Boletos podem ser falsificados Uma das modalidades de fraude que mais têm crescido entre os relatos dos consumidores do site Reclame Aqui, é o golpe do boleto falso. Trata-se de uma farsa, em que o nome e os dados estão corretos, mas alguns números no código de barras são alterados e o pagamento feito é redirecionado para a conta de uma quadrilha.
Em 2006, a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa fez um comunicado de alerta sobre os primeiros golpes de falso registro de domínio da entidade responsável no Brasil, a Registro.br.
Naquela ocasião os falsários eram uma entidade chamada Nicregistro.com, que enviava boletos bancários as pessoas e empresas com domínios registrados no Brasil extremamente semelhantes com o boleto gerado pela Registro.br para pagamento das anuidades de referentes a registro de domínio.
Contudo, para disfarçar o golpe, colocavam na instrução do boleto que o serviço era referente hospedagem e não ao registro do domínio, fazendo uso desse artifício para enganar os receptores e também da justiça, afirmando que um “boleto” seria apenas uma proposta de hospedagem.
“Esse tipo de prática existe há no mínimo 20 anos, mas ganhou uma amplitude ainda maior nos últimos anos”, diz Marcel Solimeo, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). “Eu não sei como eles têm acesso aos dados. Basta abrir uma empresa e imediatamente a pessoa começa a receber boletos que podem lhe causar prejuízos”, complementa Sebastião Luiz Gonçalves, conselheiro do Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo (CRC-SP).
Funcionamento
Gonçalves explica que a tática do golpe é mandar milhares de cobranças, especialmente para novos empresários e, ainda que poucos paguem, esses poucos serão sempre muitos. “Eles jogam com a lei dos grandes números. Mandam 10 mil boletos e, se 10% pagarem, já ganharam o ano”, explica Solimeo.
Os empresários novatos acabam se desesperando com os prazos apertados para pagar e com os nomes consolidados de muitas das entidades que mandam boletos. Solimeo afirma que, muitas vezes, as organizações que aplicam o golpe usam nomes muito parecidos com os de instituições conhecidas.
Ele lembra que já se deparou com uma falsa associação cujo nome era muito parecido com a da própria ACSP, que é uma instituição reconhecida e com mais de 100 anos de história. “Os microempresários acabam sendo os mais afetados, pois têm menos acesso a informações”, continua Solimeo. Até por isso, eale recomenda que o empreendedor sempre envie os boletos para um profissional de contabilidade, que está mais alerta para este tipo de prática.
Gonçalves é ainda mais taxativo. “Recomendo a todos os meus clientes que não paguem nada e encaminhem tudo o que receberem para um escritório de contabilidade, que vive o dia-a-dia da vida contábil e saberá diferenciar o que deve ou não ser pago”, alerta.
Infelizmente, nem todos tomam o devido cuidado, e muita gente acaba pagando o boleto. “Os golpistas sabem da impotência econômica dos pequenos contribuintes e, por isso, os valores não costumam ser muito altos – giram em torno de R$ 300, e isso ainda faz com que não valha a pena reaver o valor na justiça, pois sairia mais caro do que a quantia paga”, afirma Gonçalves. Pelo menos, o fato de se pagar uma vez, não significa que se terá de pagar nos próximos anos.
Diretor do Procon de Ituverava alerta sobre os golpes do boleto
Mesmo em cidades menores, como em Ituverava, os golpes são freqüentes. É o que explica o diretor do Procon da cidade, Marcelo Spósito Liporaci Machado.
“Os golpes dos falsos boletos ou boletos adulterados estão na ordem do dia, causando sérios transtornos e prejuízos aos consumidores. No último mês, houve o registro de uma reclamação no Procon de Ituverava de uma clínica médica da cidade que pagou um boleto e o pagamento não foi recebido pela empresa de São Paulo, mas por uma pessoa física domiciliada em Pernambuco”, afirma.
“O interessante é que o boleto foi gerado no próprio computador da clínica. Hoje, sabe-se que há quadrilhas de hackers que infectam computadores, principalmente através de emails falsos, e esses vírus detectam e alteram boletos gerados nos computadores pessoais, mantendo suas características visuais, mas modificando o código de barras, direcionando o pagamento para outro que não a empresa ou pessoa física credora emitente do boleto”, ressalta.
Machado alerta que é importante frisar isso, porque os falsos boletos podem chegar não só pelos correios, mas também podem ser adulterados no próprio computador, sem que nada seja percebido.
