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Torcida brasileira: Copa do Mundo pode trazer legado ao país
15/03/2014

EDIÇÃO 3071 ENQUETES - ENTREVISTADOS DISCUTEM LEGADO QUE A COPA DEIXARÁ


Maior evento esportivo do planeta causa polêmica pelos gastos expressivos em estádios, que não trarão retorno ao país

A partir de junho, o Brasil sediará, pela segunda vez, a Copa do Mundo, um dos maiores eventos esportivos do Planeta. Apesar da competição trazer grande visibilidade ao país, a dúvida é o legado que o evento deixará para a nação.

Para o Ministério do Esporte, a Copa do Mundo é uma grande oportunidade para o Brasil acelerar investimentos em infra-estrutura e qualificação de mão-de-obra. "São investimentos já previstos anteriormente, mas que foram antecipados por ocasião do Mundial", afirma o órgão, em nota oficial.

Dentre as melhorias que podem ser proporcionadas pelo evento esportivo está a estrutura dos aeroportos. Poucos hoje são adequados para receber um grande volume de passageiros, porém, com a necessidade de adequação para a Copa do Mundo, essa realidade pode mudar. Com isso, os aeroportos poderão receber vôos internacionais com mais freqüência, além de aviões de grande porte.

Outro ponto positivo pode ser a forma com que o Brasil lida com a Segurança Pública. Se ela for intensificada durante a Copa do Mundo e der resultados positivos, certamente as medidas adotadas durante o evento serão repetidas no cotidiano depois da Copa, o que tornará o Brasil um país mais seguro.

Estradas e transporte
Como o transporte por via terrestre será comum durante a Copa do Mundo, exigirá a necessidade de estradas de qualidade e segurança, o que, infelizmente, nem todas oferecem no Brasil. Se estas melhorias ocorrerem, os brasileiros poderão usufruir destas estradas depois do fim da Copa.

O mesmo ocorre com o transporte público, que hoje não funciona muito bem no país. As cidades sedes terão que investir em alternativas para melhorar o transporte público, evitar transtornos e facilitar a vida dos turistas.

A qualidade dos hotéis também pode melhorar na Copa do Mundo. Através de parcerias com o Governo Federal, os hotéis poderão oferecer serviços que hoje não possuem, e dessa forma atrair turistas para o país.

Se todos estes aspectos receberem melhorias, a realização da Copa será importante para o país, pois atrairá novos turistas e oferecerá mais segurança ao povo.

Outro lado
No entanto, todas estas melhorias podem não acontecer, pois dependem do Governo Federal. Se essas mudanças não ocorrerem, o Brasil não só deixará de ter um legado com a Copa do Mundo como ficará com uma imagem negativa no mundo todo.

Se os aeroportos não funcionarem como deveriam; a Segurança Pública falhar; as estradas, o transporte público e a mobilidade urbana forem de baixa qualidade e os hotéis não oferecerem o que o turista busca, o país estará condenado, pois construirá uma imagem negativa no exterior e deixará de atrair turistas. Para evitar este constrangimento, o Governo Federal precisa correr contra o tempo nos próximos três meses, porque, falta muito a ser concluído nesses setores.

A afirmação do ministro do Esporte, Aldo Rabelo, comprova a atraso das obras. “Em 100 dias Napoleão reconquistou a França. Dá para fazer muita coisa”

Além disso, os brasileiros terão que encarar a dura realidade de que o Governo investiu fortunas exuberantes na construção de estádios, que não trouxeram conseqüências positivas ao país. Se este dinheiro tivesse sido utilizado em setores primordiais, como a Educação e a Saúde, o benefício seria maior e garantido.

Críticas
O treinador Muricy Ramalho, por exemplo, não acredita que a Copa do Mundo deixará um legado ao país. "Sempre se promete um legado em uma Copa do Mundo. A palavra legado é a mais empregada. Essa palavra parece que soluciona tudo. Você gasta bilhões de reais, fala-se em legado e nada. A gente vê cada legado ruim. Com o dinheiro que foi gasto, tinha de sair coisa boa. Mas se olhar tudo que foi prometido, ficaram muitas coisas no caminho", afirmou.

"A gente está pronto em relação aos estádios, tudo muito bonito. Mas o que era e foi falado que iria melhorar, como o transporte e os aeroportos, por exemplo, isso não vimos nada. E não dá para passar por cima”, completou.

Já o deputado federal e ex-jogador Romário não perdeu tempo para responder aos comentários do secretário-geral da FIFA, Jerôme Valcke, que se disse preocupado com a possível imagem negativa do Mundial do Brasil. Em postagem em sua página no Facebook, o “Baixinho” voltou a questionar a colaboração da entidade no processo de preparação para o evento, afirmando que ela cobra medidas, mas não apresenta soluções.


"A Fifa vende aos países uma ilusão tão bem engendrada que faz todos acreditarem, por um tempo, que é um grande lucro sediar o mundial", escreveu. "Então os países gastam bilhões para realizar uma Copa do Mundo padrão Fifa, a entidade enche os bolsos e vai embora, deixando o país sede afundado em dívidas", escreveu.

"Qual a moral que uma entidade como essa tem para fazer este tipo de afirmação? Espero que o mundo todo esteja atento ao Brasil, espero que outros países não aceitem as imposições e intransigências da Fifa, que quer atropelar leis federais e até a cultura do nosso povo. Sem falar da postura de seus dirigentes, enfatizou.

