Adolescentes jogam RPG On-line, em lan house: alguns ficam várias horas e até dias na frente do computador Filho, sai da frente desse computador ou desse videogame”. Com certeza, esta é uma das frases mais ditas por pais, nos dias atuais. De tanto ser massificada, a questão começou a ser estudada pela comunidade de Saúde, em todo o mundo. O que se descobriu não tem nada de divertido.
Os jogos eletrônicos estão criando uma legião de adolescentes dependentes e levando à especialização do atendimento psicológico e psiquiátrico no Brasil.
Fenômeno recente, esse tipo de vício fez também com que clínicas para dependências químicas (como álcool e tabagismo) se adaptassem para tratar a nova patologia. Agora, os chamados dependentes cibernéticos também podem ser recebidos por determinadas instituições de saúde.
Não é raro que psiquiatras e psicólogos se deparem com casos de adolescentes e adultos jovens com graves conseqüências em suas vidas por causa do uso excessivo dos jogos. Pesquisas também mostram semelhanças entre os jogos on-line e os de azar, como bingos.
Poder viciante
Entre os jogos de videogame, aqueles que têm o maior potencial de criar dependência são conhecidos como MMORPG ("massively multiplayer online roleplaying game").
Traduzindo: diversos participantes se aventuram em desafios e simulações de guerras (para citar um dos cenários do RPG) de forma intensa, por muitas horas ou até dias seguidos.
A Associação Americana de Psiquiatria chegou a considerar a inclusão do vício em videogames na nova e quinta versão do DSM (Manual de Diagnósticos e Estatísticas), mas decidiu que ainda não há evidências suficientes.
O poder viciante desses jogos tem a ver com suas características: não há "game over"; o sucesso depende das horas investidas; e os desafios requerem um grupo de jogadores (para lutar contra o próprio jogo ou contra outras equipes), o que os torna responsáveis pelo time e os desestimula a deixá-lo.
Pais devem definir regras para uso dos games, diz psicóloga
À pedido da Tribuna de Ituverava, a psicóloga Alessandra Leite Saraiva analisou a questão. Para ela, é fundamental a importância da presença dos pais, neste período da vida dos filhos.
“Os pais devem ter claro que a criança e o adolescente não têm a maturidade necessária para, sozinhos, controlarem o tempo de dedicação aos jogos. É função educativa dos pais definirem, com a participação dos filhos, regras claras para o uso do computador e videogame, supervisionar se elas estão sendo respeitadas e aplicar as punições previamente acordadas quando não forem cumpridas”, explicou.
Segundo ela, outro fator importante é pais e filhos buscarem novas alternativas lúdicas que extrapolem a comodidade do uso dos jogos. “Muitas vezes, os pais acabam estimulando o hábito dos jogos eletrônicos, pois é uma situação que permite, em parte, ter controle sobre os filhos. Além disso, enquanto jogam, normalmente em casa, os filhos se ocupam por um determinado tempo sem exigir tanta atenção dos pais”, acrescentou a psicóloga.
Alessandra também ressaltou os efeitos benéficos dos jogos eletrônicos que estimulam o raciocínio lógico, agiliza o pensamento, contribui para a memória, atenção, coordenação motora, entre outros.
“Entretanto, o uso excessivo destes jogos pode também ser prejudicial. Há pesquisas que relacionam os jogos em computadores e videogame com o baixo rendimento escolar, aumento da agressividade, obesidade, diminuição do convívio social e familiar”, complementou a psicóloga.
“Os pais devem ficar atentos para o modo como os filhos se relacionam com os jogos eletrônicos, pois o excesso é patológico. É preocupante quando o jogo passa a ocupar lugar central na vida da pessoa e prejudicar várias dimensões da sua vida, como por exemplo, o rendimento escolar e o convívio social”, concluiu Alessandra.
Patologia também pode ser encontrada em outros países
Em outros países, o problema é mais discutido e também mais grave: Coréia do Sul, China e Estados Unidos têm casos de mortes de jovens em decorrência de dias ininterruptos de jogos.
Nos Estados Unidos, no início do mês de setembro, um garoto de 15 anos foi hospitalizado por exaustão e desidratação após jogar "Call of Duty" por quatro dias inteiros.
Serviços
especializados em jogos on-line também são mais numerosos e existem desde 2006 na Europa. Na Coréia do Sul há até um acampamento de “desintoxicação” de jogos para meninos, onde eles fazem atividade física e reaprendem a brincar.
Passatempo
A tendência, dizem especialistas, é que o problema comece cada vez mais cedo, até porque já há redes sociais com jogos para crianças, e o uso de eletrônicos é estimulado pelos próprios pais.
"Sempre se pensou que era um passatempo inofensivo. Mas começamos a ver uma situação curiosa nas famílias: o problema estava dentro do quarto dos adolescentes, enquanto os pais achavam que assim estavam seguros", afirma Daniel Spritzer, psiquiatra e coordenador do Grupo de Estudos de Adições Tecnológicas, em Porto Alegre.
Interação com outras pessoas é um dos fatores que levam ao vício
Muitos profissionais da área da Saúde explicam o porquê dos jogos eletrônicos viciarem. "Muitos dos pacientes contam que o mais legal é a interação com os colegas no jogo. Dizem se sentir mais valorizados, queridos e eficazes no jogo, do que em casa ou na vida", diz Cristiano Nabuco, pesquisador na área de dependência em internet do Instituto de Psiquiatria da USP.
A psiquiatra Analice Gigliotti, chefe do setor de dependências químicas da Santa Casa do Rio de Janeiro e médica do Espaço Cliff, conta que começou a tratar dependentes de tabaco há 20 anos, mas há pouco tempo teve de aprender a lidar com os jogadores compulsivos. "A internet é a dependência da vez, com um uso cada vez mais distribuído. Nela, os jogos on-line são os mais perversos", afirma.
Além do Rio, há serviços especializados em dependências tecnológicas em São Paulo e Porto Alegre.
Psiquiatras e psicólogos que tratam de transtornos do impulso também têm lidado mais e mais com jogadores on-line.