Cada vez mais os telefones celulares estão se transformando em um dos principais obstáculos para a comunicação interpessoal. Eles são capazes de aproximar os que estão longe, mas também têm afastado as pessoas que estão próximas.
É difícil encontrar alguém nos dias atuais sem telefone celular. As pessoas o levam na mão, como um sexto dedo, ou colado ao ouvido, ou vibrando e tocando no bolso da calça. Quase ninguém quer se separar dele, é como se algo terrível pudesse acontecer se tocar e não responder.
A evolução da telefonia móvel acelerou a criação de aplicativos para facilitar a comunicação entre os usuários de celulares e smartphones. Uma dessas ferramentas interativas é o WhatsApp, que permite aos usuários a troca de mensagens gratuitas por meio da internet. Ao fazer o download do aplicativo, o usuário pode iniciar conversas online com seus contatos e também criar e participar de grupos, compartilhando arquivos de texto, áudios, imagens e vídeos.
Em um primeiro momento, o aplicativo se mostra como um grande aliado da comunicação pessoal e profissional, já que a conexão ocorre de forma instantânea e que não há limite para o número de mensagens enviadas ou recebidas. A única exigência é que o dispositivo possa se conectar a internet móvel.
O que foi criado para facilitar a vida e melhorar a comunicação, no entanto, muitas vezes têm o efeito oposto. Cada vez mais dependentes desse tipo de aplicativo, as pessoas passaram a conversar muito menos pessoalmente.
Mesmo em bares e restaurantes, por exemplo, é comum se deparar com pessoas sentadas em uma mesma mesa, mas sem conversar, pois as atenções ficam voltadas às telas dos celulares, onde navegam pela internet e trocam mensagens pelo WhatsApp.
Em casa, a situação é semelhante. Filhos não conversam com os pais e maridos não falam com as esposas. Quando raramente o fazem, conversam enquanto mexem no celular, sem contato visual ou atenção devida.
Brigas
Uma pesquisa divulgada pela Universidade de Missouri, nos Estados Unidos, concluiu que o Twitter é responsável por potencializar conflitos na relação a dois, facilitando situações de infidelidade e desconfiança, separação e até divórcio - em casos mais extremos. Tudo isso porque, quanto mais ativo é o usuário dessa rede social, mais insatisfeito fica o parceiro, propenso a discutir e monitorar a vida digital do outro.
A distorção da realidade também é um ponto comum em sites como Facebook, Twitter e Instagram, entre outros. Muitas vezes, um comentário inocente acaba interpretado da maneira errada, motivado pela dúvida em relação ao sentimento do parceiro. Se essas pequenas frustrações não forem discutidas com sinceridade, o problema pode ficar ainda mais grave.
Restaurante oferece desconto a quem
desliga em celular
Diante dessa obsessão das pessoas pelo celular, o restaurante Eva, em Los Angeles, deu um passo na tentativa de mudar este comportamento. O estabelecimento oferece desconto de 5% aos seus clientes se eles não usarem o celular durante a refeição. A participação é voluntária, mas segundo o restaurante, quatro em cada dez clientes aceitam a oferta.
E este não é um pensamento exclusivo do restaurante Eva. Um estudo da Universidade de Essex, na Inglaterra, chegou à conclusão de que a simples presença de s celulares afeta as conversas face a face. Em um dos experimentos, dividiram um grupo de 74 participantes em duplas. A metade das duplas conversou sem um celular e a outra metade, com um celular em uma mesinha lateral. Pediram a todos que conversassem durante dez minutos sobre um fato interessante que tivesse acontecido com eles no mês anterior. Os resultados foram fascinantes.
As duplas que se conheceram sem um celular relataram maior proximidade e uma melhor qualidade de relação que aquelas que conversaram com um celular à vista. O segundo experimento confirmou que as pessoas têm mais confiança e compartilham mais coisas pessoais quando não há um celular por perto.
Essa é a conclusão do estudo feito por Andrew K. Przybylski e Netta Weinstein, publicado no ano passado em "The Journal of Social and Personal Relationships": "A evidência dos dois experimentos indica que a simples presença de telefones celulares inibe o desenvolvimento da proximidade e confiança interpessoais, e reduz os níveis de empatia e compreensão das duplas", diz o estudo.
Isto é, a simples presença de um celular é um obstáculo para a boa comunicação entre duas pessoas. E a tendência mundial é uma crescente migração dos computadores e televisores para os celulares. É claro que não é possível ver vídeos e ler documentos com a mesma facilidade e clareza que em uma tela maior, mas isso é secundário diante da conveniência de ter quase todo o mundo na palma da mão.
Meio termo
A tecnologia vem para atender às necessidades das pessoas, portanto não pode ser simplesmente deixada de lado. O que os usuários devem fazer é utilizar o celular com cautela. É claro que não é nada de errado em conversar pelo WhatsApp ou assistir a um vídeo engraçado.
O que deve ser evitado, no entanto, é fazer isso justamente no momento em que se está tendo uma conversa presencial ou quando está no trabalho ou na aula. Afinal, além de ser algo desrespeitoso essa iniciativa afasta as pessoas, tornando os relacionamentos cada vez mais frios e interpessoais.
Enquete
Para saber se a população acredita que os celulares afastam os distanciam as pessoas, a Tribuna de Ituverava foi às ruas nesta semana. A maior parte acredita que podem afastar se não for utilizado de modo adequado.