A personagem Morena, vítima do tráfico de mulheres na novela Salve Jorge A novela Salve Jorge, da Rede Globo, escrita por Glória Perez tem chamado a atenção por abordar um tema polêmico que condiz com a realidade atual: o tráfico de mulheres. Iludidas com oportunidades de trabalho no exterior, várias são vítimas de bandidos, que acabam as prostituindo em outros países.
É esse o caso da protagonista de Salve Jorge, Morena, interpretada por Nanda Costa, que foi vítima de um grande esquema de tráfico de pessoas, e acabou sendo enviada para a Turquia, onde foi obrigada a se tornar prostituta.
O drama de Morena é baseado em uma história real. Ana Lúcia Furtado, na época com 24 anos, recebeu proposta para trabalhar como garçonete em Israel. Com três filhos, a empregada doméstica enxergou uma oportunidade para melhorar a vida. Mas o que ela encontrou, foi bem diferente.
Forçada a se prostituir, Ana Lúcia sofreu abusos, agressões e viu amigas morrerem ao tentarem fugir. Foram quatro meses de sofrimento, até que o esquema de prostituição foi descoberto e a brasileira retornou ao seu país.
Hoje, Ana Lúcia tem uma vida normal, mas afirma que jamais esquecerá o inferno que viveu e presenciou em Tel Avive, capital de Israel.
Sobre a novela, Ana Lúcia diz que aquela é uma versão muito mais leve que a história real. Ela afirma que sofreu muito mais que Morena.
Segundo outra vítima do tráfico de mulheres, o esquema, funciona como um círculo vicioso. Mulheres mais vulneráveis – como as que sofrem violência doméstica, são exploradas sexualmente ou estão à margem da sociedade – acabam acreditando na proposta de uma vida melhor, com emprego estável, no exterior, e se sentem “acolhidas” pela proposta. Ao cruzarem a fronteira, o que encontram é mais exploração, agravada por ameaças.
Notoriedade
Com a novela, o assunto ganhou notoriedade, e foi tema de um dos debates do evento Women in the World, que aconteceu no dia 4 de janeiro, na Casa Fasano, em São Paulo, pela primeira vez no Brasil.
Ao longo do dia, diversos debates trouxeram à tona importantes causas femininas, mostradas por personalidades importantes como ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice; a estilista Diane von Furstenberg e Maria da Penha Maia Fernandes, ativista contra violência doméstica que inspirou a lei com o seu nome. A apresentadora Xuxa também foi um dos destaques do evento, em uma conversa sobre mulheres expostas à vulnerabilidade social.
Novela ajuda a desbaratar rede de tráfico de mulheres na Espanha
Um telefonema de uma filha angustiada na Espanha e imagens da novela Salve Jorge, que aborda o tema da exploração sexual, levaram uma mãe brasileira a perceber que sua filha estava em apuros.
A mulher recorreu a um disque-denúncia criado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, dando início a uma operação policial internacional que levou as autoridades a desbaratarem, na semana passada, uma rede de prostituição e tráfico de mulheres na cidade de Salamanca, na Espanha.
A polícia espanhola entrou em uma casa noturna da cidade e libertou a brasileira e cinco outras mulheres que eram obrigadas a fazer sexo com os clientes por 20 dólares.
Em junho, uma denúncia vinda do Brasil já havia levado a polícia da Espanha a um bordel de Ibiza, onde 28 mulheres de diversas nacionalidades eram obrigadas a prestar serviços sexuais 24 horas por dia. Elas viviam confinadas em quartos superlotados, e eram vigiadas por câmeras.
Essas operações ilustram o drama de estrangeiras atraídas à Europa com promessas de trabalho e uma vida melhor, mas que acabam sendo forçadas a se prostituir para saldar dívidas intermináveis.
"Elas são principalmente mulheres jovens, bonitas e pobres, que recebem a promessa de trabalho na Europa por parte de traficantes", disse a ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, em entrevista coletiva.
O governo brasileiro transformou seu disque-denúncia em um serviço internacional, que pode ser acessado gratuitamente a partir da Espanha, Portugal e Itália, principais destino das brasileiras aliciadas por traficantes.
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que o tráfico humano é um crime difícil de detectar, porque as vítimas relutam em contar o que lhes aconteceu. Ele fez um apelo para que essas mulheres denunciem os abusos.