Prefeito Haddad participa da coletiva com balanço da Virada Cultural (Foto: Roney Domingos/G1)A Polícia Militar informou na tarde deste domingo (19) que 28 pessoas foram presas durante a operação da Virada Cultural 2013. Os shows e eventos aconteceram das 18h deste sábado (18) até as 18h deste domingo em palcos montados na região central de São Paulo. Duas pessoas morreram: uma com suspeita de overdose e outra baleada com um tiro no rosto.
Segundo o balanço, houve 17 registros de flagrantes, 12 roubos, 12 tumultos, seis pessoas esfaqueadas, nove menores apreendidos e uma arma apreendida. Entre os presos, estão suspeitos de roubos de celulares, bolsas, vandalismo e tráfico de drogas. Quatro vítimas foram baleadas, incluindo o padeiro Elias Martins Moraes Neto, de 19 anos, que morreu. Além disso, ao menos 1.800 pessoas tiveram de ser atendidas em quatro unidades montadas pelo Samu, sendo que foram necessárias 260 remoções, devido a problemas relacionados ao consumos de álcool.
O comandante da operação, Reynaldo Simões Rossi, disse que os números podem ser alterados com a conclusão de ocorrências e acompanhamentos em andamento por volta das 18h. O prefeito Fernando Haddad (PT) afirmou que, com base na observação do Centro de Comando, a organização percebeu o aumento na criminalidade.
“A constatação foi a de que o número de ocorrências foi maior do que o previsto, mas havia contingente para atender essas ocorrências e reforçar o policiamento onde era necessário”, disse Haddad. “O que mais preocupou foi a questão da segurança, principalmente nos episódios da madrugada, das 2h30 às 5h”, afirmou o prefeito.
Haddad destacou que houve um contingente recorde com 3,8 mil PMs e 1,4 mil guardas-civis para monitorar um público estimado em 4 milhões de pessoas.
Após Haddad afirmar que houve aumento, o representante da PM pediu a palavra para afirmar que ainda é preciso analisar os números para constatar se houve recorde. “Peço licença, mas gostaríamos de aguardar o total do cômputo de ocorrências para dizer se houve aumento”, disse. “Presumimos que, com o aumento do público, o número de ocorrências ia aumentar, mas mesmo assim temos que concluir esse levantamento”, completou.
Questionado sobre os arrastões na madrugada, o coronel admitiu que a polícia acompanhou a atuação de alguns grupos que se valendo da natureza do evento cometeram crimes patrimoniais. De acordo com ele, no entanto, qualquer intervenção em evento público deste porte tem de ser "muito bem pensada". "A prioridade é preservar e a integridade das pessoas", completou.
Sobre possíveis omissões de policiais militares relatadas por participantes da Virada, o comandante da PM afirmou que "os desvios de conduta vão ser apurados". "Há problemas? Há problemas, mas não podemos esquecer a envergadura (do evento)", disse.
O prefeito disse que não houve qualquer tipo de crise entre governo municipal e PM. Segundo Haddad, ele conversou pela manhã com os representantes da polícia em reuniões de trabalho. “Não tenho autonomia para pedir para a PM não dar coletiva”, afirmou. Perguntado se a Virada Cultural foi segura, Haddad respondeu: "Eu participei da Virada, meus filhos participaram e vamos continuar participando".
E, ao comentar sobre o comportamento de parte do público, que se aproveitou para roubar, citou a reprimenda de Mano Brown, vocalista do Racionais, durante o show do grupo na Virada neste domingo, àqueles que proparticiparam de arrastões na madrugada: "É o depoimento mais insuspeito que poderia haver".
Morte de padeiro
Policiais militares informaram que Elias Martins Moraes Neto reagiu a um assalto. Segundo os policiais ouvidos pelo G1, o padeiro estava acompanhado de três amigos quando foram abordados por dois criminosos que exigiram os celulares deles, na Avenida Rio Branco. Os quatro amigos entregaram os aparelhos, mesmo suspeitando que a dupla não portava arma.
Elias e os amigos, então, correram atrás dos criminosos, quando o jovem levou um tiro no rosto. Ele foi levado para a Santa Casa, mas não resistiu. O caso foi registrado pelo 3º Distrito Policial, em Santa Ifigênia, como latrocínio - roubo seguido de morte.
