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O técnico do Vasco, Ricardo Gomes, que sofreu um AVC durante
06/09/2011

AVC FAZ MAIS DE 100 VÍTIMAS NO ESTADO DE SÃO PAULO


Pacientes com idades entre 30 e 49 anos responderam por 14% das internações em 2010

evantamento da Secretaria de Estado da Saúde aponta que, em média, 106 pessoas são internadas por dia em hospitais públicos do Estado de São Paulo com AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou AVE (Acidente Vascular Encefálico).

Em 2010, houve 38,9 mil internações por AVC no SUS (Sistema Único de Saúde) paulista, número acima das 36,1 mil registradas no ano anterior.

Pacientes com mais de 70 anos são os mais acometidos pela doença em todo o Estado, com 15,9 mil internações em 2010. A segunda faixa etária com mais hospitalizações é a de 50 a 59 anos, com 7,3 mil registros.

Já as pessoas entre 30 e 49 anos responderam por 5,5 mil internações em 2010.

Segundo o médico Reinaldo Teixeira Ribeiro, neurologista do Ambulatório Médico de Especialidades “Dr. Luiz Roberto Barradas Barata”, em São Paulo, as principais causas para a ocorrência de derrames são hipertensão arterial sistêmica (conhecida popularmente como pressão alta), diabetes mellitus (níveis altos de açúcar no sangue), dislipidemias (coleterol e triglicerídeos altos), tabagismo, obesidade, sedentarismo e estresse.

Além disso, o especialista ressalta que os principais fatores de risco, que costumavam aparecer apenas em pessoas acima de 40 anos, estão se manifestando cada vez mais cedo. “O estilo de vida urbano atual favorece com que as pessoas sejam estressadas, sedentárias, consumam alimentos ricos em gorduras, fiquem acima do peso e desenvolvam pressão alta e diabetes antes do que acontecia antigamente”, afirma Ribeiro.

Para o neurologista, um estilo de vida mais saudável com a redução do estresse, prática regular de atividades físicas e alimentação balanceada podem evitar com que fatores de risco como a pressão alta e o diabetes apareçam.

O médico afirma ser importante também que a população saiba reconhecer os sinais da doença para que haja socorro imediato, fator que favorece o tratamento. “Deve-se suspeitar que a pessoa esteja sofrendo um acidente vascular cerebral ou encefálico quando, de repente, fique com a boa torta para um lado; com um braço ou uma das pernas dormentes, pesados, difíceis de levantar e dificuldade para falar”, explica Ribeiro.

A cena de Ricardo Gomes, 46 anos, técnico do Vasco da Gama, sendo amparado por paramédicos e deixando o estádio em uma ambulância após passar mal durante o clássico contra o Flamengo, é o resultado de um acidente vascular cerebral (AVC).

Quando existe um entupimento nos vasos do cérebro (AVC isquêmico), uma parte do órgão pode deixar de receber sangue. A falta de nutrientes nesse local leva à morte das células.

Esse tipo de AVC responde por 80% dos casos.

No caso de Ricardo Gomes, o AVC foi do tipo hemorrágico, ou seja, com vazamento de sangue causado por um rasgo em um dos vasos do cérebro do treinador (veja o infográfico abaixo). Geralmente, a hemorragia pode acontecer tanto em uma região profunda (central) do cérebro ou na periferia.

O médico do Corpo Clínico do Hospital e Maternidade de Ituverava, Alcides Antônio Maciel Júnior, que já atendeu inúmeros casos de AVC e AVE, concorda com o neurologista Reinaldo Teixeira Ribeiro.

“Hoje, a ocorrência de AVCs é freqüente, devido ao estresse da vida moderna e os efeitos que ele causa no organismo humano, como má circulação e obstrução de vasos”, diz o médico.

Maciel Júnior disse que não há um mecanismo eficaz para se evitar os acidentes vasculares. “Não há uma maneira de se prevenir deles, a não ser, buscar uma qualidade de vida melhor, sem os atropelos da vida”, concluiu o cirurgião-geral.

Pressão dentro no crânio aumenta

com o derramamento do sangue

Com o sangue derramando ao redor da área do vazamento, a pressão dentro do crânio aumenta. Com isso, as células do cérebro podem morrer e o coração começa a ter dificuldade para enviar sangue com oxigênio para o local. “Isso é ruim, pois quanto mais pressão, menos sangue entra nos locais certos. Há a isquemia (falta de oxigênio) nos tecidos e o coração não tem força para bombear mais", explica o médico.

O sangue que vaza forma imediatamente um hematoma. O coágulo formado fora do vaso é uma defesa do corpo para conter o vazamento. “Ele ocorre fora do vaso, é diferente do entupimento dentro do vaso. Com o tempo o organismo pode absorver o coágulo e eliminá-lo”, explica Jamary Oliveira Filho, coordenador do Departamento de Doenças Cerebrovasculares da Academia Brasileira de Neurologia e professor da Universidade Federal da Bahia.

As hemorragias na região temporal (lateral) do cérebro são mais preocupantes quando ocorrem no lado esquerdo, já que existem chances de seqüelas na fala e compreensão. “O paciente passa a não entender o que dizem para ele, portanto existe uma dificuldade de comunicação”, explica Jamary. Caso ocorra no lado direito, pode haver alteração na visão.

"Tempo é cérebro"

Quem sofre um AVC costuma se queixar de dores de cabeça fortes, que chegam de repente. Muitas vezes um dos lados do corpo fica paralisado – é comum notar que a boca entorta ou como braços e pernas ficam fracos. Às vezes, o paciente também pode relatar perda de visão ou dificuldade para enxergar.

A partir dos primeiros sintomas, a ajuda médica deve ser buscada imediatamente. “Tempo é cérebro”, diz Jamary. “Se o atendimento for rápido, o indivíduo pode ter uma recuperação rápida, até mesmo sem seqüelas.”

Para Félix Pahl, médico do Núcleo de Neurologia e Neurociência do Hospital Sírio-Libanês, a rapidez também vale para as cirurgias, quando necessárias. "O importante é que o tratamento seja o mais precoce possível e, em algumas situações, é preciso operar rápido”.

Cuidado com a pressão

Um dos médicos do Vasco, Alexandre Campello, levantou a hipótese do técnico Ricardo Gomes não tomar corretamente os remédios que controlam a pressão arterial. Ele tinha um histórico de problemas no cérebro e chegou a apresentar um problema em 2010, enquanto ainda treinava o São Paulo.

Para Jamary Oliveira, medir a pressão dentro dos vasos sanguíneos é um dos únicos métodos preventivos para o AVC. “O principal cuidado que as pessoas podem ter é fazer consulta regular com o médico para fazer controle arterial”, afirma o médico. “Uma vez por ano já é suficiente para pacientes sem fator de risco e histórico familiar”.

Já Félix destaca algumas características que devem despertar a atenção das pessoas para a possibilidade de AVCs. "Ter mais de 50 anos, ser homem, negro, ter tido um AVC prévio, beber muito álcool, fumar, usar drogas, ter alterações no fígado e não produzir substâncias que coagulam o sangue direito. Todos esses são fatores de risco para esse problema”.