Defesa de João Paulo Cunha admitiu receber dinheiro, mas negou desvio. Ex-ministro Márcio Thomaz Bastos abriu sustentações orais nesta quarta.Na quinta sessão do julgamento do mensalão - a terceira consecutiva para ouvir a defesa dos réus -, os advogados de três ex-dirigentes do Banco Rural afirmaram, durante as sustentações orais desta quarta-feira (8), que seus clientes não participaram das irregularidades denunciadas pela Procuradoria Geral da República - de que a instituição deu empréstimos fictícios ao grupo de Marcos Valério e financiou o esquema de compra de votos no Congresso.
A defesa do deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), por sua vez, confirmou que o parlamentar recebeu dinheiro do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, mas negou desvio de recursos públicos.
O advogado do ex-ministro Luiz Gushiken disse que, mais do que não haver provas da participação, seu cliente é inocente. Ele pediu a "retratação" por parte da Procuradoria em relação a Gushiken. Dos 38 réus que respondem pelo esquema denunciado em 2006, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pediu a condenação de 36 dos acusados. Para Gurgel, Gushiken deve ser absolvido por "insuficiência" de provas. A sessão desta quarta durou pouco mais de cinco horas, mais tempo do que nos dias anteriores, porque quase todos os advogados que usaram o púlpito do Supremo Tribunal Federal (STF) aproveitaram o tempo máximo destinado para as sustentações orais.
Nesta quarta, houve a primeira intervenção de um ministro durante as argumentações dos advogados dos réus do processo do mensalão. O ministro Dias Toffoli, cuja presença no julgamento era incerta, fez um questionamento. Toffoli já advogou para o PT, partido que tem sete filiados como réus.
CInco réus desta quarta
O ex-ministro Márcio Thomaz Bastos foi primeiro a falar. Ele negou a acusação de que seu cliente, José Roberto Salgado, que foi vice-presidente do Banco Rural, foi responsável pelo financiamento do esquema do mensalão em troca de vantagens. Para ele, a denúncia é "construção mental".
Maurício de Oliveira Campos Júnior, que defende o dirigente do Banco Rural Vinícius Samarane, disse que seu cliente notificou ao Banco Central todos os saques realizados pelo grupo de Marcos Valério, ao contrário do que afirma a denúncia.
O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, da ex-vice-presidente de suporte operacional do Banco Rural Ayanna Tenório, afirmou que sua cliente responde ao processo do mensalão somente por conta do cargo que exercia, mas que ela não tinha conhecimentos sobre irregularidades praticadas. Chamou o fato de “responsabilidade de papel”.
O criminalista Alberto Toron, que defende João Paulo Cunha, considerou a denúncia de que seu cliente cometeu lavagem de dinheiro, corrupção e peculato como “fantasmagórica”.
Último advogado a falar nesta quarta, Luís Justiniano de Arantes Fernandes afirmou que Luiz Gushiken, ex-ministro da Secretaria de Comunicação do governo federal à época do escândalo do mensalão, não quer apenas sua absolvição, mas “o reconhecimento de sua inocência”.
O julgamento
O julgamento do mensalão começou na última quinta-feira (2) com a leitura do resumo da ação penal feita pelo relator Joaquim Barbosa, que apresentou o nome dos réus e explicou a quais crimes eles respondem. Na sexta-feira (3), Gurgel pediu a condenação de 36 dos 38 réus do processo e apontou o ex-ministro José Dirceu como líder do grupo criminoso.
Nesta segunda (6), os advogados de Dirceu e José Genoino negaram a existência do mensalão. A defesa de Delúbio Soares e Marcos Valério, no entanto, confirmou a existência de caixa dois - uso de recursos não declarados - após a campanha presidencial de 2002.
Os advogados de quatro réus do processo do mensalão ligados a Marcos Valério afirmaram na terça (7) que seus clientes desconheciam a prática de atividades ilícitas e negaram ter conhecimento sobre o suposto esquema. Além dos quatro ligados a Valério, falou ainda o ex-ministro José Carlos Dias, advogado da ex-presidente e atual acionista do Banco Rural Kátia Rabello. Dias negou que o banco fizesse empréstimos fictícios ao grupo de Valério.
Para esta quinta-feira (9) estão previstas as sustentações orais dos advogados dos réus Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil, do ex-deputado Pedro Corrêa, do deputado federal Pedro Henry, do ex-assessor parlamentar do PP João Cláudio Genú e de Enivaldo Quadrado, acusado de usar a empresa para lavagem de dinheiro.