Papa Francisco, que celebrou sua primeira missa como novo pontífice, na última quinta-feiraCom um conclave de dois dias, o Vaticano elegeu, na última quarta-feira, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, como novo papa. Ele ocupará o lugar de Bento XVI, que esteve à frente da Igreja Católica Apostólica Romana, desde 2007, e que renunciou ao cargo, no início do ano.
Após uma eleição histórica, ele se torna o 266º Papa da Igreja – o primeiro latino-americano, já que é argentino, e também o primeiro jesuíta. O nome do escolhido pelos 115 cardeais foi anunciado com a tradicional fórmula latina "Habemus Papam!" ("Temos um Papa!"), pelo mais velho dos cardeais-diáconos, o francês Jean-Louis Tauran, e recebido com aplausos pelos fiéis que enfrentaram frio e chuva na Praça de São Pedro, no Vaticano.
Houve festa na Basílica de Buenos Aires, em que 200 fiéis argentinos assistiam à missa no momento do anúncio. Bergoglio, de 76 anos, escolheu se chamar Papa Francisco, sem o numeral.
A decisão dos cardeais escolhendo o Papa argentino surpreendeu, pois ele, apesar de citado inicialmente, não aparecia nas últimas listas de favoritos, que incluíam o brasileiro Dom Odilo Scherer e o italiano Angelo Scola.
Minutos após ser anunciado, o novo pontífice apareceu na varanda central da Basílica de São Pedro para dar sua primeira bênção Urbi et Orbi (para a cidade de Roma e para o mundo). Ele foi bastante aplaudido e saudado. Antes, a "fumaça branca" que saiu da chaminé da Capela Sistina, que indicava a eleição do novo pontífice, já havia emocionado os fiéis.
Na breve aparição na varanda, falando em italiano com leve sotaque, ele agradeceu ao Papa Emérito Bento XVI e pediu orações para seu pontificado que se inicia. O Vaticano informou ainda que o novo papa deverá participar da Hora do Angelus, no domingo, na Praça de São Pedro. A missa de Inauguração do pontificado ocorre na terça-feira, dia 19.
Novo papa terá função de manter Igreja unida
O novo Papa assume com a função de manter a unidade de uma igreja que, nas palavras de seu próprio antecessor, o agora Papa Emérito Bento XVI, está dividida e imersa em crises.
Arcebispo de Buenos Aires e primado da Argentina, Jorge Mario Bergoglio é um homem tímido e de poucas palavras, que goza de grande prestígio entre seus seguidores, que apreciam sua total disponibilidade e seu estilo de vida sem ostentação.
Ele é admirado por seus dotes intelectuais e, dentro do Episcopado argentino, é considerado um moderado.
Nascido em 17 de dezembro de 1936, em Buenos Aires, na Argentina, Bergoglio formou-se técnico em química, mas escolheu posteriormente o sacerdócio, entrando para o seminário em Villa Devoto. Em março de 1958, ingressou no noviciado da Companhia de Jesus (jesuítas). Em 1963, ele estudou humanidades no Chile, retornando posteriormente a Buenos Aires.
Entre 1964 de 1965, Bergoglio foi professor de literatura e psicologia no Colégio Imaculada Conceição de Santa Fé e, em 1966, ensinou as mesmas matérias em um colégio de Buenos Aires. De 1967 a 1970, estudou teologia. Em 13 de dezembro de 1969, foi ordenado sacerdote.
Bergoglio foi reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel, entre 1980 e 1986. Após completar sua tese de doutorado na Alemanha, serviu como confessor e diretor espiritual na cidade de Córdoba. Em 1992, Bergoglio foi nomeado bispo titular de Auca e auxiliar de Buenos Aires. Em 1997, ele foi nomeado arcebispo titular de Buenos Aires.
Também atuou como presidente da Conferência Episcopal da Argentina de 2005 até 2011. Foi criado cardeal pelo então Papa João Paulo II, em 2001.
Conclave foi convocado depois da renuncia de Bento XVI
O conclave, votação secreta que escolhe o novo pontífice, foi convocado após a renúncia de Bento XVI, anunciada em 11 de fevereiro e concretizada em 28 de fevereiro.
Bento XVI saiu alegando que não tinha mais forças para a tarefa de liderar a igreja. Seu pontificado foi marcado por várias crises, pelo escândalo do acobertamento da pedofilia e pelo vazamento de documentos secretos no chamado escândalo VatiLeaks.
O conclave ocorreu após dez congregações gerais de cardeais, nas quais os problemas da igreja foram debatidos exaustivamente, em meio a muitas especulações e conversas de bastidores sobre os prováveis papáveis.
A imprensa italiana afirmou que um dos principais temas das congregações foi um dossiê preparado no ano passado, a pedido do hoje Papa Emérito Bento XVI, sobre irregularidades na Cúria Romana. Cardeais estariam pressionando pelo acesso ao documento.
Questionados abertamente, o Vaticano e cardeais minimizaram a importância do documento.
Alguns dos problemas que o novo papa terá que enfrentar
Atarefa de gerir a Igreja no século XXI exigirá muito do pontífice, afirmam os especialistas entrevistados pelo G1, como o próprio Bento XVI já havia assinalado no discurso em que comunicou sua renúncia: “[...] no mundo de hoje, sujeito a mudanças tão rápidas e abalado por questões de profunda relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e proclamar o Evangelho, é necessário tanto força da mente como do corpo”.
De acordo com os estudiosos brasileiros ouvidos pelo site G1, o sucessor herda uma série de desafios relacionados à sociedade moderna e à administração da Santa Sé.
