O comerciante José Benedito Galdiano, proprietário do Foto GloboComerciantes da Avenida Dr. Soares de Oliveira reclamam do volume e do número de carros de som
Todo tipo de publicidades deve ser muito bem-vindo para as empresas. A propaganda sonora não é diferente, pois também é um meio de comunicação perfeita entre a empresa e o consumidor final. É claro, se for bem feita! Caso contrário, os efeitos podem ser devastadores para o produto divulgado, principalmente porque, ao invés de informar, a propaganda passar a incomodar.
Comerciantes da Avenida Dr. Soares de Oliveira vivem este problema. Há vários anos, a Tribuna de Ituverava denuncia o abuso do alto volume das propagandas sonoras na cidade. A maioria dos proprietários de estabelecimentos na Avenida e do centro da cidade tem a mesma opinião: a propaganda sonora incomoda ao ponto de atrapalhar proprietários e clientes.
“É um inferno”, disse o comerciante Alexandre Moysés Neto, proprietário do Restaurante Ponto Chic. “Se os caminhões e carros passam, com o som alto, não se escuta nada no telefone e nem o que o cliente fala pessoalmente. Além disso, o som muito alto causa distorção. Então, a gente só consegue entender a propaganda depois de vários metros. Pelo jeito que as coisas vão, a propaganda sonora na cidade acabará sendo proibida, como foi em Franca, devido ao abuso do volume”, afirmou.
Segundo a comerciante Eliana Galdeano Coelho Burim de Carvalho, da Stock Modas, os clientes às vezes vão embora devido ao volume alto dos carros de som. “Alguns até deixam a loja, reclamando do som que está passando e não permite a comunicação. O som alto incomoda as pessoas. Deve ser no volume certo para que a publicidade seja compreendida e assimilada”, ressaltou.
A farmacêutica Simone Machetti Jabur e Silva, proprietária da Simofarma, disse que precisou chamar uma empresa técnica para aumentar o volume de seus telefones. “Na época da política, com a propaganda sonora naquele volume, precisei chamar o técnico para aumentar os volumes dos telefones, pois não entendia nada que o cliente dizia. Além do volume altíssimo, o fluxo de carros de sons era intenso, e revoltava os clientes, inclusive os mais idosos”, observou.
Outro comerciante da Avenida Dr. Soares de Oliveira, que preferiu não se identificar, afirmou que, a cada dez minutos, três carros de som passam por aquele trecho. “É um incômodo total. Entendo que é uma forma das pessoas buscarem por seu sustento. Mas, assim, é demais”, complementou.
Veja, na íntegra as respostas:
Comerciante é entrevistado pela TV Record sobre o tema
O comerciante José Benedito Galdiano, proprietário do Foto Globo, foi entrevistado pela Rede Record, no último sábado. “Não pedimos muito: apenas que os condutores de carros de som tenham a fineza de manter o volume mais baixo, e que os proprietários de veículos com som automotivo diminuam o volume nos semáforos. É uma situação insuportável”, disse.
Galdiano afirmou também que sofre prejuízos. “Devido ao som extremamente alto, o computador do estúdio que utilizo para fazer cópias de DVDs ou para digitalizar começa a trepidar e o CD é inutilizado, desta maneira perco todo o trabalho”, disse o comerciante, que está instalado no local há cerca de 25 anos.
“O ideal seria que a propaganda fosse feita em determinada hora do dia, dentro dos limites aceitáveis, e não oito horas seguidas. Outra questão são os alto-falantes, que deveriam ser direcionados para a Avenida e não para dentro das lojas, como são atualmente. Veja bem: os propagandistas da bicicleta, por exemplo, fazem um trabalho ótimo, sem incomodar ninguém. Por que os outros não podem fazer dessa forma?”, completou Galdiano.
Propaganda sonora muito alta pode causar rejeição do produto
Os profissionais da área afirmam: a propaganda sonora feita de forma errada pode trazer prejuízos à marca ou empresa. “Ela se torna um mal quando infringe a legislação, excedendo o horário e o volume permitido”, afirma o publicitário Júnior Pinheiro, um dos proprietários da empresa Oficina da Comunicação.
“Na comunicação, existem duas figuras principais: emissor e receptor. A propaganda sonora mal feita ou fora dos padrões aceitáveis pode provocar antipatia e até rejeição do produto por parte do receptor, no caso, o consumidor”, complementa Pinheiro.