“Para saber se o pagamento chegará ao seu destino correto, existem várias medidas a serem tomadas, mas a que eu reputo a mais simples e fácil ao consumidor é a seguinte: antes de realizar o pagamento no caixa eletrônico do banco, faça a leitura do código de barras e verifique as informações na tela. Certifique-se qual é o banco e agência do destinatário do pagamento que aparece descrito na tela, que deve ser idêntico aos dados descritos no boleto”, alerta.
“É valido ainda reparar se a agência bancária emissora do boleto é compatível com o domicílio do beneficiário do pagamento, isso porque dificilmente uma empresa com sede, por exemplo, em São Paulo, trabalhará com agências bancárias de outros Estados”, alerta.
Como proceder
Machado recomenda que, havendo suspeita de fraude, antes de realizar o pagamento, o consumidor deve entrar em contato com a empresa credora e certificar-se da sua autenticidade.
“Nessas situações há uma lógica de mercado: o consumidor ou empresário compra um produto ou contrata um serviço, ficando responsável pelo pagamento. Quando não há compra de produto ou contratação de serviço, desconfie mais ainda quando chegarem boletos desconhecidos, principalmente quando indicarem promoções do tipo limpe seu nome ou regularize agora sua pendência. Os hackers conseguem dados de consumidores inadimplentes e encaminham falsos boletos para pagamento”, destaca.
“A pessoa acredita estar limpando seu nome, mas, na verdade, é vítima de um golpe. Mas, nem tudo é falso. Ao receber propostas desta natureza, o consumidor deve entrar em contato com a empresa com a qual tem dívida e verificar se a proposta é autêntica. Constatada a tentativa de golpe, é importante procurar a Polícia Civil”, conclui.
Golpe do boleto também é aplicado pela internet
E não são apenas os boletos que chegam a empresas e residências que podem tentar enganar o consumidor. Muita gente escolhe pagar as contas com boletos bancários para escapar de golpes aplicados por bandidos pela internet. Mas, muitos bandidos mudam os dados do documento para desviar o dinheiro. E os vírus podem nem estar no computador.
É uma fraude elaborada. O site do banco ou da empresa é oficial. A pessoa entra no link para tirar a via de um boleto, e no meio do processo, o código de barras do documento é corrompido e o dinheiro vai para a conta de um golpista.
Batizada de "gangue do boleto", o grupo que coordenada a fraude identificada pela empresa RSA opera via internet dos EUA e se conecta aos computadores por um vírus.
Uma vez infectados, toda vez que um código de boleto é digitado ou identificado, intercepta o pagamento e o desvia para as contas dos integrantes da quadrilha.
Entre fevereiro e maio de 2014, foram identificados quase 496 mil boletos nos servidores da quadrilha nos EUA, com datas dos últimos dois anos. No total, eles somam US$ 3,75 bilhões (ou cerca de R$ 8,57 bilhões).
Contra esse tipo de golpe, empresas de cibersegurança oferecem soluções desde o ano passado, quando outro mecanismo que atua da mesma maneira foi descoberto.
Pacote
A Kaspersky Lab possui o pacote, que custa R$ 99 por um ano, em sua versão mais barata, que dá direito a uma licença de uso (mas promoções atuais liberam uma licença adicional). Ele cobra todas as plataformas, Windows, Mac, Android, e pode ser comprado no site da empresa e nas conhecidas lojas de varejo.
Diretor geral da Kaspersky Lab para o Brasil, Cláudio Martinelli ressalta que apesar de a primeira preocupação dos usuários ainda ser o computador pessoal, é importante atentar que muitos dos malwares atuais focam smartphones e tablets. “A primeira ocorrência do malware de boleto foi detectada no ano passado por nós. Este é um vírus novo com atuação igual", diz.
A McAfee também oferece ferramentas que previnem o golpe, tanto para desktop como para dispositivos móveis. "Esse tipo de malware [vírus] contamina o navegador e age toda vez que encontra a palavra boleto", explica José Matias, diretor de suporte técnico da empresa para a América Latina.
Esse tipo de software, uma vez instalada no computador, atua de duas maneiras. Primeiro, consegue identificar e certificar se o site acessado é mesmo o do banco. Depois, tem a capacidade de perceber se algum dado digitado pelo usuário está sendo capturado ou modificado. Com isso, emite um alerta de que algo está errado.