O parlamentar ainda afirmou que a entidade é uma vergonha, e chamou Valcke de chantagista e ladrão, além de cara-de-pau por fazer observações como esta de forma pública.

Especialista diz que Copa não impulsiona economia
Estudioso sobre os impactos econômicos do futebol, o jornalista britânico Simon Kuper, autor do livro Soccernomics, escrito em parceria com o economista britânico Stefan Szymanski, afirmou que a idéia de que a Copa do Mundo impulsiona a economia é um mito.

"Sediar uma Copa do Mundo não traz legado econômico. Se você quer impulsionar a economia com o dinheiro do povo, que paga impostos, é melhor investir em escolas e hospitais", defende.


Publicado em 2009 e baseado em dados das Copas de 2002 (Japão e Coréia do Sul) e 2006 (Alemanha), o livro de Kuper e Szymanski diz que o verdadeiro legado da Copa do Mundo não é dinheiro, mas apenas a euforia que toma conta do povo antes e durante o torneio.

"O que a Copa realmente traz é essa alegria. A Copa do Mundo é uma grande festa, todos ficam felizes, o país vira uma grande comunidade, todo mundo só fala sobre isso, vive isso. Mas sem eletricidade, sem ter o que comer, garanto que ninguém estaria disposta a pagar por essa grande festa", ressalta.

Fingimento
Ainda segundo Kuper, os governos dos países "fingem" que acreditam no legado da Copa para ter apoio popular. "Os governos não podem dizer para a sociedade que vão trazer a Copa porque é uma grande festa. Então eles falam do legado, do benefício econômico, que na verdade não existe. Eles têm que fingir", destaca.

"O Brasil está tendo que fingir muito mais do que a Inglaterra teve para sediar a Olimpíada. A Inglaterra é um país rico, então as pessoas podem pagar pela felicidade que os Jogos trazem", completa.


O governo brasileiro, no entanto, defende que a Copa do Mundo trará grandes benefícios ao país. "O levantamento indica que a preparação da Copa movimentará R$ 142,39 bilhões adicionais na economia nacional de 2010 a 2014, gerando 3,63 milhões de empregos", completa o Ministério do Esporte, em nota oficial.

Matriz de Responsabilidade aponta que custo da Copa poderá ser R$ 30 bi
O custo da Copa do Mundo é de R$ 26 bilhões, de acordo com a última atualização da Matriz de Responsabilidades, documento que reúne todas as intervenções relacionadas com o Mundial a cargo do Governo Federal, dos Governos Estaduais e das cidades-sede. A lista tem de obras em estádios a projetos na área de turismo, passando por telecomunicações, portos e segurança, entre outros itens.

No entanto, esse valor está defasado (há estimativas de que, no final, a conta baterá nos R$ 30 bilhões). Isso porque a última atualização da Matriz foi feita em setembro do ano passado. Houve outra em novembro, mas foi basicamente para a retirada do documento de obras que não ficarão prontas até a Copa.

Dessa maneira, não entraram no cálculo despesas como as com as estruturas temporárias, exigência da Fifa para todas as arenas do Mundial. Em média, o custo vai ser R$ 40 milhões por estádio, a serem gastos com itens diversos como aluguel de tendas, aparelhos de Raio-X e implantação do sistema de tecnologia de informação.

Aquisição de equipamentos
A menos de 100 dias para a bola rolar, a maior parte das cidades sedes ainda não viabilizou a aquisição de materiais e equipamentos que compõem o aparato necessário. O pior é que em alguns casos ainda há discussão para definir quem vai pagar a conta. Este é o caso de São Paulo. Por contrato, a obrigação de arcar com os custos – R$ 43 milhões – é do Corinthians, o dono da arena.

Prefeitura e governo estadual contribuirão com instalações físicas e materiais para as temporárias no estádio em Itaquera, mas os cerca de R$ 39 milhões que terão de ser gastos com itens como tendas, cabos óticos e aluguel de geradores deverão ficar a cargo do clube.


O Corinthians busca parcerias para viabilizar as temporárias. O problema é que o tempo está passando, no caso da Arena Corinthians e de várias outras, e o atraso pode comprometer a qualidade de alguns sistemas e equipamentos que serão instalados.

Segundo especialistas da área, por exemplo, são necessários 120 dias para instalar toda a infra-estrutura de telecomunicações (antenas, cabos, roteadores e vários outros itens). Até agora, nenhum dos 12 estádios teve o sistema instalado.

Pela metade
Há obras complexas por fazer, mas até intervenções simples estão atrasadas. É o caso das obras no entorno do Beira-Rio, em Porto Alegre.

Basicamente, é preciso fazer a pavimentação das vias, pequenas, mas ainda não foi feita sequer a licitação – o primeiro edital não atraiu interessados. Com isso, há o risco de a obra acabar durante a Copa (o prazo de execução é de quatro meses).

Há situações em que a obra prometida será entregue parcialmente. O principal exemplo é o do VLT entre Cuiabá e Várzea Grande, no Mato Grosso, projetado, entre outros argumentos, para atender a Arena Pantanal. Até a Copa, porém, só estarão concluídos 5,7 km dos 23 km do percurso.

O VLT de Cuiabá é sempre citado pelo ministro do Esporte, Aldo Rebelo, quando fala do legado da Copa. Ele argumenta que, não fosse o Mundial, tal obra só seria realizada daqui a 30 anos. Assim, terminado o Mundial restará observar quanto tempo vai levar que o VLT esteja totalmente concluído.

Confira as respostas: