Wellington Menezes com arma; no destaque, revólveres usados no ataque à Escola Municipal Tasso da Silveira, em RealengoMobilização deverá ser iniciada na próxima sexta-feira, dia 6 de maio
tragédia na escola de Realengo, no Rio de Janeiro ocorrida no dia 7 de abril – quando 12 crianças foram mortas por um atirador, que se matou depois – fez o Ministério da Justiça adiantar a Campanha Nacional do Desarmamento para o dia 7 de maio deste ano. De acordo com o ministro José Eduardo Cardozo, um conselho de representantes do governo federal e da sociedade civil vai coordenar a mobilização.
O objetivo da Campanha é recolher o maior número de armas no país. Para tanto, traz novidades em relação às realizadas anteriormente, como a inutilização da arma já no ato da entrega e a ampliação dos postos de recolhimento.
Quem entregar as armas não precisará fornecer dados pessoais e receberá, na hora, um protocolo para sacar a indenização em uma agência do Banco do Brasil. Os valores da indenização podem variar de R$ 100 a R$ 300, de acordo com o tipo da arma. Outra novidade é a garantia do anonimato a quem se dispuser a entregar sua arma de fogo, já que não são exigidos dados pessoais nem para a indenização.
Além da indenização rápida, as armas serão inutilizadas no momento da entrega para impedir que voltem a ser utilizadas. Posteriormente, elas serão encaminhadas à Polícia Federal para o descarte total, que poderá ser feito por meio da queima em fornos industriais de alta temperatura.
A nova campanha estava prevista para começar em junho, pois o estudo do Mapa da Violência, divulgado no fim de fevereiro, e outras pesquisas mostram que a realização de campanhas anteriores foi decisiva para a redução da violência e de homicídios no país.
Em 2005, foi realizado um referendo sobre o mesmo assunto, e a maioria da população brasileira se posicionou contra a proibição do comércio de armas e munições. Na última campanha do desarmamento, feita entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009, foram recolhidas mais de 40 mil armas no Brasil. De acordo com a ONG Viva Rio, há 14,5 milhões de armas em circulação no país.
Senado
O desarmamento também está sendo discutido no Senado Federal. Na terça-feira, dia 12 de abril, o presidente do Senado, José Sarney, apresentou proposta de se fazer um novo referendo sobre o desarmamento. Segundo Sarney, o objetivo é debater um projeto de lei para uma nova consulta à população sobre a proibição da venda de armas de fogo no país. A proposta do senador é convocar uma nova consulta popular após 90 dias de sua aprovação no Congresso.
Sarney disse que já tem pronta a minuta de um projeto sobre o assunto, que será apresentada aos líderes em reunião convocada especialmente para discutir o referendo. “Eu já estou com um projeto pronto e vou apresentar na reunião de líderes. Se eles concordarem colocaremos o projeto em andamento para que possa passar pelas comissões e vir para o plenário”, disse.
Enquete
Nesta semana, a Tribuna de Ituverava foi às ruas ouvir a opinião do ituveravense sobre o desarmamento. A maioria dos entrevistados concorda em desarmar a população. “Sim, porque, em minha opinião, a população não sabe usar armas e diante de uma situação de estresse pode fazer alguma besteira”, defende a vendedora Tatiane de Paula Souza.
Já o agente funerário Wilson da Silva Rodrigues, 32 anos, não concorda com a possibilidade do desarmamento. “Não sou a favor, pois, infelizmente, as pessoas de bem, sempre são as mais prejudicadas, porque a Lei só seria boa se desarmasse os bandidos, mas isso não acontece e o desarmamento só ocorre com as pessoas de boa índole”, ressaltou.
