GERAL

Discussão no trânsito: mau humor pode trazer problemas ao organismo
23/11/2012

MAU HUMOR PODE SER UMA DOENÇA GRAVE


Campo de pesquisas revela que episódios de mau humor causam danos

Tá com a vó atrás do toco”. Alguns podem não saber o que significa esta expressão, mas, com certeza, já passaram por este estado de espírito: o mau humor. Quem o tem, pode simplesmente acordar com ele ou desenvolvê-lo durante do dia. O tema foi assunto de reportagem da Revista “Isto É”, em reportagem assinada pelas jornalistas Cilene Pereira, Mônica Tarantino e Monique Oliveira.

Nela, as jornalistas citam que, embora para muitos possa parecer algo banal, esse estado de espírito traz muito mais prejuízos à saúde e à vida do que se imagina. Segundo a reportagem, um crescente campo de pesquisas está revelando que episódios de mau humor causam danos importantes no organismo.

“Ele provoca reações fisiológicas que resultam em diversos problemas de saúde”, afirma a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da seção brasileira da International Stress Management Association (Isma-BR), entidade voltada para o estudo e gerenciamento do estresse. Uma amostra do impacto pode ser observada nos resultados de uma pesquisa realizada pela instituição.

De acordo com o trabalho, 85% dos indivíduos mal-humorados apresentam bruxismo ou rangem os dentes, 12% são hipertensos, 42% não têm boa qualidade de sono e 68% apresentam dificuldade de concentração. Além disso, eles sofrem o enfraquecimento do sistema de defesa do corpo, ficando vulneráveis ao ataque de vírus e bactérias, e mudanças metabólicas que contribuem para a maior contração dos vasos sanguíneos, o que eleva ainda mais o risco para doenças cardiovasculares.

Danos no organismo são principais conseqüências do mau humor
Esses danos são basicamente conseqüência das mudanças provocadas pelo sentimento na química cerebral. Ele é uma resposta emocional a algo considerado uma ameaça ao bem-estar. Pode ser qualquer coisa: uma fechada no trânsito, um encontro com uma pessoa desagradável.

Entendido dessa maneira, o cérebro se organiza para reagir a tal ameaça. Estruturas são acionadas e o resultado é a liberação em cascata de hormônios como a adrenalina e o cortisol. “Isso faz com que o corpo fique em estado de alerta máximo, com péssimo resultado para a saúde”, diz o neurologista Fernando Gomes Pinto, do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC-SP).

Conseqüências indiretas

Existem conseqüências indiretas também. “O mau humor afeta os pulmões”, diz Ana Rossi. “Quando a pessoa está tensa, a expansão pulmonar durante a respiração fica prejudicada. Há predominância da respiração torácica em lugar da abdominal, que é mais profunda”, diz a especialista. Segundo ela, isso faz com que o pulmão não funcione com eficiência. “Um dos resultados é uma sensação constante de cansaço”, explica Ana Rossi.

Uma pesquisa da Universidade de Brasília com 64 trabalhadores da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal, por sua vez, mostrou como o sentimento pode afetar a ergonomia no trabalho.

De acordo com o estudo, a disposição inadequada dos elementos e ferramentas para a prestação de serviços leva a um ciclo de dores posturais e ansiedade, ao mesmo tempo causas e conseqüências do mau humor dos funcionários.

“As localizações do guichê e da recepção de informação encontram-se inapropriadas. Os subordinados não conseguem encontrar os chefes nem os colegas”, descrevem os autores. “Há um predomínio da vivência do sofrimento com claros prejuízos fisiológicos individuais”, pontuaram.

Entretanto, há um nível ainda pior do mau humor. É quando ele se torna patológico. Nesse caso, recebe o nome de distimia – uma longa crise de mau humor que perdura por pelo menos dois anos, acompanhado por alterações do sono, do apetite e que encontra precedentes no histórico familiar.

“Ela é um subtipo de depressão”, explica o psiquiatra Táki Cordás, do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Segundo o médico, acredita-se que as pessoas com distimia já tiveram depressão em algum momento do passado e ficaram com um resíduo. “A distimia traz prejuízos para as relações e é incapacitante”, afirma o psiquiatra Luis Felipe de Oliveira Costa, do Programa de Estudos de Doenças Afetivas (Progruda), do HC-SP.

“Principal arma contra o mau humor é a educação”, diz recepcionista
A recepcionista Patrícia Cristina Marques Kato Celestino trabalha diretamente com o público e pode dizer que “tropeça” em mau-humorados todos os dias. “A principal arma é sempre a educação. Eu trato a pessoa com a maior cordialidade possível, para que ela perceba que não está na mesma sintonia”, explica.

Ela também fala dos dias em que está de mau humor. “É raro, mas acontece. Quando isso acontece, geralmente eu vou até o espelho e dou um sorriso. Isso é infalível”, completa a recepcionista.

Quando o mau humor pode virar doença
Todo o interesse pelo tema é resultante de uma importante constatação científica obtida nos últimos anos: o humor – neste caso, o bom – é mais vital para a nossa sobrevivência do que se pensava. Em primeiro lugar, ele foi uma das razões que possibilitaram a evolução da espécie humana, segundo uma corrente de pesquisas a respeito do assunto.

Cientistas da Universidade da Pensilvânia (EUA) divulgaram um estudo revelando que um bom senso de humor é uma das principais características procuradas pelas mulheres em possíveis parceiros – fator, portanto, que facilitou a reprodução humana ao longo das eras.

