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A psicóloga Marina Rodrigues Bernardini
19/01/2015

MUDANÇA CONSTANTE DE HUMOR PODE SIGNIFICAR BIPOLARIDADE


Psicóloga Marina Rodrigues Bernardini fala sobre o transtorno, que pode até levar ao suicídio

Imagine que você está em uma montanha-russa, num parque de diversões, pronto para zarpar até o ponto mais alto. No trajeto, você começa a sentir um bem-estar muito grande: fica inquieto, fala e pensa muito rapidamente.

Próximo do topo tem idéias, sente vontade de viver, ser feliz, comprar, amar e, principalmente, poder fazer o que quiser, quando quiser. Ninguém pode impedi-lo.

Até que começa a descida, aquela que vem antes do looping. À medida que o carro desce, toda aquela sensação de euforia, de querer e poder, começa a se esvair. O que vem é um sentimento de tristeza profunda. Vem a melancolia, a depressão, sensação de cansaço constante, baixa auto-estima, falta de apetite, falta de amor próprio, podendo chegar à perda da vontade de sair à rua. Até a idéia de tirar a própria vida se torna atraente.

A metáfora de uma viagem de montanha-russa, com seus extremos, ajuda a explicar como funciona uma mente bipolar: em extremos, com mudanças bruscas de humor. Ao contrário do que muita gente pensa, tanto os estados de hipomania e mania, caracterizados pela “subida”, e a depressão, pela “descida”, são bem diferentes das alterações de humor comuns no dia-a-dia.

Alternância
Caracterizado pela alternância de dois estados emocionais básicos - a alegria e a tristeza - a bipolaridade tem atingido um número cada vez maior de pessoas. Os portadores desse transtorno podem ter excesso de alegria e euforia, que recebe o nome de mania, ou de tristeza, evoluindo para a depressão.

“No caso da tristeza, o paciente com bipolaridade pode chegar ao extremo da depressão e tentar o suicídio, enquanto que no outro extremo, o da euforia, ele pode tentar escrever o livro em apenas um dia”, explica a psicóloga Marina Rodrigues Bernardini, em entrevista concedida à Tribuna de Ituverava.

Oscilações
As chamadas oscilações de humor entre a mania e a depressão, segundo Marina, podem ser muito rápidas e podem ocorrer com muita ou pouca freqüência. “Ela duram pelo menos uma semana. Em casos mais graves, poderão ter ciclos de instabilidade durante mais tempo. Os estados de mania e depressão, se não controlados por medicamentos, podem levar a surtos psicóticos, exigindo a intervenção psiquiátrica com anti-psicóticos”, alerta.

Os transtornos de bipolaridade são classificados em dois tipos. “No 1, os pacientes apresentam pelo menos um episódio maníaco (eufórico) e períodos de depressão profunda”, diz.

“Já no tipo 2, os pacientes nunca apresentaram episódios maníacos completos. Em vez disso, elas apresentam períodos de níveis elevados de energia e impulsividade que não são tão intensos como os da mania (chamado de hipomania). Esses episódios se alternam com episódios de depressão”, destaca.

Há ainda, de acordo com Marina, uma forma leve de transtorno bipolar chamada ciclotimia, que envolve oscilações de humor menos graves. “Pessoas com essa forma alternam entre hipomania e depressão leve. As pessoas com transtorno bipolar do tipo II ou ciclotimia podem ser diagnosticadas incorretamente como tendo apenas depressão”, lembra.

Causas
A causa exata do transtorno bipolar ainda é desconhecida, mas a ciência acredita que diversos fatores possam estar envolvidos nas oscilações de humor provocadas pela doença.

“Existem as peculiaridades biológicas, que são as pessoas com transtorno bipolar que parecem apresentar diferenças físicas em seus cérebros, o que pode levar os cientistas a descobrirem as causas exatas da doença; neurotransmissores, cujo desequilíbrio entre si parece ser um importante fator nas causas do transtorno bipolar; desequilíbrio hormonal e hereditariedade, pois pessoas que tenham parentes com histórico de transtorno bipolar são mais suscetíveis à doença, o que leva muitos cientistas a acreditarem que a genética possa estar envolvida nas causas da doença”, ressalta Marina.

