GERAL

Pedreiro em obra na cidade: expansão do setor da construção civil tem formentado procura por mão-de-obra
30/07/2012

PROFISSÕES ANTIGAS NOVAMENTE ESTÃO EM ALTA NO MERCADO DE TRABALHO


Profissionais como padeiros, costureiras, bordadeiras, serralheiros e marceneiros, entre outras, voltaram a ser estrelas

Algumas profissões consideradas antigas estão em alta e com vagas sobrando no mercado de trabalho. Em Minas Gerais, uma escola-móvel do SESI qualifica profissionais como costureiras, quituteiras, bordadeiras e serralheiros, ofícios que eram passados de pai para filho, e que hoje têm poucos profissionais. As unidades móveis ficam 30 dias em cada cidade.

Outros 11 Estados brasileiros também contam com o projeto. Só em 2012, 430 pessoas fizeram o curso de costureira. O mercado tem muitos modelistas, cortadores e estilistas, formados em faculdades, mas as costureiras estão em falta. No segundo semestre, a produção de roupas sempre aumenta por causa do Natal, o que deve gerar 3 mil vagas em todo o país.

Em Salvador, o Sistema Nacional de Empregos (Sine) abre em média 20 vagas por mês para mecânicos de caminhões, mas nem sempre é fácil preenchê-las. Com a falta de mão de obra qualificada, uma revendedora de caminhões com filiais em todo o Nordeste decidiu há dois anos selecionar e treinar pessoal para completar o quadro.

Reformador atende apenas por encomenda e com agendamento
O que fazer com aquela poltrona velha, feia no canto sala? A primeira coisa que vem na cabeça é se desfazer do móvel. Porém, um antigo profissional pode solucionar este problema: o restaurador estofadista é considerado, hoje, o guru dos móveis antigos.

Há três anos, o motorista ituveravense José Vicente Neto, 56 anos, apostou neste mercado. Depois de 30 anos de estradas com seu caminhão, ele abandonou tudo para se dedicar a vida de reformador. O resultado é o número de encomendas que hoje recebe em sua “oficina”, juntamente com o sócio Flávio Henandes da Silva.

“Reformamos cadeiras antigas e móveis estofados em geral, aplicando técnicas de pintura e entalhes em madeira. Também fazemos toda a parte de estofamento de veículos, desde carros a caminhões. Nosso trabalho é bastante procurado por pessoas de Ituverava e região. O empresário explica que atende só por encomenda, devido ao grande número de pedidos.

Segundo ele, muitas pessoas ainda preferem móveis antigos. “É muito comum, hoje em dia, o produto novo ter uma qualidade inferior aos de antigamente. Por isso, a reforma do móvel é muito procurada. Para se ter idéia, estamos trabalhando em uma cadeira provençal estilo Luís XV, que certamente não é encontrada com facilidade. É este tipo de cliente que atendo”, concluiu Vicente Neto.

Costureira criou os três filhos com sua profissão
Quem nunca precisou de uma costureira? Pois, é. Em meio ao atual aparato tecnológico da moda, dos “tecidos inteligentes” e do mercado globalizado, elas resistem bravamente, tornando a profissão uma das mais procuradas da atualidade. Não é à toa que o governo estadual investe neste ofício, com a criação do Pólo da Moda – programa do governo estadual, que ensina a arte da costura. Ituverava tem o Pólo funcionando na Escola Profissionalizante “Mauro César Borzani Pereira.

A costureira Adair Rodrigues de Souza, 61 anos, exerce o ofício há mais de quatro décadas. “Foi através da costura que criei meus três filhos e formei minha família. Cheguei a não gostar da profissão, mas hoje só tenho a agradecer a minha profissão e às pessoas que confiam em meu trabalho”, ressalta.

Ela conta que começou a trabalhar nesta área com a ajuda da mãe, e posteriormente contou com o auxílio de uma cunhada para aprender a traçar moldes. “Não fiz cursos ou alguma profissionalização. Mas tive força de vontade, o que me ajudou a vencer. E trabalhei muito, nessa vida: chegava a confeccionar de 6 a 8 peças por dia, desde o molde, corte e a costura propriamente dita”,afirma.

Hoje, Adair é uma das profissionais mais elogiadas da cidade, tendo seu trabalho reconhecido tanto pelos mais velhos, quanto pelos mais novos. “Graças a Deus, cheguei a dar aula e repassar o pouco conhecimento que tenho para as pessoas. A gente vê hoje em dia, na televisão e nos jornais, o quanto as pessoas procuram por costureiras, o que me deixa feliz ao saber que uma pessoa está aprendendo algo que vai lhe proporcionar o sustento”,completa.

Padeiro recria todos os dias um dos alimentos mais antigos do mundo
Outro profissional que falta no mercado é a de padeiro. Algumas padarias têm treinado funcionários de outras áreas para exercer a função. Atualmente, são mais de 25 mil vagas disponíveis em todo o Brasil.

Na Padaria Vipão, em Ituverava, trabalha o padeiro Antônio Lima Fernandes, 34 anos, que exerce o ofício desde 1990. “Acho que o único problema da profissão é a falta de tempo. A maioria dos padeiros trabalha todos os dias, sem feriado ou outro dia de descanso. Mas é uma profissão boa, que tem melhorado, ao longo dos anos”, diz.

Fernandes conta que ingressou na profissão depois de fazer um curso de panificação em São Paulo, de onde veio. “Fiz influenciado pelos meus irmãos, que já trabalhavam em padaria. Aprendi a fazer muitas coisas, como preparar massas em geral, salgados, bolos e, principalmente, os chamados ‘quitutes da vovó’, como pudins e tortas”, afirma.

