Chamado etanol de segunda geração é visto como a principal alternativa para aumentar a oferta sem a necessidade de crescimento significativo da área plantadaFinalmente, depois de 10 anos de pesquisa, o etanol celulósico – considerado a maior promessa do setor de biocombustíveis do país, nos últimos anos – deve chegar aos postos de abastecimento já no próximo ano.
O “etanol de segunda geração”, como é chamado, é produzido no Brasil, a partir da palha e do bagaço da cana-de-açúcar – que são os restos do processo atual de produção de álcool. Ele é visto como a principal alternativa para aumentar a oferta sem a necessidade de crescimento significativo da área plantada.
Segundo projeções conservadoras do setor produtivo, o consumo de etanol aumentará 45% até 2020, para cerca de 48 bilhões de litros ao ano. “Com a produção de etanol a partir da celulose, será possível elevar a oferta entre 35% e 50% em uma mesma área de cana – as estimativas variam de acordo com a tecnologia adotada e com o volume de biomassa disponível em determinada região. O custo de produção, especialmente o investimento inicial na indústria, barrou o advento do etanol celulósico até aqui. Pioneiros, no entanto, começam a se arriscar.
Vantagens
A professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Luciana Moreira Inácio, que está cursando mestrando em “Novas Tecnologias”, pela UFTM-Uberaba, fala das vantagens deste novo tipo de combustível. “Depois de utilizarmos a cana-de-açúcar para extrair o açúcar e o álcool, vamos utilizamos a palha e o bagaço resultantes, para com a ajuda de uma enzima e um processo químico – transformar este material em matéria-prima para extração de combustível. Depois disso, o restante ainda pode ser transformado em energia térmica ou elétrica, ajudando a manter as próprias usinas”, explicou em entrevista à Tribuna de Ituverava.
Luciana diz que acredita na viabilidade do novo combustível, mas que os cientistas devem estudar meios de barateá-lo. “A produção dele ainda é muito cara, devido ao alto custo das enzimas, responsáveis pelo processo de transformação.
Porém, é certo dizer que estamos no caminho e que este biocombustível será uma nova opção no mercado”, concluiu a professora.
Novas unidades serão inauguradas
A GraalBio inaugura no início de 2014 a primeira fábrica de etanol celulósico do Brasil. A unidade, que terá capacidade para produzir 82 milhões de litros por ano, está sendo erguida em São Miguel dos Campos (AL).
Cerca de R$ 350 milhões são investidos na fábrica, mas os recursos podem chegar a R$ 4 bilhões em sete anos com a construção de novas unidades e pesquisa, prevê a empresa que em janeiro conquistou um sócio de peso, o BNDES, que comprou por R$ 600 milhões, 15% da GraalBio. "A indústria de segunda geração começa a sair da inércia", diz Bernardo Gradin, presidente da GraalBio.
A segunda fábrica do "novo etanol" no Brasil será erguida pelo CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), empresa voltada à pesquisa em cana, nas dependências da Usina São Manoel, localizada no município homônimo, no interior de São Paulo.
O contrato entre as duas partes já foi fechado, e terá capacidade para produzir cerca de 3 milhões de litros por safra, a unidade inicia a produção em estágio pré-comercial, em 2014.
"Teremos uma curva de aprendizado até 2016", afirma Oswaldo Godoy, gerente de projetos do CTC. Por ser totalmente integrado a uma usina já existente, o investimento na fábrica é mais modesto: R$ 80 milhões.
Preço
Se comprovada a viabilidade econômica do etanol feito com resíduos da cana, a oferta do combustível crescerá, o que pode evitar aumentos de preço ao consumidor.
Como a tecnologia usa restos como matéria-prima, reduz a necessidade de desmatamento para elevar a produção, beneficiando o ambiente.
Parcerias estrangeiras para acelerar acesso a tecnologias
Para acelerar o acesso à tecnologia e os testes do etanol celulósico no mercado brasileiro, usinas nacionais optaram pelo modelo de parceria com estrangeiros. É o caso da Raízen, que opera uma unidade de demonstração no Canadá em parceria com a Logen, empresa de tecnologia na qual detém participação.
A Raízen, que é uma sociedade entre a Cosan e a Shell, planeja para o final de 2014 a inauguração de sua primeira fábrica comercial, com capacidade para 40 milhões de litros ao ano. O projeto deve consumir R$ 200 milhões.
A GraalBio também é parceira do grupo italiano Mossi&Ghisolfi, que neste mês inaugura uma fábrica de etanol celulósico na Itália. A empresa pretende trazer a experiência da unidade europeia para o Brasil.
Já a ETH, empresa do grupo Odebrecht, anunciou parceria com a dinamarquesa Inbicon, que produz etanol a partir da palha de trigo na Europa.
A Petrobras, por sua vez, preferiu desenvolver a sua própria tecnologia. Com pesquisadores dedicados ao etanol de segunda geração desde 2004, a estatal tem a meta de levar o combustível aos postos em 2015.