O amigo de Elias, Rafael Nogueira, de 21 anos, diz não se lembrar do que ocorreu após os celulares serem levados. Eles tinham vindo para a Virada para aproveitar os vários shows previstos. Nogueira faz curso de bombeiro. "Estou me formando bombeiro, que salva vidas, mas não consegui salvar a vida do meu amigo", lamentou.
Segundo Nogueira, Elias deixa um filho de 2 anos, que mora com a mãe. O sonho da vítima, de acordo com o amigo, era montar um salão de cabeleireiro.
Além de Elias, a PM registrou outra morte na Virada Cultural. Um jovem de 21 anos morreu por suspeita de overdose de cocaína. Jonatan Santos Nascimento foi encontrado caído na região de Santa Ifigênia, no Centro, e socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) à Santa Casa.
Segundo a Polícia Civil, cinco distritos policiais registraram as ocorrências da Virada Cultural na região central de São Paulo: 1º DP, na Sé; 2º DP, no Bom Retiro; 3º DP, em Santa Ifigência; 4º DP, na Consolação; e 8º DP, no Brás.
Após a divulgação da foto do 2º DP lotado, outras três delegacias passaram a registrar ocorrências da Virada - 5º DP, Aclimação; 77º DP, Santa Cecília; e 78º DP, nos Jardins- , segundo policiais civis.
No 3º DP, em Santa Cecília, um adolescente e três homens foram detidos. O menor portava uma arma.
Baleados
Os casos de pessoas baleadas ocorreram nas avenidas Ipiranga e do Estado, Praça da República, Viaduto do Chá, Rua Dom José Gaspar e na Rua 24 de Maio. A PM não soube informar as circunstâncias dos crimes nem em que delegacias eles foram registrados. A corporação recuperou alguns celulares e carteiras roubados.
No caso da Avenida Ipiranga, um homem foi vítima de tentativa de homicídio, por volta das 23h deste sábado. O criminoso atingiu o ombro esquerdo da vítima, que foi levada para a Santa Casa. O criminoso fugiu.
Na Avenida do Estado, por volta da 1h15, a vítima foi atingida após uma discussão. Um rapaz tentou agredir a vítima, que levou um tiro na perna. O suspeito fugiu. A PM também não soube informar o estado de saúde da vítima.
Arrastões
Ainda no 2º DP, o estudante Leandro da Silva Paixão, de 17 anos, acompanhado pela mãe, a babá Rosângela da Silva, contou que um grupo de 60 criminosos realizaram um arrastão no Centro. O garoto conseguiu, entretanto, recuperar o boné e o celular que haviam sido levados.
O casal Paulo Henrique Maciel Mariano, 21 anos, e a namorada Gabriela Magalhães de Jesus, 21 anos, presenciaram um arrastão na região da Galeria do Rock.
Eles e amigos foram vítimas do grupo de cerca de 40 criminosos, às 3h40.“Era muita gente drogada e violenta. Vinham roubando e agredindo quem viam pela frente", contou Gabriela. "A Virada Cultural se tornou uma virada criminal. Não quero nunca mais participar dela. Falta segurança”, reclamou Mariano.
No pronto-socorro da Santa Casa, em Santa Cecília, guardas-civis metropolitanos informaram que várias vítimas de agressão durante arrastões foram levadas para atendimento. No sábado, o senador Eduardo Suplicy (PT) teve carteira, celular e documentos furtados durante o show de Daniela Mercury e Zimbo Trio. O senador foi vítima do furto enquanto cumprimentava o público na Praça da Estação Júlio Prestes.
Após o show terminar, Daniela voltou ao palco e fez um apelo para que devolvessem os pertences de Suplicy. Quinze minutos após o apelo, ela voltou ao palco informando que os documentos foram entregues. Os criminosos ficaram com R$ 400 e um smartphone.
Neste domingo, o analista de sistemas Ricardo Buchaim acompanhava um amigo que se envolveu numa briga, na região do Palco Júlio Prestes. O amigo estava sendo atendido na Santa Casa, por volta das 10h.
Buchaim afirma que, no cruzamento das avenidas Duque de Caxias e Rio Branco, na região da Cracolândia, presenciou uma feira de drogas que funcionava normalmente, mesmo com o policiamento reforçado para a Virada Cultural em todo o Centro de São Paulo.
Ele afirma que os traficantes anunciavam a venda de entorpecentes. "Eles gritavam: olha o pó, olha o lança, olha o verde". Nesta semana, reportagem do Bom Dia São Paulo mostrou o funcionamento de uma feira livre de drogas na Rua dos Gusmões, na Cracolândia.
Fonte: g1.globo.com