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29/01/2010

ESCOLAS EXIGEM QUE ALUNOS ESCREVAM À MÃO


Objetivo é evitar que, com o uso freqüente do computador, eles percam a caligrafia e deixem de atentar a norma culta da língua portuguesa

Os livros e cadernos que Letícia Martins e Pedro Paulo dos Santos, ambos de 15 anos, levam na mochila, ganharam em 2009 a companhia de um notebook. É no computador que eles anotam o conteúdo das aulas do colégio Sidarta (em Cotia, na Grande São Paulo).

Depois de sair da escola, os dois ainda acessam a internet para se comunicar com os amigos. O resultado é que escrevem cada vez menos à mão, assim como muitos de seus colegas.

Para evitar, com medo de que os avanços tecnológicos façam com que os estudantes percam a caligrafia e deixem de atentar para as normas cultas da escrita, escolas particulares intensificaram a produção de redações e ainda pedem que a maioria dos trabalhos seja manuscrita.

No Colégio Santa Cruz (zona oeste de SP), por exemplo, os alunos até podem fazer o trabalho no computador, mas, antes de entregá-lo, devem transcrevê-lo à mão. É o que Alejandro Gabriel Miguelez, coordenador do curso de produção textual do colégio, chama de “passar a sujo”.

“A expressão é uma brincadeira que faço com os alunos. Não abrimos mão do texto manuscrito, é preciso que eles pratiquem a caligrafia”.

Apesar do duplo trabalho, ele conta que muitos estudantes preferem escrever primeiro no computador para usar corretores ortográficos eletrônicos.
Para evitar esses “truques”, algumas escolas, como a PlayPen e o Augusto Laranja, de São Paulo, até aceitam trabalhos feitos no computador. Mas só as versões finais, depois de vários rascunhos serem corrigidos pelo professor e de não sobrar nenhum erro. Há escolas, no entanto, que discordam desses métodos. O Sidarta, que libera o computador nas aulas, acredita que há outras formas de evitar que a tecnologia atrapalhe o aprendizado. Quando as palavras são grifadas pelo Word, por exemplo, o professor pede que os alunos procurem a forma correta no dicionário.
A pesquisadora Cristiane Dias, do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp, também critica a exigência de textos manuscritos. Ela acredita que, no futuro, escrever à mão será muito raro.
“Desde que a comunicação passou da oralidade para a escrita, ela foi se modificando. Quando a escrita era a pena, existia um tipo de caligrafia que não existe mais. É possível dizer que perdemos?”, diz. “As próximas gerações não vão ter essa preocupação. Para que obrigá-los a voltar para trás?”.

Izeti Fragata, coordenadora de português do colégio Bandeirantes argumenta: “os alunos têm de ter letra legível. No vestibular, os corretores não vão fazer esforço para entender o que eles escreveram”. Na escola, só trabalhos muito longos podem ser feitos no computador. Se um aluno entrega ao professor um trabalho com letra difícil de ler, tem de refazê-lo. Em provas, respostas ilegíveis são anuladas.

“Vc” e “naum” já aparecem em redações

O professor de português do colégio Santo Américo José Ruy Lozano, conta que, vez ou outra, encontra um “naum” (abreviação de “não”) ou um “eh” (é) em trabalhos escolares.
“Esse tipo de expressão faz sentido nas conversas instantâneas, onde eles [os alunos] se comunicam com muitos amigos ao mesmo tempo e têm que ser rápidos. Mas, na escrita formal, não. É um contexto diferente”, afirma.

As abreviações, entretanto, estão menos freqüentes nos textos do Santo Américo, depois que o colégio decidiu intensificar a quantidade de redações pedidas aos alunos. “A prática da escrita ajudou a reduzir isso”.

Na PlayPen o “internetês” também aparece de vez em quando nas redações, com expressões como “vc”, abreviatura de você. “Quando vejo, acho muita graça”, conta Maria Laura Mori, professora de português da escola, que corrige todas as versões manuscritas antes de autorizar os alunos a passarem a limpo o trabalho no computador.

Como uma roupa

No Colégio Sidarta, as expressões abreviadas também costumam aparecer. “Mas, em geral, os alunos sabem o contexto adequado para cada tipo de linguagem. É como com a roupa: não se vai à formatura de chinelo”, diz Gizele Caparroz de Almeida, professora de língua portuguesa.
“O ‘vc’, por exemplo, é mais um código que a gente pode usar em 30 anos. Antes, ‘você’ não era ‘vossa mercê’?”

Veja, abaixo, a íntegra das respostas: