
Stringhini: Que depois de nove anos, como bispo auxiliar, fosse indicado para uma diocese não é surpresa. Foi para mim uma alegre e feliz surpresa, no entanto, minha indicação para Franca. Acolho esta missão consciente da grande responsabilidade de servir a Igreja e o povo de Deus dessa diocese. Conto com a oração de todos e com a luz do Espírito Santo para corresponder ao desejo de Cristo e às necessidades pastorais da diocese.
O senhor passou por quais comunidades e com quais os cardeais trabalhou?
Stringhini: Na Arquidiocese de São Paulo, trabalhei com três cardeais: Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Cláudio Hummes e Dom Odilo Pedro Scherer. Dom Paulo me enviou ao Amazonas (1975), me ordenou padre (1980), me designou para ser reitor do seminário de filosofia (1984), me enviou a Roma para fazer mestrado em Sagrada Escritura (1986). Dom Cláudio me ordenou bispo (2001) e, muito próximo a ele, trabalhei até 2006. Nos últimos anos, como bispo auxiliar, trabalhei junto a D. Odilo. Tenho grande admiração por cada um deles. Sou grato por tudo o que deles aprendi. São pessoas que, pela inteligência, dinamismo, dedicação e amor, tornam-se referência na Igreja e na sociedade. Dom Paulo, conhecido como intelectual, defensor dos direitos humanos, corintiano, pastor incansável e amigo dos pobres, acaba de escrever, aos 88 anos, um pequeno livro sobre o ano sacerdotal.
No Brasil, quem traz mais admiração ao senhor como religioso?
Stringhini: Os que acabei de citar acima e tantos outros: Dom Hélder Câmara, Madre Tereza de Calcutá, João Paulo II, Paulo VI, João XXIII, Ir. Dulce, Ir. Dorothy Stang, Dom Luciano Mendes de Almeida, Santa Gianna, São Francisco de Assis, São João Maria Vianey (o cura d Ars) ... A lista poderia ser infinitamente aumentada.
Neste ano sarcedotal o que o senhor pode falar sobre as ações da igreja em benefício da comunidade?
Stringhini: A Igreja é perita em humanidade e se interessa pelo bem de todo o ser humano e do ser humano todo, isto é, nas dimensões humana, psíquica, espiritual ... A presença da Igreja valoriza o ser humano em sua inalienável dignidade e contribui para que na comunidade humana reine a justiça social, prevaleça o direito, se estabeleça a paz e se exercite a fraternidade universal. O Estado, para ser laico e democrático, tem que garantir a liberdade religiosa e contar com a contribuição de todas as forças sociais, dentre as quais se destaca a Igreja católica.
Quais os eixos de trabalho que o senhor irá determinar na Diocese de Franca?
Stringhini: A Diocese de Franca, como as outras, possui um plano de pastoral, que deve nortear a ação do bispo, dos padres e de toda a diocese. É o que garante a pastoral de conjunto e a unidade da Igreja, na diversidade de carismas e ministérios. A missão da Igreja é evangelizar, isto é, tornar conhecido e vivenciado o evangelho de Jesus Cristo. O plano de pastoral de Franca propõe que a Igreja pratique: a comunhão entre seus membros, a missão de evangelizar indo ao encontro dos afastados, e o serviço de caridade, de modo especial aos pobres. Fiquei feliz por saber que a diocese começa a por em prática o projeto Paróquias-Irmãs (um projeto que está dando certo na Região Belém, onde estou até o momento). Vou insistir muito para que tenhamos um olhar de amor e acolhimento para com a juventude.
A comunidade católica está passando por transformações (quais são) e os benefícios para a comunidade?
Stringhini: Depois do Concílio (1962-65), e especialmente depois de Medellín (1968), a Igreja se esforçou para renovar-se, internamente e também no seu compromisso profético, como voz dos perseguidos e marginalizados. Deu um belo testemunho. Mas teve também limites. Resumiu-se demais à Pastoral. Na década de noventa, perdeu muitos católicos. Levou um susto. Passou a falar mais de evangelização e missão. Acertou, porque se abriu. A conferência de Aparecida com respectivo documento é exemplo disso. Agora as palavras que orientam são missão, presença, acolhida, caridade, santidade.
Qual a importância que o senhor vê na Fundação Casa e que tipo de trabalho pretende realizar na cidade?
Stringhini: Tenho ligação com a Febem desde 1977, por intermédio de Dom Luciano Mendes, quando nosso pequeno grupo começou, com ele, a visitar a Unidade do Tatuapé e acompanhar jovens que saíam da Fundação. Foi a partir desse trabalho que Dom Luciano fundou a Pastoral do Menor em São Paulo, e que se expandiu por todo o Brasil, assumindo as proporções que conhecemos. A história é longa e cheia de dificuldades. Hoje, Fundação Casa não é só um nome novo mas um novo esforço nesse importante trabalho de ressocialização, que conta, em Franca e no Estado de São Paulo, com a valiosa colaboração do padre Ovídio.
O clero de Franca é formado por muitos jovens. O que essa situação pode proporcionar junto a comunidade?
Stringhini: É uma boa notícia saber que o nosso clero é jovem. Os mais idosos, aos quais expresso profunda admiração e carinho, penso que ficam felizes ao perceber que, com isso, seu trabalho tem continuidade. O testemunho de comunhão eclesial, ardor pastoral e santidade de vida dos padres novos despertará em outros jovens o desejo de abraçar o sacerdócio.
Como o senhor avalia os conceitos morais da família. Eles estão se perdendo com o passar dos tempos. E como reverter a situação?
Stringhini: A Igreja tem a grande tarefa de continuar a anunciar de modo inquestionável o valor da família como instituição natural querida por Deus. A Igreja proclama que a Família é a base da sociedade e que a família enfraquecida e desintegrada produz uma sociedade igualmente enfraquecida em seus alicerces e seus valores. É na família que se transmitem os primeiros e fundamentais valores humanos, educacionais, religiosos que possibilitam a convivência do ser humano na sociedade. A pastoral familiar auxilia a Igreja em sua atuação evangelizadora junto às famílias.
Frases
"Nos 29 anos como padre, sempre trabalhei na periferia, onde a Igreja sempre foi protagonista, no tempo da ditadura militar"
"A Igreja tem a grande tarefa de continuar a anunciar de modo inquestionável o valor da família como instituição natural querida por Deus"
"Na década de noventa, a igreja perdeu muitos católicos. Levou um susto. Passou a falar mais de evangelização e missão"
Fonte: (Diário da Franca)