“Essa característica pode ser entendida como um sinal de que o homem não é agressivo. A mulher entende que ele não a machucará nem à sua prole”, explicou à ISTOÉ Garry Chick, da Universidade da Pensilvânia (EUA), coordenador do trabalho. “E há pesquisas mostrando que os homens também gostam de mulheres que riem de suas piadas”, complementou o pesquisador.

Na visão do psicólogo americano Peter Gray, professor do Boston College University (EUA), o humor também serviu como elemento agregador quando o homem ainda vivia em grupos. “Ele foi uma das maneiras encontradas para impedir brigas e discussões, ajudando a manter a paz entre os indivíduos e, conseqüentemente, a sobrevivência do grupo”, disse à ISTOÉ.

A outra razão vem da certeza de seu impacto sobre a saúde – tanto o mau quanto o bom. Se o primeiro, como demonstram as pesquisas, é bastante prejudicial, o segundo, ao contrário, é como um bálsamo para o organismo. Há uma profusão de trabalhos atestando seus benefícios.

Na Universidade de Ohio (EUA), os cientistas concluíram que o sentimento está associado a uma melhora na qualidade de vida de portadores de doença pulmonar obstrutiva crônica, caracterizada por dificuldade progressiva para respirar.

Depois de analisarem as reações de 46 pacientes após assistir a vídeos divertidos, os pesquisadores concluíram que aqueles que exibiram maior senso de humor reportaram menos sintomas de depressão e ansiedade. “Acreditamos que os pacientes devem ser encorajados a participar de atividades que despertem o bom humor”, afirmou Charles Emery, líder do trabalho.

Experiências
A psicóloga Ana Silvia Barbosa Sberni Rodrigues também fala sobre o mau humor. “O ser humano experimenta diariamente diversas emoções boas e ruins. Cada um vai utilizar-se dessas emoções conforme os recursos internos que possui para lidar com essas gratificações ou frustrações. Acredito que o mau humorado é aquele que não consegue tolerar sentimentos e reações indesejadas, provocando assim uma violência consigo mesmo e, conseqüentemente, tornando as relações com os outros muito difíceis”, explica.

Segundo ela, o mau humor crônico pode provocar uma queda na qualidade de vida. “O que a cabeça não agüenta o corpo grita com sintomas físicos e psíquicos (falta de apetite, insônia, isolamento, tristeza, desinteresse, fadiga, entre outros). O mal-humorado não é assim por querer. Na maioria das vezes não consegue verbalizar emoções e, com isso, tem reações que muitas vezes não são compreendidas, e sim, julgadas. O mau humor se persistir deve ser avaliado pelo profissional adequado e quando necessário fazer uso de medicação associado a psicoterapia”, finaliza Ana Silvia.

Alguns são mais mau humorados que outros
Não há uma resposta definitiva que explique, por exemplo, por que determinadas pessoas são mais mal-humoradas do que outras. O que se sabe é que, a exemplo de diversas outras características de personalidade, há o peso da genética e o peso do ambiente.

Ou seja, filhos de pais marcadamente mal-humorados têm mais chance de manifestar o mesmo comportamento porque herdaram essa tendência e porque crescem em ambientes nos quais o sentimento predomina. “O mau humor é uma associação de temperamento, que nasce com você, com aquilo que você adquire com o meio”, resume o psiquiatra Cordás.

Mais recentemente, aprofundou-se uma linha de estudo que busca identificar outras causas para o mau humor.

Descobriu-se que algumas doenças podem estar envolvidas no seu surgimento. A última pesquisa a revelar esse tipo de associação foi divulgada na edição de maio da publicação científica “Diabetes Technology & Therapeutics”. “Distúrbios de humor e sua relação com um controle ruim de glicose, que pode levar a sérias complicações causadas pela diabetes, é um tema de grande preocupação”, disse Satish Garg, da Universidade do Colorado (EUA).

“Mas ainda não sabemos o que vem primeiro: se as oscilações de humor estão por trás da diabetes ou o contrário”. Um trabalho conduzido por cientistas da Universidade de Illinois (EUA) deu uma indicação de pelo menos parte da resposta.

O estudo monitorou as concentrações de glicose em um grupo de mulheres portadoras de diabetes tipo 2 e concluiu que grandes oscilações da taxa de açúcar no sangue estão associadas a mau humor e baixa qualidade de vida, segundo escreveram os autores da pesquisa. Em outros casos, a relação está mais estabelecida. Um exemplo é a associação entre o hipertireoidismo e o sentimento. A hiperatividade da glândula tireoide pode deixar o paciente mais vulnerável a episódios de mau humor.

Mau humor pode evidenciar turbulências interna do individuo
A psicóloga Joyce Barbosa de Souza Gonçalves, diz que a pessoa com mau humor vive momentos de grande turbulência interna. “Geralmente, ele vem quando a pessoa não consegue se expressar devidamente ou que não sabe lidar com determinada situação, ou ainda, que passa por algum tipo de descontentamento. Infelizmente, o mau humor está presente na vida das pessoas”, ressalta.

Ela também chama atenção quanto ao mau humor crônico. “É muito importante que as pessoas se resolvam internamente. Porém, quando isso não ocorre, ela deve recorrer a ajuda de um profissional da área. Todos nós, com ou sem alterações de humor, precisamos refletir e nos analisar para, então, nos conhecermos melhor. Quando isso não ocorre, ou seja, quando não conseguimos identificar estes conflitos internos e ficamos de mau humor por conta disso, é hora de procurar o psicólogo”, afirma.

Joyce também dá uma dica. “Geralmente, quando eu fico de mau humor, eu me afasto das pessoas, fico mais ‘na minha’ até que esteja bem. Tenho receio de prejudicar as pessoas ou mesmo ofendê-las. Fico quietinha até melhorar“, conclui a psicóloga.