Veja, abaixo, os desafios do novo pontífice:
Reforma da Cúria
Sob acusações de intrigas, tráfico de influência e abusos de poder, a Cúria Romana (governo central da Santa Sé) precisará ser reformada pelo sucessor de Bento XVI, afirmam os especialistas. “O novo Papa terá como desafio implantar uma gestão mais transparente na Cúria e no Banco Vaticano”, acredita o professor Francisco Borba.
A diminuição da burocracia e a descentralização da Cúria também são apontadas como problemas a serem enfrentados pelo novo pontífice. “Ele precisa internacionalizar a Cúria, dar mais mobilidade à Igreja. São necessários mais cardeais do terceiro mundo, porque hoje o peso europeu ainda é muito maior”, acredita Borba.
Investigação do "Vatileaks"
A primeira tarefa do novo pontífice no comando da igreja talvez seja analisar o relatório secreto elaborado por três cardeais sobre o “Vatileaks” – vazamento de documentos confidenciais do aposento papal. O documento foi redigido a pedido do agora Papa Emérito Bento XVI, depois que cartas confidenciais dirigidas a ele foram parar nas mãos de jornalistas. Em um dos seus últimos atos no comando da Santa Sé, em fevereiro, Bento XVI decidiu entregar “exclusivamente” ao seu sucessor a conclusão da investigação. “O novo Papa certamente terá que enfrentar o que estiver escrito ali”, afirma o teólogo Fernando Altemeyer Júnior.
Moral sexual e família
Existe hoje uma pressão da sociedade moderna para que a Igreja reveja seus conceitos sobre o divórcio, uso de preservativos, homossexualidade, aborto e pesquisas com células-tronco. “Os assuntos relacionados à família não vão mudar, porque são dogmas da Igreja. Temas como o aborto e a sexualidade são patrimônio moral. Por outro lado, pode-se discutir eventualmente a fertilização in vitro ou questões relacionadas às células-tronco não-embrionárias”, afirma. Ainda que não faça mudanças, o novo Papa terá como desafio responder a essas demandas, fundamentando a postura da Igreja Católica.
Secularização
e secularismo
A Igreja, que por muitos anos esteve presente em todas as esferas da sociedade, hoje convive com uma crescente autonomia das instituições em relação à religião - secularização; e com a hostilidade à fé, chamada de secularismo.
“O remédio para isso [secularismo]
também é o diálogo, mostrando que a igreja não ameaça a liberdade, as ciências e as instituições. Na medida em que a Igreja convive bem com a sociedade pluralista, esse fenômeno tende a diminuir”, afirma o Padre Luiz Corrêa Lima.
Perseguição aos cristãos
O continente em que o catolicismo mais cresce é o africano que, junto com o Oriente Médio e com a Ásia, concentra um grande número de perseguições e mortes de fiéis, afirmam os especialistas.
“Nesses locais, existem muitos casos de massacres de cristãos, atentados a igrejas e assassinatos por causa da intolerância religiosa. Esse é um desafio difícil e doloroso, mas precisa ser enfrentado”, diz Francisco Borba.
Pedofilia
Durante seu papado, o Bento XVI empenhou esforços para combater os escândalos sexuais, que culminaram principalmente na exigência de que os culpados fossem denunciados à justiça e respondessem na esfera criminal. Ele ainda se encontrou com as vítimas de abuso e pediu desculpas a elas. Agora, cabe ao novo chefe da Igreja Católica manter uma postura firme com relação aos casos de pedofilia.
“Tudo o que João Paulo II deixou de fazer para combater o problema, Bento XVI fez. Antes havia uma cultura eclesiástica de que isso deveria ser resolvido internamente, mas Bento XVI fez questão de comunicar os casos ao poder civil. Espera-se do próximo pontífice que ele continue nesse caminho e não cometa nenhum retrocesso”, declarou o Padre Corrêa Lima.
Celibato
As discussões sobre a flexibilização do celibato têm cada vez mais adeptos entre as dioceses, padres e bispos. “Essa é tradição do celibato é algo próprio da Igreja Católica do Ocidente. No Oriente existem os dois modelos: casados e celibatários”, explica o Padre Luiz Corrêa. De acordo com ele, não se trata de um dogma, mas da disciplina eclesiástica, que pode ser discutida e mudada a qualquer momento.
Crise das vocações
A Europa vive uma crise das vocações sem precedentes. A falta de párocos é tão grande que países da América Latina e África têm “exportado” padres e missionários para o continente europeu. No Brasil, após anos de queda, foi registrado um crescimento no número de rapazes que querem ser padres, mas a quantidade ainda é pequena perto da população brasileira e do número de paróquias e dioceses. “No nosso país, houve uma crise nos anos 70 e agora há um boom. O problema principal é a Europa”, afirma o professor Fernando Altemeyer. Cabe ao novo Papa encontrar uma de atrair novamente os jovens para o sacerdócio.
Ordenação de mulheres
A ordenação de mulheres ganhou muitos defensores nos últimos anos, mas ainda está longe de virar uma realidade. “Há muita resistência dentro da Igreja Católica. Existem muitos teólogos e bispos que já se manifestaram a favor, mas é muito improvável que essa questão mude no próximo pontificado”, afirma Padre Luiz Corrêa Lima. De acordo com ele, nos séculos passados, existia o posto de diaconisa – o equivalente feminino ao diácono. “Se já existiu, pode voltar a existir, mas ainda não há um consenso sobre essa questão”.
Diálogo ecumênico
Uma tarefa importante do Papa Francisco é dar um novo impulso ao diálogo ecumênico e inter-religioso, afirma o Padre Agenor Brighenti. “No passado, as religiões motivaram muitas guerras. Agora, ao trocar experiência entre si, elas assumem um papel importante para fomentar a paz no mundo, a consciência ecológica e o combate à fome”, concorda o Padre Luiz Correa.