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A moeda virtual foi criada há apenas quatro anos e circula através de transações entre
16/02/2014

MOEDA VIRTUAL BITCOIN COMEÇA A GANHAR ESPAÇO NO COMÉRCIO BRASILEIRO


Hostel em Florianópolis e bar em SP já aceitam pagamentos; taxa de transações é atraente, mas volatilidade da cotação pode ser risco.

O programador André Horta, de 30 anos, levou seu Honda Fit a uma oficina de Belo Horizonte para uma revisão mecânica que custou R$ 430. Para quitar a fatura, André não usou cartão de débito ou crédito, cheque ou mesmo dinheiro vivo. O pagamento nem foi feito exatamente em reais. Diego Silva, o dono da concessionária, recebeu um total de 0,22 bitcoins, a moeda virtual mais conhecida da internet e que pode ser um modelo para uma revolução nos meios de pagamentos e recebimentos em todo o mundo.

A transação só foi concretizada após uma conversa demorada, pois houve desconfiança do estabelecimento. "O que ajudou muito foi que [o dono da oficina] podia receber na conta bancária dele em dinheiro", afirma Horta, o cliente. Mas por que então não fazer uma simples e usual transferência via um banco qualquer? Justamente porque, respondem os defensores e entusiastas do bitcoin, não há bancos como intermediários. A moeda que só existe digitalmente foi criada há apenas quatro anos e circula através de transações entre "carteiras" que existem nos computadores dos usuários. Também não há controle de nenhum banco central do mundo. Para especialistas, o bitcoin pode não durar, mas o seu modelo vai permanecer. (Veja aqui como funciona uma transação com bitcoin).

Reza a lenda (e tudo realmente indica que seja somente uma lenda) que tudo começou com um japonês chamado Satoshi Nakamoto, com 37 anos à época do surgimento do bitcoin. Ninguém nunca o viu pessoalmente.

Acredita-se que ele represente um grupo do setor financeiro europeu. O enigmático "criador" da moeda é também o maior detentor de bitcoins do mundo: com mais de 1 milhão de BTCs, a fortuna virtual do "suposto" Nakamoto poderia valer mais de US$ 1 bilhão (R$ 2,35 bilhões). Curiosidade: o significado do nome Satoshi, em japonês, é "sábio".

O Banco Central brasileiro declarou que o assunto não tem importância no momento. "A própria lei estabelece que sejam regulados apenas os arranjos de pagamentos que, segundo avaliação técnica, possam ter importância sistêmica. O BC analisou o emprego de bitcoins e, por ora, considera que ele não é de relevância para o sistema financeiro brasileiro".

vantagens e desvantagens
Há vantagens e também riscos no bitcoin, e alguns comerciantes brasileiros estão começando a despertar para o seu uso. A mais visível delas é conseguir fugir das taxas de bancos e de operadoras de cartão. A adoção como meio de pagamento já ocorre no Brasil por 27 estabelecimentos comerciais, de acordo com o Coin Map – serviço que reúne lugares que se dispõem a receber pagamentos dessa forma.

No total, já são mais de 2,6 mil em todo o mundo. A Campus Party Brasil em São Paulo, evento já tradicional voltado à tecnologia, teve um caixa eletrônico para troca de reais pela nova moeda.

Um bitcoin equivale a R$ 1,9 mil
É bom lembrar que as transações via bitcoin, apesar de não terem o registro de instituições financeiras, constituem comercialização de bens e, sem a declaração à Receita Federal, podem representar fraude.

E, sim, há riscos envolvidos: uma das preocupações de economistas é a volatilidade da moeda. Um bitcoin valia US$ 0,01 em 2011 e sua cotação já atingiu US$ 880 (R$ 1,9 mil), o que mantém alguns comerciantes com um pé atrás. "Transformo isso em real quase imediatamente", diz Talita, do bar Las Magrelas, entusiasta da moeda.

Sem taxa de serviço
Transferir bitcoins, hoje, não custa nada. Esse cenário torna a moeda atrativa para quem precisa transferir dinheiro entre países diferentes, nos quais taxas bancárias e de câmbio inflam o custo do processo. Já existem brasileiros donos de hostels, lojas de suplementos vitamínicos e até taxistas, chaveiros e bares que fazem suas transações com a moeda virtual. Em Santos, no litoral de SP, um apartamento de 90 m² (três quartos e dois banheiros) é vendido por US$ 250 mil. O empresário Rodrigo Souza, que mora em Nova York, aceita apenas bitcoins como forma de pagamento.

Sem mediação de governos
Para o professor Pedro Duarte Garcia, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP), o bitcoin não se diferencia muito de outras moedas, do ponto de vista monetário. “É uma moeda virtual que, como qualquer moeda atual hoje no mundo, é baseada na confiança. Ela funciona e é usada enquanto todo mundo que usa acredita que ela funciona. Isso é comum a qualquer moeda que a gente carrega no bolso".

Além disso, o bitcoin não passa pelo sistema bancário e por isso não é regulado por nenhuma autoridade, o que gera preocupação de alguns países. Organizações que podem ter suas economias bloqueadas por pedidos de governos, como o Wikileaks, empresa que já teve interrompido o acesso à sua conta bancária, se beneficiam das facilidades de transferências de dinheiro entre países que não passam pelos sistemas convencionais.