“O meio ambiente, como fatores exógenos, como estresse, abuso sexual e outras experiências traumáticas (como a morte de algum ente querido), também podem estar relacionadas ao desenvolvimento do transtorno bipolar”, diz.

Sintomas do transtorno bipolar variam de pessoa para pessoa
Marina explica que homens e mulheres possuem as mesmas chances de desenvolver a doença, geralmente na idade entre 15 e 25 anos. “Os sintomas de transtorno bipolar costumam variar de pessoa para pessoa. Para alguns, os picos de depressão são os que causam os maiores problemas. Para outros, a preocupação é maior durante os picos de mania e euforia”, destaca.

“Não existe exame orgânico para transtorno bipolar. Existe o exame feito por psicólogo ou psiquiatra através da análise dos comportamentos, sentimentos e pensamentos do paciente. O bipolar se comporta de forma grandiloquente, tudo é exagerado, ora feliz demais ora deprimido ao extremo, mas estes sintomas podem ser confundidos com uma série de outros transtornos, por isso o exame é realizado através da observação e de conversas técnicas”, ressalta.

Marina lembra que em casos de transtorno bipolar, é possível que alguém da família seja convidado a comparecer e oferecer informações sobre o que ocorre no dia-a-dia deste paciente.

A fase maníaca do transtorno bipolar pode durar dias e até meses. Existem diversos sinais comuns em pessoas que tem o tipo 1 da doença (veja quadro). No tipo 2, eles são similares, mas menos intensos.

Risco de tentativas de suicídio em pessoas bipolares é grande
A psicóloga Marina Rodrigues Bernardini alerta que o risco de tentativas de suicídio em pessoas com transtorno bipolar é grande. “Os pacientes podem abusar do álcool ou de outras substâncias, piorando os sintomas. Em alguns casos, as duas fases se sobrepõem. Os sintomas maníacos e depressivos podem ocorrer juntos ou rapidamente um após o outro, o que recebe o nome de estado misto”, esclarece.

“As oscilações de humor podem ocorrer também de acordo com a estação do ano. Algumas pessoas, por exemplo, possuem picos de mania ou hipomania durante a primavera e o verão (estações mais quentes), e sintomas de depressão durante as estações mais frias, como o outono e o inverno. Para outras pessoas, acontece o oposto”, diz.

As mudanças de humor podem acontecer com mais freqüência em algumas pessoas, com oscilações acontecendo de quatro a cinco vezes por ano e, em alguns casos, até mesmo várias vezes ao dia.

“Episódios de mania e depressão podem resultar também em psicose, doença em que há perda de contato com a realidade”, enfatiza a psicológa.

Tratamento
Hoje, segundo Marina, há uma série de tratamentos farmacológicos eficientes para a doença. “O primeiro objetivo desta terapêutica é impedir a alternância de fases, ambas comprometedoras, e o retorno à vida familiar e profissional no mais breve período de tempo possível, evitando a desconexão do paciente com sua realidade. Em muitos casos o tratamento inclui o uso de medicações com indicações psiquiátricas e também intervenções psicológicas”, completa.Principais sinais do transtorno bipolar


Fase maníaca




Distrair-se facilmente

Redução da necessidade de sono

Capacidade de discernimento diminuída

Pouco controle do temperamento

- Compulsão alimentar, beber demais e/ou uso excessivo de drogas

Manter relações sexuais com muitos parceiros

Gastos excessivos

Hiperatividade

Aumento de energia

Pensamentos acelerados que se atropelam

Fala em excesso

Auto-estima muito alta (ilusão sobre si mesmo ou habilidades)

Grande envolvimento em atividades

Grande agitação ou irritação

Fase depressiva


Desânimo diário ou tristeza

Dificuldade de se concentrar, de lembrar ou de tomar decisões

Perda de peso e perda de apetite

Comer excessivamente e ganho de peso

Fadiga ou falta de energia

Sentir-se inútil, sem esperança ou culpado

Perda de interesse nas atividades que antes eram prazerosas

Baixa auto-estima

Pensamentos sobre morte e suicídio

Problemas para dormir ou excesso de sono

Afastamento dos amigos ou das atividades que antes eram prazerosas.