GERAL

05/11/2010

SUPERBACTÉRIA KPC PREOCUPA AUTORIDADES


Infecção pode matar e tem se alastrado, fique atento e saiba como se prevenir

Desde o ano passado, a superbactéria KPC (Klebsiella pneumoniae carbapenemase) começou a assustar autoridades de saúde. De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 24 pessoas infectadas pela superbactéria morreram no Estado de São Paulo desde julho de 2009 – mesmo não se sabendo se todos os casos de morte foram causados pela bactéria. Nesse mesmo período, 70 casos de contaminação foram confirmados.

No Brasil, até o momento, já são 43 mortes associadas à KPC. No Distrito Federal, o número de contaminações é ainda maior – 183 casos, das quais 18 morreram. A KPC já apareceu em vários Estados: São Paulo, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás e Santa Catarina.

A Anvisa prevê multa de R$ 1,5 milhão para farmácias que venderem antibióticos (remédios que atuam principalmente contra bactérias e fungos) sem reter a receita médica.

Atualmente, a regra estabelece que o paciente apresente a receita médica, mas ele pode ficar com ela. Isso tudo é para conter o uso indiscriminado desse tipo de medicamento – apontado pelo Ministério da Saúde como um dos fatores do surgimento de organismos resistentes, como a KPC.

A infectologista ituveravense Giovanna de Cúrcio Garnica, que faz parte do Corpo Clínico do Hospital e Maternidade de Ituverava, explica que KPC não é o nome da bactéria, mas uma enzima produzida por ela, que é capaz de inativar os antibióticos mais potentes disponíveis para o tratamento de infecções graves, principalmente aquelas adquiridas no ambiente hospitalar.

“Elas são denominadas assim, quando produzem uma enzima tão potente capaz de inativar a eficácia de outros antibióticos, limitando, assim, as possíveis opções para o tratamento de infecções graves”, complementou a infectologista ituveravense.

Giovanna ressalta ainda que a população não tem motivos para pânico, pois a KPC está restrita a hospitais, sendo os pacientes graves, a maioria de cuidados intensivos, os mais suscetíveis, sendo este com baixa probabilidade de alta hospitalar. “Na pessoa saudável, ela praticamente não oferece riscos. Vale ressaltar que bactérias multirresistente já desafiam a medicina a algum tempo. A Penicilina, desenvolvida em 1928, já mostrava-se resistentes a alguns germes na década de 50”, afirmou.

A infectologista também enfatiza que os antibóticos só são efetivos quando tomados da maneira correta, na dose certa e quando nas indicações corretas. “Caso contrário, as bactérias desenvolvem mecanismos que inativam a ação do medicamento. Quando essas superbactérias atingem o sangue de pacientes debilitados, atingem vários órgãos ocasionando a infecção generalizada, chamada de septicemia, sendo muito difícil combatê-las. A KPC é resistente a antibióitocos de última linha, usados em pacientes graves”, completou.

“É de suma importância a higiene adequada dos profissionais da saúde, como a simples ação das lavagens das mãos de forma adequada e uso de luvas (quando indicadas), além do cuidado com material perfuro-cortante, como medida de prevenção de transmissão no ambiente hospitalar”, finalizou a médica Gionvanna.

10 dúvidas sobre a KPC

Outra resolução da Anvisa obriga clínicas e hospitais a disponibilizarem álcool líquido ou em gel para médicos e enfermeiros limparem as mãos. Mas o que fazer para prevenir-se contra a doença? Quais são os riscos?
Confira abaixo 10 dúvidas esclarecidas pela infectologista Ana Cristina Gales, da Unifesp.

1 - Qual a velocidade de reprodução dessa bactéria?
As bactérias como as KPC, geralmente se multiplicam muito rápido, duplicando de número a cada 20 minutos.

2 - Qualquer pessoa pode ser infectada pela KPC? Há grupo de risco?
As pessoas que estão hospitalizadas, ou em contato com ambiente hospitalar têm maiores riscos. "Porém, pacientes hospitalizados em UTI?s com doenças debilitantes como câncer ou com transplante, e que receberam antibióticos apresentam maior risco de ser contaminado com a bactéria", diz Ana.

3 - Como ocorre a transmissão entre as pessoas?


A transmissão ocorre por meio do contato direto, como tocar a outra pessoa, ou por contato indireto, por meio do uso de um objeto comum, por exemplo. Assim, é bom evitar tocar superfícies de hospitais, como camas, portas e paredes. Para evitar a maior proliferação, não tome antibióticos por conta própria e siga as orientações médicas. Caso precise entrar em contato com pacientes, lave bem as mãos antes e depois.

4 - A KPC está espalhada nas ruas ou em qualquer ambiente?
Até o momento, as bactérias produtoras de KPC foram observadas somente em pacientes hospitalizados ou que estiveram no ambiente hospitalar. "No ambiente, provavelmente esta bactéria teria menos chance de sobreviver quando ?competisse? com outras, pois não criou ainda resistência", explica a médica.

5 - Quais são os maiores riscos?
O maior risco reside na não detecção da superbactéria, o que pode ocorrer com frequência por ser um organismo ainda desconhecido, causando eventual tratamento inadequado do paciente, o que aumenta as chances de morte do paciente.

6 - Como é feito o diagnóstico?
Existem testes especiais feitos caso o paciente apresente sinais e sintomas de infecção urinária, por exemplo. O médico irá solicitar exames urina e o antibiograma, que é o teste realizado para confirmar se a bactéria é sensível ou resistente a determinado antibiótico. "Por outro lado, se quero saber se um paciente está contaminado com a bactéria porque está ao lado de um paciente infectado por esta bactéria ou colonizado (que tem a bactéria no organismo, mas não apresenta infecção), solicitamos a realização de outro exame, o swab retal (introdução de um "cotonete"), para que seja avaliado se há o crescimento desta bactéria", afirma a especialista.

7 - Quais procedimentos devem ser adotados se houver o diagnóstico positivo?
Independentemente de o paciente estar infectado ou colonizado no ambiente hospitalar, ele será isolado em um quarto, as visitas serão restringidas, os profissionais da área saúde que o atenderem usarão medidas de barreira como avental e luvas que deverão ser desprezados antes de saírem do quarto do paciente. Se possível, estes profissionais não deverão prestar atendimento a pacientes não infectados ou colonizados, para não contaminá-los também.

8 - Como é o tratamento?
A maioria das amostras de KPC encontradas até agora são sensíveis aos antibióticos como aminoglicosídeos, polimixinas e tigeciclinas. "Porém, existe o risco de a bactéria desenvolver resistência a estas drogas, ou de o gene ser adquirido por uma espécie bacteriana que é naturalmente resistente à tigeciclina ou às polimixinas", diz Ana.

9 - Os hospitais devem fazer exames específicos nas pessoas em geral?
Não, uma vez que não existem casos de infecção fora dos quadros de risco descritos no país.

10 - Como posso me prevenir?
A lavagem das mãos, com sabão ou álcool gel, é a medida mais simples, mais barata e mais eficaz no controle da disseminação de das bactérias. Além disso, os profissionais de saúde devem manter todo o protocolo de medidas preventivas.