Veja, na íntegra as respostas:
Sobre o ataque de Realengo
Massacres perpetrados por loucos em escolas têm ocorrido nos EUA e Europa. No Brasil não existiam até o dia 7 último, quando aconteceu o da Escola Municipal Tesso Silveira, no bairro Realengo da cidade do Rio de Janeiro. Wellington Menezes de Oliveira, um ex-aluno de 23 anos, dizendo que gostaria de fazer uma palestra aos estudantes, adentrou à escola, assassinou 12 crianças e adolescentes, além de ferir gravemente outro tanto. O infausto acontecimento comoveu toda a nação por estarem todas as vítimas na primavera da vida, pela dor das famílias atingidas por esse ignominioso fato e pela inexplicabilidade do mesmo.
Na década de 50 do século passado, li um livro de pedagogia, senão me engano de Aguayo, que o grande problema para um professor é o aluno que quase não se comunica. Dizia este autor cubano que aquela criança quietinha num canto da sala de aula, aquela que não parece existir pode ser o grande desafio para o educador, porque ninguém sabe o que ela pensa. E Aguayo mencionava o caso de um garoto, que era um “santinho” e que, mais tarde, na mocidade, praticou um ato terrorista, matando pessoas que nada tinham haver com a vida dele. Ele passará pela escola como um ótimo aluno, aquele que, em termos disciplinares, não dá trabalho aos professores, direção e funcionários.
Quando de um terrível acontecimento como o de Realengo, várias pessoas, algumas que jamais tiveram qualquer experiência como profissionais da educação ou da Psicologia Clínica, vêm a público com explicações disparatadas sobre a administração escolar e as causas do transtorno mental e comportamento anti-social de indivíduos como o citado assassino no Rio. Mas, para psicólogos e pedagogos, pessoas como Wellington têm uma história de vida mal vivida, na qual a família, a escola e outras instituições sociais falharam na formação do caráter delas. Daí terem idéias e sentimentos absurdos sobre o próximo. No mais profundo do seu ser existe o monstro, o anticristo, que nega todos os preceitos morais que a maioria da sociedade respeita.
O vulgarmente chamado louco é o que apresenta comportamentos inadequados, porque tem idéias, crenças, emoções e sentimentos que ferem o tido como norma na sociedade. No caso do insano Wellington, ele não aprendeu o fundamental na existência de uma criança em desenvolvimento, que é o amor. Viveu sozinho, não se comunicava e, isolado, construía um mundo todo seu, provavelmente com delírios de grandeza e de alcançar a glória futura, destruindo a fonte do que pensava ser o mal, embora fosse o bem de uma sociedade, as adoráveis crianças.
Não são a internet, a TV e o cinema que criam o anti-social, mas esses meios de comunicação fornecem farto material a ser encaixado na mente perturbada, que é a de um indivíduo caractenologicamente imaturo, o qual pensa atingir seus objetivos fictícios iludindo, mentindo, enganando, atos que tenta justificar com uma carta, pois sabe que, como mata, também será morto.
O anti-social geralmente é aquele que acumulou uma série de fracassos sociais, sofreu o bullyng (menosprezo de colegas), foi rejeitado na infância, vive solitário e é mimado. Preguiçoso e caçador de fama, mente e trapaceia para obter o desejado, que, inconscientemente, é o de livrar-se da criança abandonada que foi.
Apesar dos males feitos à educação nos últimos anos pelos políticos de aluguel, os professores têm o dever de fazer as crianças se comunicarem e manterem relações cordiais entre si. E, tanto isso é necessário, que são as justificativas para a existência de artes e educação física no currículo escolar.
P.S.: Nenhum membro da família de Wellington compareceu ao IML. O corpo não for reclamado por algum familiar foi erá sepultado como indigente. E pensar que um dia esse moço foi um “aluninho quietinho”.
Lannoy Dorin é professor de Psicologia Geral e da Personalidade, mestre em Psicologia, trovador e jornalista autônomo. Fundou o curso de Psicologia de Itatiba e da Faculdade de Psicologia Padre Anchieta. Atualmente, ministra aulas de Psicologia Geral e da Personalidade na Psicopoli, em Jundiaí. Autor de vários livros e artigos, e colaborador da Tribuna de Ituverava.