A dependência de celular tem sido tema recorrente na mídia nos últimos anos e vem atraindo a atenção de clínicos e pesquisadores no mundo todo. Você já deve ter percebido que hoje um simples aparelho celular se aproxima muito mais de um computador pessoal do que o telefone propriamente dito na forma que originalmente o conhecíamos.
Um simples aparelho pode servir como máquina fotográfica, filmadora, dar acesso a redes sociais, ser um despertador, calculadora, rádio, guardar as músicas preferidas, ser um GPS, mandar e receber e-mails, isso sem falar nos inúmeros jogos e aplicativos de diversão.
Para se ter uma idéia de quanto esse aparelho entrou em nossa vida, segundo algumas pesquisas, ele é o objeto mais oferecido por pais a bebês (para que os mesmos possam se acalmar), vindo à frente, inclusive, da mamadeira e da própria chupeta. Hoje, estima-se que o número de assinantes de telefonia móvel tenha atingido a marca de 5,9 bilhões no mundo, com uma população atual de 7 bilhões de pessoas, ou seja, o telefone celular já se faz presente em lugares onde a água potável e o saneamento básico ainda não chegaram.
Comportamento
E isso já está criando sérios problemas. O comportamento descrito pela dependência de celular foi recentemente nomeado de “nomofobia” (do inglês, “no mobile phone”). O termo refere-se ao desconforto apresentado por indivíduos quando estão fora de contato com seus aparelhos celulares, isto é, pelo medo de tornarem-se “tecnologicamente incomunicáveis”.
A força desta “ligação” é tão grande que algumas pessoas, quando longe de seus aparelhos, descrevem sentir muita ansiedade ou mal-estar enquanto outros, inclusive, chegam a apresentar um sintoma chamado “toque fantasma” (dizem que “ouviram” seu telefone tocar) ou ainda dizem ter “sentido” que o mesmo vibrou (por ter recebido alguma mensagem de texto) sem que isso tenha, de fato, ocorrido.
Dependência
Embora a dependência de telefone celular ainda não seja uma doença oficialmente reconhecida, o uso excessivo já desperta muita preocupação. Um estudo publicado na Tailândia, com 10.191 adolescentes com idade entre 12 e 19 anos, concluiu que quase metade desses indivíduos (48.9%) reportaram ter tido ao menos um dos sintomas relacionados ao uso problemático de telefone celular, tendo 16.7% reportado quatro ou mais sintomas. Destes, a incrível marca de 97.8% apresentaram alguma disfunção em razão da dependência de telefone móvel.
Estudo
Já no Brasil há números indicando um alto uso podem ser também encontrados por aqui. O Estudo ‘Mobilidade Brasil’ avaliou como o telefone celular mudou a vida e os costumes dos brasileiros. Mil indivíduos de todas as classes sociais e de ambos os sexos com ao menos 16 anos de idade foram entrevistados em 70 cidades brasileiras, incluindo nove regiões metropolitanas.
O resultado revela que 18% dos entrevistados reportam serem viciados em seus aparelhos celulares. As representantes do sexo feminino (21%) e os jovens com idade entre 16 e 24 anos (23%) se revelam os mais viciados em seus celulares.
Confira os critérios utilizados
para diagnosticar a nomofobia
Saliência cognitiva: Quando o uso do telefone celular domina os pensamentos e comportamentos de uma pessoa, ou seja, quando ela pensa e faz coisas sempre com a possibilidade de usar o celular
Alteração do humor: Quando o indivíduo utiliza o celular, experimenta uma sensação de prazer, euforia ou alívio
Tolerância: A pessoa necessita passar cada vez mais tempo usando o celular para obter o mesmo prazer obtido anteriormente com o uso
Sintomas de abstinência: Quando o sujeito se encontra impossibilitado de usar seu telefone celular, experimenta um grande desconforto emocional
Conflito: O uso do celular criando conflitos com outras pessoas (em geral pessoas mais próximas, como cônjuge e/ou familiares), como também gerando problemas com outras atividades do cotidiano
Recaída: Ocorrendo quando o sujeito apresenta tentativas mal sucedidas de diminuir o uso do celular, voltando a usar o telefone celular com a mesma freqüência ou, por vezes, aumentando ainda mais o tempo de uso.
Entenda o que é e como se manifesta a nomofobia
Quantas vezes você já se pegou checando e-mails pelo celular no horário do almoço? Ou verificando, a cada cinco minutos, se chegou uma nova mensagem de texto? Se você se identifica com as situações acima, cuidado: esses podem ser sinais da nomofobia, síndrome em que o paciente fica dependente do telefone ou da internet.
“Aquela pessoa que usa muito o celular por causa do trabalho, ou por algum outro motivo, não necessariamente tem a doença. Mas se o esquecimento do aparelho em casa já é suficiente para gerar um sofrimento, é preciso procurar ajuda”, explica a pesquisadora do Laboratório de Pânico e Respiração do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, Anna Lucia Spear King.
A PhD em Saúde Mental estudou o tema em sua tese de doutorado. No estudo, 34% dos entrevistados sem problemas psicológicos afirmaram ter alto grau de ansiedade sem o telefone por perto. E 54% disseram ter "pavor" de passar mal na rua sem o celular.
A nomofobia não costuma aparecer sozinha. Em geral, está associada aos transtornos de ansiedade, que podem ser síndrome do pânico, transtorno bipolar, estresse pós-traumático, entre outros. Tratando essas doenças com remédios e terapia, a nomofobia também desaparece.
Vício global
Uma pesquisa feita pela revista "Time" e pela Qualcomm, em diversos países, mostrou que o uso do celular está cada vez mais intenso. Dos cinco mil participantes, 79% disseram que se sentem mal sem o telefone. No Brasil, 58% afirmaram que usam o celular a cada 30 minutos e 35% a cada dez minutos.
Enquete
Para saber se os ituveravenses se consideram dependentes do uso de celulares, a Tribuna de Ituverava foi às ruas nesta semana.