As fotos de uma pessoa morta arquivadas em computador se tornam lembranças para entes queridos. O problema é que, muitas vezes, elas são protegidas por senhasAs duas gerações da família Barroso têm duas maneiras de se relacionar com tudo aquilo que tem valor sentimental. Boa parte da história de vida da Wal e do Luís está espalhada sobre uma mesa. São fotos, discos de vinil, cartas, cartões, cartões postais e documentos. Um jeito de guardar bem diferente da maneira com que os netos, Pedro e Jéssica, guardam as suas recordações.
“Guardo tudo virtualmente”, diz o estudante Pedro Barroso. “Tudo no mundo virtual ou nas próprias redes sociais”.
E se os avós quiserem entrar nas fotos dos netos, nos documentos que eles guardam no mundo digital? “Aí já vai complicar bastante, porque a gente tem tudo travado com senha”, afirma Pedro. “Eu já até pensei assim: ‘Pô, amanhã eu vou começar a organizar isso, deixar tudo separado’. Sei lá, acontece alguma coisa”, conta o estudante.
Foi o que aconteceu com Rafael. Ele morreu muito jovem, aos 23 anos. “Em 2008, dia 1º de fevereiro, ele foi atropelado por um caminhão”, conta o pai, Eduardo Pfisterer.
Por sorte, Eduardo conseguiu fotos do filho com amigos dele, porque todas as outras estavam no computador de Rafael - com senha.
“Eu não tinha acesso às senhas dele, às senhas particulares dele”, diz Eduardo.
Renata Ribeiro viveu a mesma situação. Perdeu o irmão, Fábio, e não tinha as senhas dele. “Aí eu me questionei. E agora? O que eu vou fazer? Tentei, inicialmente, as primeiras senhas que vieram à cabeça, e nada entrava, nada desbloqueava”, conta Renata.
Ela fez de tudo para acessar o computador do irmão.
Acabou conseguindo a senha com a ex-namorada dele. Mas será que Renata tinha esse direito? Será que essa seria a vontade do irmão?.
“Acho que, de onde ele está, eu tenho a sensação de ele estar ao meu lado a cada momento em que eu abro o computador, em que eu vejo uma foto. Eu sinto que ele está curtindo comigo aquilo, tenho certeza”, diz Renata.
Eduardo pensa completamente diferente. “Eu não tenho o direito de tentar fuçar, botar um técnico para descobrir. Não me interessa”, opina. “Acho que estaria invadindo a privacidade dele, mesmo depois da morte. Sem dúvida, não é porque ele morreu que ele tem que abrir tudo que ele escondeu”, acredita o pai de Rafael.
Se você nunca tinha pensado nisso, saiba que, em Londres, um em cada dez britânicos já colocou ou pensa em colocar as senhas de internet no testamento. Isso mesmo. No testamento.
Chris Brauer, diretor do centro onde a pesquisa que revelou esse dado foi feita, explica: “As pessoas estão começando a se dar conta de que mudou a forma como guardamos as memórias”. E ele lança a seguinte questão: o que fazer para que essas memórias não se percam no mundo virtual?.
A primeira dificuldade é a família descobrir em quais sites, em quais redes sociais o parente tinha suas fotos, seus documentos guardados. E, se descobrir, ainda tem mais um problema: faz parte da política de privacidade das empresas de internet, como as que fornecem serviços de e-mails, por exemplo, não revelar as senhas nem mesmo em caso de morte. As redes sociais também não revelam as senhas, o máximo que permitem é a família manter o perfil da pessoa falecida do jeito que está, cancelar a conta ou transformar a página em um memorial, para amigos postarem suas homenagens.
Não seria o caso de os provedores começarem a pensar no que fazer com essas senhas em caso de morte?.
“Sem dúvida. Em várias situações no nosso dia a dia nos pedem um telefone de contato de uma terceira pessoa. Os provedores poderiam, também, pedir em uma situação dessa uma informação, caso a pessoa quisesse informar alguém que receberia esse contato em caso de falecimento”, diz Carlos Affonso Souza, professor de Direito e Tecnologia da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Algumas empresas estrangeiras já oferecem o que seria uma espécie de cofre digital. O serviço, segundo elas, garante aos herdeiros acesso à herança virtual de seus parentes falecidos. Já surgiu até uma rede social para conectar os usuários após a morte. Primeiro, você cria um avatar, uma versão virtual de você mesmo. Depois, um programa de computador treina esse avatar para responder como você responderia. E pronto: quando você não estiver mais por aqui, ele vai poder continuar conversando com os seus amigos. Estranho isso, não é?.
“Eu prefiro isso aqui. Sou mesmo das antigas”, diz a aposentada Waldice Barroso, segurando uma fotografia. “Pegar, matar a saudade, dar beijinho. Eu beijo minha família”, acrescenta ela.