Leide Consuelo Quereza Moreira durante o lançamento do seu novo livro Portadora de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), doença que eliminou todos seus movimentos, com exceção as do globo ocular, a ituveravense Leide Consuelo Quereza Moreira construiu uma trajetória repleta de exemplos para a humanidade. Pela sua dedicação e amor à vida, Leide emociona a todos que conhecem a sua história, mesmo que não a fundo.
Ela tem uma vida bastante limitada, vive em seu apartamento em São Paulo, em sistema de home care, com uma UTI instalada em seu dormitório. Está tetraplégica, alimenta-se via gastrostomia (alimentação feita por sonda gástrica ligada ao estômago), respira por aparelhos e é monitorada 24hs por auxiliares de enfermagem e cuidadoras. Não possui os movimentos, com exceção do globo ocular, não pisca e, apesar das suas limitações físicas, o seu intelecto continua funcionando plenamente.
Prova disso é que no dia 27 de agosto, ela lançou, no auditório do jornal Folha de São Paulo, o seu terceiro livro: “Não espere de mim apenas poesias”, obra de 460 páginas. Para marcar o lançamento, houve um recital pelas atrizes Gilda Nomacce, que também é ituveravense, e Dani Smith e pelos músicos Elder Costa e Rafael Toledo, com iluminação de Hernandes Oliveira e direção de Donizeti Mazonas.
“Não espere de mim apenas poesias” contou com o patrocínio da área de Doenças Raras da Pfizer e da Casa Hunter – Associação Brasileira dos Portadores da Doença de Hunter e Outras Doenças Raras. A obra teve apoio da Interfarma – Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa e da AbrELA – Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica.
Leide também já publicou os livros, “Letras da Minha Emoção” (2006) e “Poesias para me sentir viva” (2008), ambos com relevante repercussão social. Muitas de suas poesias já viraram músicas por meio de parcerias com o blues man Nuno Mindelis e com os compositores mineiros Elder Costa e Rafael Toledo.
Leide Consuelo Quereza Moreira, 67 anos, É casada com César Sandoval Moreira, e sãos seus filhos César Sandoval Moreira Júnior, Leide Consuelo Quereza Moreira Jacob e Cristiano Cesar Quereza Moreira e netos Gabriel Moreira Jacob, Pedro Moreira Jacob e Diego Gomes Moreira.
Por intermédio da filha Leide Consuelo Quereza Jacob Moreira, a autora Leide Consuelo Quereza Moreira concedeu entrevista à Tribuna de Ituverava, quando falou sobre a sua nova obra e sua vida.
Temas
“Este livro traz muito de minha vida, minha história e minha luta. Falo de amor, gratidão, felicidade, esperança, enfrentamentos, solidão, sonhos, temas da condição humana, através de acontecimentos e especificidades do meu dia-a-dia. Nunca imaginei que chegaria a escrever meu terceiro livro e agradeço a Deus pela vida”.
ELA
“A doença representa atualmente uma dimensão constitutiva da minha vida. Escrevo sobre a minha vivencia, não tem como não relacionar com a doença”.
Poesia
“Sempre gostei de poesias. A vida sempre me inspirou. Antes escrevia por brincadeira. Agora minhas motivações são contribuir com a sociedade, expor minha luta pela vida e me expressar. Escrevo para me sentir viva”.
Comunicação
“Comunico-me por meio do movimento ocular. Combinando previamente o lado do ‘sim’ ou ‘não’, respondo às perguntas, olhando para um lado ou para o outro. Uso uma tabela visual com as letras do alfabeto para me expressar. O seu funcionamento, porém, está explicado melhor em meu site e também no meu livro”.
Aquisição
“O livro ‘Não espere de mim apenas poesias’, em sua versão impressa, pode ser adquirido na Abrela (Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica), através do telefone (11)5579-4902 ou do site www.abrela. org.br. Já a versão em PDF (arquivo para ser lido em computador, celular ou tablet) está disponível para download gratuito no site www.leidemoreira.com.br”.
Mudanças
“Antes eu era independente. Hoje mantenho minha autonomia, mas sou completamente dependente, não tenho privacidade. Aprendi muitas coisas, ser mais paciente, a compreender e amar mais a vida. No entanto, sinto falta de muitas coisas, como correr, me locomover, estar presente de forma mais ativa com os netos, conversar, etc.”.
Ituveravense dá nome para Lei em São Paulo
Foi sancionada pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, a Lei “Leide Moreira”, que partiu de Projeto de Lei elaborado em 2010, pela vereadora Mara Gabrilli. A Lei prevê multa para qualquer casa de shows ou de espetáculos que cobre mais de um ingresso por pessoa, seja esta deficiente em cadeira de rodas ou maca, obeso ou não, indiscriminadamente.
Em Janeiro de 2014, o Projeto de Lei já havia sido aprovado por todas as comissões da Câmara dos Vereadores de São Paulo, e mais recentemente foi sancionada pelo prefeito Fernando Haddad.
A inspiração para a criação da lei ocorreu porque a ituveravense Leide Consuelo Quereza Moreira foi a um show, em 2010. No entanto, a casa de espetáculos quis cobrar 4 ingressos dela por ela ir a um show de maca, deitada. Eles alegaram que estavam sendo bonzinhos, pois na verdade ela ocuparia 8 lugares, então eles ainda dariam “desconto” de 4 lugares.
Escritora se comunica através de tabela visual
Com apenas os movimentos do globo ocular, a escritora Leide Consuelo Quereza Moreira se utiliza de uma tabela visual para se comunicar, com suporte de seus familiares ou de uma equipe de cuidadoras e auxiliares de enfermagem, treinados para lhe oferecer este apoio.
A tabela é mostrada para Leide no momento da comunicação, e os auxiliares perguntam primeiramente em qual coluna se encontra a letra que quer escolher. Listando uma a uma pelo número: coluna um, dois, três, até a coluna seis. Através de um movimento ocular previamente combinado (direita ou esquerda), Leide identifica em qual coluna está a letra.
Após confirmar a coluna (procedimento sempre necessário), o interlocutor (cuidadoras, auxiliares ou familiares) lista uma a uma as linhas da coluna também por seus números, perguntando: linha um, dois, três, até a linha treze. Com o mesmo movimento ocular, Leide sinaliza em qual linha está a letra que pretende comunicar.
Cada cruzamento de coluna e linha aponta a uma letra do alfabeto, um número ou alguma palavra usual da autora.
Caso a letra seja uma consoante, imediatamente o interlocutor pergunta se o que vem após é uma vogal, com um sinal de positivo na mão direita e negativo na mão esquerda. Leide olha para o sinal correspondente, sinalizando sim ou não.
Caso a resposta seja positiva, o interlocutor vai verbalizando cada uma das vogais, até que Leide sinalize com os olhos (para direita ou esquerda, movimento previamente combinado) a vogal que compõe a sílaba.