Vários fatores podem levar à agressividade em crianças. No destaque, a psicóloga Marina Rodrigues Bernardini Os impulsos agressivos são presentes em todos os seres humanos e animais, alguns com mais intensidade que outros. Considerada natural, a agressividade é um comportamento emocional que faz parte da afetividade de todas as pessoas. No entanto, saber lidar com esse comportamento é extremamente importante, especialmente para os pais, pois seus atos influenciam diretamente os filhos.
A maneira de reagir frente à agressividade varia de sociedade e cultura, pois cada uma tem as suas leis, valores e crenças. Alguns comportamentos agressivos são tolerados, enquanto outros são proibidos.
Nas sociedades ocidentais, por exemplo, consideradas bastante competitivas, a agressividade costuma ser aceita e estimulada quando vale como sinônimo de iniciativa, ambição, decisão ou coragem. Mas é impedida, reprimida ou punida quando identificada como atitudes de hostilidade e de sentimentos de cólera.
Ser agressivo é ter qualquer ação que pretende danificar algo ou alguém. Geralmente, estes atos agressivos não são a verdadeira expressão de raiva, mas sim desvios de outros sentimentos, como mágoa, insegurança.
De acordo com a psicóloga Marina Rodrigues Bernardini, quando a criança não saber lidar com estes sentimentos, ela pode expressá-los com atos agressivos. “Agressividade não é traço de personalidade, portanto, não existem crianças que são agressivas. Se digo que ‘o menino é agressivo’, esta agressividade se torna parte dele, da sua identidade e personalidade, e isto é falso. O correto é dizer que ‘o menino cometeu um ato agressivo’, ou seja, a criança está agressiva”, esclarece.
Ainda segundo ela, existem dois tipos de agressividade. “A instrumental é dirigida apenas para alcançar uma recompensa e não visa acarretar sofrimento ao outro. Já a hostil tem a finalidade de atacar ou ferir o outro”, diz.
“A agressividade pode ser verbal, que é aquela que ataca por meio de palavras, e física, que envolve o ataque físico”, ressalta.
Ambiente
Marina lembra que dentre os fatores que influenciam a agressividade, está o meio ambiente no qual a criança está inserida. “Geralmente acredita-se que a agressividade provém apenas de força interna, que é inerente ao indivíduo. Ao contrário, é o ambiente que perturba a criança. O que falta internamente à criança é a capacidade e a habilidade para lidar com esse ambiente que a deixa com raiva, com medo e insegura”, enfatiza.
“Logicamente, todos nós sofremos pressões do ambiente em que vivemos e nem todos respondemos a esse ambiente com comportamentos agressivos. O que acontece é que para alguns existe um déficit frente à capacidade de tolerar frustrações, para tolerar a falta e suportar coisas que não podemos ter na vida, que não sabemos ou que não entendemos”, esclarece.
A primeira grande influência que a pessoa sofre para que se torne agressiva vem da família. “Sabemos que a agressividade não é algo inato, algo com que a criança já nasce e nem um traço de personalidade. Ela é influenciada pelo meio. Porém, antes da criança receber a influência deste meio macro-social, em uma primeira etapa ela é influenciada pelo meio micro-social, ou seja, pela sua família. Somente depois é que ela assimile os valores da sociedade e dos meios de comunicação”, relata.
“Assim, atos agressivos podem ser aprendidos por meio da observação de modelos agressivos e podem ter efeito de aumentar o comportamento agressivo do observador. Portanto, é de se esperar que, em geral, crianças recompensadas por agressão e as que veem muita agressão nas pessoas que a cercam se tornarão mais agressivas do que aquelas crianças que tem modelos menos agressivos e que foram menos recompensadas por comportamentos agressivos”, destaca.
Televisão
Marina alerta que a TV também pode ser um agente perigoso para desenvolver a agressividade. “Os pais devem ter atenção aos programas de televisão, pois é possível encontrar programas com imagens que chegam a requintes de perversidade”, diz.
“Não há tendência inata ou subjacente para a agressividade. Tudo isso é comportamento aprendido. Cada criança levou diferentes ‘socos’ da vida, cada uma foi educada em famílias diferentes, com valores e idéias diferentes, portanto só poderiam ser diferentes”, ressalta.
Mau exemplo dos pais pode tornar filhos mais agressivos
Segundo a psicóloga Marina Rodrigues Bernardini, as ações dos pais podem ter grandes impactos nos filhos. “Os filhos aprendem, de uma forma geral, por imitação. Por isso, é preciso atenção, pois muitos dos comportamentos agressivos dos pais e adultos são absorvidos e aprendidos pelas crianças e adolescentes. É preciso que os pais revejam o seu próprio comportamento e identifiquem situações onde costumam se comportar de forma agressiva”, alerta.
Marina também enumerou alguns dos maus exemplos freqüentemente dados pelos pais. “As agressões verbais, embora não pareçam, podem machucar tanto quanto um soco. Por isso os adultos devem pensar nas palavras que usam com seus filhos e com outras pessoas e cobrar que eles também se dirijam aos outros com respeito. Lembrando que não são apenas os palavrões que podem ofender. A intenção, o tom de uma palavra ou de uma frase, mesmo quando não inclui um palavrão, pode machucar, e muito, os sentimentos do outro. Há um provérbio chinês que diz: uma palavra dita é como uma flecha atirada, nunca volta atrás. Portanto, muito cuidado com o que se fala”, recomenda.
Jogos ou filmes violentos também podem influenciar o comportamento dos filhos, embora não sejam os fatores que mais incentivam a agressividade. “Proibir simplesmente o filho de assistir ou jogar o que tem conteúdo violento não é a solução. Não podemos proibir nossas crianças de terem uma participação na vida em sociedade, mas podemos participar e ensiná-los a refletir sobre o que é bom e o que não é tão bom nos filmes e jogos. O importante é haver diálogo e reflexão: incentivar o filho a se colocar no lugar ora do agredido, ora do agressor e fazê-la pensar sobre isso. Isso fará do futuro adulto uma pessoa mais responsável por si”, destaca.
Agressões físicas
Marina lembra que as agressões físicas são formas instintivas de resolver problemas. “Cabe aos pais mostrar aos filhos uma forma madura de lidar com situações vinculadas a estresse, insegurança, competição, etc., sempre através do dialogo”, ressalta.
“Também é importante destacar que o estabelecimento de limites claros é promotor do desenvolvimento da criança. Quando for necessário dizer não se deve explicar o motivo da decisão sem ter receio de impor a autoridade aos filhos”, enfatiza.
Como evitar
A psicóloga lista alguns meios para evitar que o filho se torne agressivo. “Antes de mais nada, é preciso conhecer melhor seu filho, seus desejos, seus medos e suas angústias. Para lidar com a situação de forma tranqüila é necessário tomar consciência do problema e acolher o filho em seus sentimentos de receio, medo e angústia. Boas horas de intimidade e aconchego verdadeiro são os melhores remédios”, relata.
“Outra dica é procurar conversar com seu filho, interessar-se por seu universo, como seus gostos musicais, seus ídolos, suas atividades, e manter um canal de diálogo e confiança para recepcionar suas opiniões e suas queixas.
Ajude-o a refletir sobre a eficácia e as conseqüências das atitudes agressivas e mostre a ele que há outras maneiras de se expressar e resolver seus conflitos”, enfatiza.
Existem, ainda de acordo com Marina, diversos bons exemplos que podem ser dados pelos pais. “Ensinar os filhos desde pequenos a mostrar empatia pode impedir que se tornem agressivos. Em alguns países, educadores estão trabalhando com um novo estilo de educação chamado de aprendizado de empatia. O objetivo é ensinar os alunos, mesmo que só tenham 5 anos de idade, a entender os sentimentos dos outros e a tratar as pessoas com bondade. Embora ainda sejam poucos os dados estatísticos sobre o impacto em longo prazo, os primeiros resultados indicam que aqueles que receberam o treinamento são menos agressivos do que os que não receberam”, conta.
“Como pai, ou mãe, não se deve deixar esse treinamento inteiramente a cargo de algum programa escolar. Se não deseja que seu filho se torne agressivo é preciso ensiná-lo, por meio de palavras e de exemplos, a tratar os outros com respeito e dignidade. Como a agressividade é um comportamento impulsivo devemos levar nossos filhos a refletir a respeito da sua forma de agir, sentir, pensar e se posicionar, para que este tenha um comportamento menos animalesco e mais humanitário”, defende.
Origem do bullying também pode ser da violência de casa
A prática do bullying também pode ser de origem da violência presenciada em casa. “Um jovem agressivo projeta este comportamento no meio externo e o bullying é um termo inglês que se refere ao comportamento agressivo que geralmente ocorre na vida estudantil”, afirma
“Ele é caracterizado por envolver uma série de ofensas que inclui xingamentos, apelidos, agressões físicas e fofocas. Ou seja, é um comportamento intencionalmente agressivo que ocorre repetidamente em relações marcadas pelas peculiaridades de cada individuo e dos grupos a que este pertence”, finaliza Marina.