A diretora do departamento de marketing da Fundação Educacional de Ituverava, Ângela Viegas de Freitas – que já foi responsável pelo marketing da marca Carmen Sthephen’s e do provedor Com4 – diz que prefere optar por outras linguagens e mídias para chegar ao consumidor.
“Infelizmente, o que vejo em Ituverava é que os propagandistas não respeitam nem os hospitais. Então, é complicado optar por um tipo de mídia como esta, pois não sabemos qual será sua aceitação ou rejeição. Uma coisa é certa: se ela é feita de forma desrespeitosa, a repercussão disso será inteiramente sobre o produto divulgado”, ressaltou.
Proprietário de veículos com som alto também podem ser multados
Na tentativa de conter a poluição sonora, o governo – em todas as suas esferas – iniciou uma verdadeira guerra conta o exagero. Algumas Leis foram elaboradas, como a 9.605/98, que trata de crimes ambientais. No artigo 54 desta mesma lei, é considerado crime causar poluição de qualquer natureza em níveis que resultem ou possam resultar danos à saúde humana.
A resolução 204 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) regulamenta o uso de equipamentos sonoros em veículos. A Lei, que desde dia 10 de novembro de 2006 foi ativada, estipula multa ao condutor de veículo com som alto. Os motoristas que forem flagrados com o nível do som maior de 104 dB incorrerão em “Falta Grave” e terão de pagar R$ 127,69; e cinco pontos irão para seu prontuário no Detrans.
Para que a multa tenha validade, o agente de trânsito terá que comprovar a infração com um decibelímetro. Vale lembrar que as leis não se aplicam apenas à propaganda sonora, mas a qualquer abuso do som cometido. Como é o caso de proprietários de veículos que ligam o som alto ou que estacionam em determinado lugar, e incomodam.
Em entrevista à Tribuna de Ituverava, o comandante interino da Polícia Militar de Ituverava, sargento Paulo César Bezerra de Oliveira, afirma que a PM pode multar quem abusar do som. “Se houver denúncia, a viatura vai até o local e mede o som com o aparelho chamado decibelímetro. Se o volume exceder ao máximo permitido, ele é orientado a abaixar o som imediatamente, e autuado pela infração cometida. Vários motoristas já foram autuados, por agirem sob esta circunstância. Nosso decibelímetro fica dentro da viatura”, explicou.
O delegado do município, Wilson dos Santos Pio, também concorda com a reclamação da população. “Particularmente, acredito realmente que estão extrapolando e chego a me incomodar muitas vezes com o barulho exorbitante dos carros de som”, ressaltou.
Ele também afirmou que as pessoas que se sentirem prejudicadas podem procurar diretamente a Polícia Civil para registrar ocorrência. “Se possível, elas podem nos procurar já com o nome das devidas testemunhas, para facilitar o trâmite processual. Vale lembrar que a poluição sonora é crime que, em casos mais graves de reincidência, os veículos poderão até ser aprendidos para uma análise da Polícia Científica”, finalizou.
Secretária já procurou Ministério Público para sanar o problema
A secretária Nelma Ferreira de Oliveira é o exemplo de que a população pode se engajar para evitar esta situação. Formada em Direito, Nelma – que estava indignada com o descaso dos proprietários de carros de som – resolveu dar um basta.
Ela registrou um boletim de ocorrência de “Perturbação de Sossego”, colheu assinaturas de comerciantes da cidade para fazer um abaixo-assinado contra o volume alto da propaganda sonora e encaminhou à Promotoria de Justiça. O resultado foi uma ação – que foi proposta pelo Ministério Público e julgada procedente – condenando proprietários de som a pagarem cestas básicas doadas a entidades filantrópicas.
“Infelizmente, o trabalho foi abençoado com uma vitória apenas momentânea, não surtindo o efeito necessário. Hoje, tudo continua igual ou pior que antes do processo. O som continua alto demais, incomodando muito as pessoas”, afirmou.
Nelma finalizou dizendo que os carros de som deveriam ser melhor fiscalizados pela Prefeitura. “Deveria haver uma melhor regulamentação de taxas e horários para funcionamento e, principalmente, a Prefeitura estar ‘mais presente’ na aplicação e fiscalização da legislação, para que o problema finalmente acabe”, concluiu.