Ele completa com algumas dicas para aqueles que queiram seguir a carreira.

“Os cursos de panificação hoje são muito bons, mas não são tudo. Os profissionais que quiserem seguir o ofício não devem ter medo de ousar e de buscar novas versões pa-ra doces e salgados. Afinal, esta é a verdadeira arte do padeiro: ‘recriar’ o pão todos os dias um dos alimentos mais antigos do mundo”, explica Fernandes, que também tem a sua obra-prima: as carolinas de chocolate, que podem ser encomendadas na Padaria Vipão.

Programa “Fazendo Arte” já recebeu mais de 300 pessoas
Mais que um programa assistencial, o “Fazendo Arte” é um celeiro de talentos. O projeto é desenvolvido pela Prefeitura de Ituverava e tem o objetivo de ressociabilizar jovens, ensinando a arte da marcenaria para adolescentes com idade entre 13 e 17 anos. “O objetivo é profissionalizar estes jovens, dando-lhes a oportunidade de um futuro promissor, através de uma das profissões mais antigas do mundo”, afirma a coordenadora do “Fazendo Arte”, Ana Maria de Oliveira Abdalla Kikuda.

O programa ensina desde a elaboração e planejamento de móveis para toda casa a técnicas de artesanato e pintura. “Na parte artesanal, ensinamos pintura country, técnicas de decoupáge em tecido, madeira, guardanapo e papel, craquelex, entre outras. Já na marcenaria, elaboramos móveis planejados sob medida. É importante ressaltar que toda a equipe envolvida ensina com amor, mas o mérito é sempre de nossos alunos, que o fazem com dedicação”, complementa a também coordenadora Rosânea de Fátima Gonçalves Prata.

Em 8 anos de existência, o “Fazendo Arte” tem trabalhos renomados na cidade. “A famosa Casinha do Papai Noel todo ano é confeccionada pelos alunos do projeto. Nesta semana, estamos concluindo os móveis para um apartamento de Ribeirão Preto. Os produtos confeccionados – desde a cestinha de livros decorada aos armários e baús para cama – podem ser encontrados no show room, aqui no barracão onde funciona o programa”, acrescenta Ana Abdalla.

Mais de 300 adolescentes já passaram pelo “Fazendo Arte”. “É claro que não são todos, mas sabemos que muitos ‘meninos’ que passaram por aqui são hoje grandes profissionais, que se utilizam do conhecimento aprendido aqui para sobreviver. Isso, para nós, é muito gratificante”, finalizou Rosânea.

Escola Técnica de Ituverava oferece seis cursos para profissionalização
A Escola Técnica de Ituverava (ETEC) pode ser considerada um marco na formação de mão-de-obra na cidade. Com o crescimento da procura pelos profissionais técnicos, a instituição estadual – que é mantida pelo Centro Educacional “Paula Souza” – tem sido cada vez mais procurada.

Além do Ensino Médio, são ministradas aulas dos cursos de Administração (noturno); Contabilidade (noturno), Informática (diurno), Informática para Internet (noturno) e Serviços Jurídicos (noturno).

A grande novidade da ETEC, neste ano, é o curso de Farmácia que passou a funcionar segunda-feira, dia 23, oferecendo mais de quarenta vagas. O curso é ministrado no período noturno e tem duração de um ano e meio. De acordo com diretor da escola, Marcelo Inácio da Silva, a procura pelo curso tem sido muito grande.

Escola Profissionalizante oferece cursos para formar mão-de-obra
O município tem feito sua parte na capacitação de profissionais. A Escola Profissionalizante “Mauro César Borzani Pereira” oferece cursos que visam justamente a profissionalização da mão-de-obra – o que não é algo tão simples.

A partir de segunda-feira, começa as aulas do segundo semestre para os cursos de Cabeleireiro, Computação, Manicure, Artesanato em Jornal, Tear, Crochê, Bordado, Inglês, Italiano e Espanhol.

Os cursos são gratuitos. Para se inscrever, os interessados podem procurar a secretaria da Escola, na Rua Antônio Abdalla, 415 (Alto da Estação). “É uma ótima oportunidade para fazer um curso de qualidade e aprender uma profissão, que pode gerar renda”, ressaltou a diretora Maria Tereza Pontes da Cruz Macedo, em entrevista anterior.

Mestre de obras compara os profissionais de hoje e outrora
Só no estado de São Paulo, a construção civil emprega 860 mil trabalhadores, a maioria pedreiros. Porém, há vagas sobrando.

Segundo o sindicato da categoria, seriam necessários mais 40 mil profissionais para atender o aumento da demanda. A procura é tão grande, que as construtoras estão procurando mão de obra em cursos de qualificação.

O ituveravense Benedito Silva, 69 anos, conta que ingressou na profissão em 1962. “Foi através dela, que criei minha família e meus filhos”, enfatizou o pedreiro, que começou na profissão como ajudante, com o pedreiro Waldir Bastos (“Didi”). “Foi com ele e seus ajudantes que aprendi o ofício”, explicou.

O pedreiro conta que com tantas mudanças no setor da construção civil, nos últimos anos, o jeito foi reciclar. “Sempre que posso participo de cursos e palestras sobre o setor, para sempre me atualizar. Afinal de contas, a gente deve ser estar com a cabeça aberta para o trabalho. É uma dica para quem está começando”, afirmou.

Ao longo de 50 anos de profissão, ele diz que já trabalhou em grandes obras. “Hoje, sou contratado como mestre de obras da Fundação Educacional de Ituverava. Mas, já trabalhei em muitos lugares na cidade e fora. É uma profissão que me ajudou muito”, finaliza.