ENQUETES

16/04/2010

AUTOR DISCUTE MALDADE INFANTIL EM NOVELA DAS 8




Em enquete da Tribuna de Ituverava, a população acredita que a maldade infantil existe e que pode ser motivada pelo ambiente onde a criança vive

Não se engane com um rostinho bonito... Se espantem, pois a maldade e os distúrbios de personalidades podem ser encontrados aonde menos se espera, inclusive nas crianças. O brasileiro vê na tela da TV, todos os dias, um exemplo cabal, que é a pequena Rafaela, do folhetim global “Viver a Vida” – interpretada de forma genuína pela atriz mirim Klara Castanho.

Klara vive uma criança aparentemente dócil, mas que no fundo, manipula adultos com seu sorriso e sagacidade. Um dos exemplos disso foi a chantagem que ela fez com Helena (Taís Araujo), ameaçando contar para Marcos (José Mayer) que viu a modelo aos beijos com o fotógrafo Bruno (Thiago Lacerda). Rafaela, desde então, se tornou o pesadelo mais temido de Helena, com direito a aparições surpresas, sarcasmo e muita – mas muita – maldade no ar.

Se com Helena, os embates foram pesados, com Maradona (Mario José Paz), a conversa é diferente. A ‘vilã mirim’ aprendeu a usar o amor do comerciante por ela e pela mãe em seu próprio benefício. Definitivamente incentivadora de um romance entre a mãe Dora (Giovanna Antonelli) e o comerciante, ela usa e abusa da casa, come o que quer no restaurante, ganha os presentes mais caros e ainda dá de filha ciumenta, protegendo o argentino das garras de possíveis aproveitadoras.

Para o autor da novela, Manoel Carlos, ela poderia ser ainda pior, mas nem todos querem que Rafaela siga este caminho. Desde que a novela das 8 foi ao ar, em setembro do ano passado, o Ministério Público do Rio de Janeiro tem acompanhado de perto Rafaela e as atitudes desagradaram a Justiça. Tanto que Maneco chegou a ser notificado.

No documento, um pedido para que ele tenha “cuidado ao elaborar a personalidade de personagens cujos atores são menores de idade”. Na trama, Rafaela é uma menina mimada, que, para defender seus interesses, faz chantagem com uma amiga de sua mãe. Rafaela não pratica a maldade sem motivações concretas ou demonstra curiosidade mórbida. Ainda assim, o Ministério Público considera a personagem pouco adequada: criança, aparentemente, não pode ser vilã.

Difícil de aceitar

“Não é fácil a sociedade aceitar a maldade infantil, mas ela existe”, diz Fábio Barbirato, chefe da Psiquiatria Infantil da Santa Casa, no Rio de Janeiro. Ele explica que a criança ou adolescente que tem essa patologia pode se transformar, na vida adulta, em alguém com a personalidade anti-social – o termo usado hoje em dia para o que era chamado de psicopatia.

“Essas crianças não têm empatia, isto é, não se importam com os sentimentos dos outros e não apresentam sofrimento psíquico pelo que fazem. Manipulam, mentem e podem até matar sem culpa”, diz Barbirato. Por volta da década de 70, do século passado, teorias sociais e psicanalíticas tentaram vincular esse comportamento perverso à educação e à sociedade. Nos últimos anos, porém, os avanços da neurologia sugerem a existência de um fenômeno físico: imagens mostram que, nas pessoas com personalidade anti-social, o sistema límbico, parte do cérebro responsável pela empatia e pela solidariedade, está desconectado do resto.

Tratamento

Um obstáculo para o tratamento de crianças com sinais de transtorno de conduta é o próprio tabu da maldade infantil. O senso comum afirma que as crianças são inocentes – uma crença que resulta da evolução histórica da família.

As escolas, porém, desmentem isso: elas costumam ser o palco diário das maldades das crianças com transtorno de conduta. A psiquiatra carioca Ana Beatriz Barbosa Silva, autora do best-seller Mentes Perigosas, diz que crianças e adolescentes com esse distúrbio costumam estar por trás dos casos mais graves de bullying.

“É típico do jovem com transtorno de conduta saber mentir e manipular para que os outros levem a culpa”, afirma. Barbirato faz uma ressalva. “Pequenas maldades e mentiras são absolutamente comuns na infância. De cada 100, cerca de 97 têm comportamento normal e, ao amadurecer, saberão diferenciar o certo do errado e desenvolverão a empatia”, diz.

Mas, e os 3% que faltam? Serão obrigatoriamente personalidades anti-sociais na vida adulta, seres sem empatia? Os especialistas são taxativos ao afirmar que não se cura transtorno de conduta. Ele será, no máximo, amenizado se tratado a tempo e houver sempre algum tipo de vigilância. Na maior parte dos casos, porém, isso não acontece. E o resultado de ninguém ter notado esses sinais durante a infância aparecem de forma trágica. “Essa criança poderá ser um político corrupto, um fraudador, até um torturador físico ou emocional, chegando a um assassino em série”, diz Ana Beatriz.

Enquete


A Tribuna de Ituverava foi às ruas perguntar a doze pessoas se elas acreditam na maldade infantil, assim como a personagem Rafaela, vivida por Klara Castanho, na novela “Viver a Vida”. A maioria acredita. “Eu acredito que isso possa ocorrer porque, apesar da criança ser inocente, o meio onde ela cresce será determinante para a formação do seu caráter, com isso ela pode tender para o mau”, disse a estudante Flávia Reis Fórmica.

Veja, abaixo, a íntegra das respostas: