Sala de aula: professor deve prestar atenção em seus alunos para diagnosticar as causas das dificuldades de aprendizagemEle é muito desatento”. Quem nunca ouviu esta frase sobre um colega de escola, um filho ou mesmo sobre si próprio? Ela pode traduzir uma situação mais freqüente do que se imagina: a dificuldade de aprendizado, que pode levar ao baixo rendimento escolar e pouco envolvimento em relação às atividades escolares.
O problema pode ter causas emocionais. “Isso ocorre porque desenvolve uma visão negativa de si mesmo e pela capacidade de aprender, o que leva à baixa tolerância à frustração, ou seja, o aluno não se expõe a situações que podem levar ao erro”, explica a psicopedagoga ituveravense Alessandra Leite Saraiva. Segundo ela, quem tem baixa tolerância à frustração quer resultado imediato e não aceita errar nem persiste nas tentativas que o levará ao sucesso.
Em entrevista à Tribuna de Ituverava, Alessandra explica que o erro é condição fundamental para aprender, pois significa que o sujeito está agindo sobre o conteúdo abordado e elaborando hipóteses sobre o que está sendo aprendido.
“Entretanto, para que isso aconteça, é necessário que o indivíduo se permita errar... Sem erro, não há aprendizagem”, explica.
Atentos
Os pais devem se atentar para sinais que podem indicar dificuldades no processo de escolarização, o mais cedo possível. Sabe-se que a identificação, análise, diagnóstico e intervenção precoce das dificuldades de aprendizagem são essenciais para que o problema não se torne crônico, pois uma dificuldade pontual ou apenas típica do desenvolvimento sem intervenção adequada, no tempo certo pode perdurar para o resto da vida da pessoa.
“Assim, é preciso analisar se a dificuldade é específica e momentânea (em uma disciplina, por exemplo) ou se é estrutural (quando há danos nas estruturas do pensamento ou há um padrão de comportamento que inviabilizam a aprendizagem, como a hiperatividade).
A psicóloga explica ainda que esta afirmação não despreza o fato de que cada criança apresente o ritmo e estilo únicos de aprendizagem. “Isso mostra que o diagnóstico e intervenção adequada nesta situação deve ser feita o mais cedo possível”.Equipe escolar Alessandra ressalta ainda que, normalmente, o professor juntamente com a equipe pedagógica da escola é quem identifica inicialmente a dificuldade de aprendizagem. Segundo ela, os pais podem até perceber algo diferente ou que não vai bem, mas é nos anos iniciais de escolarização – com a formalização da alfabetização, a apresentação sistematizada dos conteúdos e o aumento das exigências das primeiras avaliações – que as dificuldades se tornem mais evidentes.
Nesse sentido, é necessário esclarecer o papel de todos os envolvidos no processo. “Os pais devem buscar as alternativas apresentadas pela escola, pois os professores são os que acompanham mais de perto o funcionamento e a estrutura de pensamento de cada criança e, por terem formação específica na área, podem identificar possíveis dificuldades e hipóteses sobre suas causas. A escola tem o dever de alertar e conscientizar os pais sobre as dificuldades que a criança apresenta, à medida que sob pena de omitir informações relevantes para os pais, retardar o diagnóstico e a intervenção. Para tanto, deve haver transparência da escola e abertura para os pais realmente ouvirem o que a escola tem a dizer sobre seu ilho”, complementa a psicóloga.
Ansiedade dos pais sobre desempenho de seus filhos deve ser controlada
Outro aspecto importante é os pais controlarem a ansiedade e exigências diante do desempenho escolar de seu filho.
“Na minha experiência profissional, uma das dúvidas mais recorrentes dos pais é sobre seu papel na hora de realizar a tarefa de casa. Cabe aos pais orientar, oferecer o ambiente adequado e as condições necessárias para sua realização, mas gradativamente a criança deve não só assumi-la como seu dever, mas também as consequências de sua não-realização”, afirma.
Isso também se aplica à qualidade da tarefa realizada, os pais devem exigir dedicação, mas não perfeição, que a criança pode, muitas vezes, não alcançar. Muitas vezes, a tarefa entregue correta e perfeita mascara o real desempenho da criança.
“A tarefa de casa é uma das formas que o professor tem de avaliar não só o aluno, mas também as condições ensino-aprendizagem que está oferecendo. É normal que a tarefa contenha erros, pois, caso contrário, ela está erroneamente perfeita, o professor pensa que está tudo bem e que não precisa reorientar suas estratégias”, observa a psicopedagoga.
“Olhar” do especialista
Muitas vezes, os pais falam sobre o problema na frente da criança, sem nenhum pudor, como se ela não entendesse o que se passa, comparam o desempenho da criança com outro filho ou colega de turma, aumentam o nível de exigência ou, simplesmente, negam a gravidade do problema. Nenhuma destas saídas resolve o problema, que deve ser encarado de frente. Por isso, a orientação de um especialista na área é importante”, enfatiza a psicopedagoga.
Segundo ela, a procura pelo profissional especializado reduz o nível de ansiedade, a sensação de impotência e o sentimento de culpa que os pais alimentam diante das dificuldades de aprendizagem. Muitas vezes, orientações simples amenizam e até resolvem a problemática, mas, ainda de acordo com Alessandra, a negação dos pais também é o fator que mais retarda o diagnóstico, pois quando a escola chama os pais para uma conversa, ela já esgotou, muitas vezes, suas possibilidades de ação.
“Por outro lado, a escola também precisa do ‘olhar’ do especialista sobre as dificuldades de aprendizagem da criança para que novas estratégias pedagógicas possam ser colocadas em prática”, acrescenta.
A psicopedagoga finaliza dizendo que a dificuldade de aprendizagem deve ser compreendida como o resultado da interação de inúmeros fatores que, analisados sozinhos, não conseguem explicar a complexidade deste fenômeno.
“Neste jogo de forças, encontramos os fatores biológicos, neurológicos, cognitivos, emocionais e pedagógicos. Por isso, o diagnóstico e a intervenção das dificuldades de aprendizagem requerem a ação de uma equipe multidisciplinar envolvendo psicólogo, neurologista, fonoaudiólogo, professores, psicopedagogo, entre outros”, diz Alessandra
“O papel da intervenção pisicopedagógica é de movimentar o processo ensino- aprendizagem, relacionando o indivíduo como o protagonista da sua aprendizagem. Para isso, o trabalho é realizado com foco no sujeito qe aprende, na orientação dos pais e da escola para estabelecer novas condições que favoreçam a aprendizagem”, conclui.
Dicas & Sugestões
Algumas dicas importantes para os pais que têm filhos com dificuldades de aprendizagem:
Controlar as expectativas em relação ao desempenho do seu filho.
Evitar comparar o desempenho do filho com irmãos e colegas de turma melhor sucedidos na aprendizagem.
Valorizar as produções realizadas pela criança. Ainda que não esteja dentro de padrão de qualidade.
Reservar-se o direito de ser apenas pai e mãe em relação às atividades escolares e extra-escolares. Se o momento da tarefa é um momento extenuante, tanto para pais quanto para filhos, procure formas de amenizar a situação, como um professor particular ou compreender que a tarefa deve ser realizada pela criança como ela pode fazer.
Estabelecer uma relação de confiança, colaboração, respeito e diálogo com toda equipe escolar.
Evitar falar na frente da criança sobre ela e seu desempenho escolar.