SAϿ�DE

Exercício físico é uma forma de prevenir colesterol
25/10/2015

COLESTEROL GENÉTICO TAMBÉM PODE ATINGIR PESSOAS MAGRAS


Estimativa é que exista cerca de 300 mil portadores de hipercolesterolemia no Brasil

Portadores de hipercolesterolemia familiar são mais propensos à formação de placas que entopem as artérias e deflagram distúrbios cardiovasculares. A doença é fruto de defeitos genéticos que provocam falhas no sistema de limpeza das veias. O resultado é o aumento do colesterol ruim, o LDL estopim para a aterosclerose.

A estimativa é que o Brasil tenha cerca de 300 mil portadores de hipercolesterolemia. No Instituto do Coração, em São Paulo, um programa chamado Hipercol Brasil identifica os pacientes com mutação no gene, responsável pela doença, os encaminha para tratamento e realiza exames nos familiares do paciente para detectar se também são portadores da falha genética. Mesmo se o paciente tem a mutação, mas a doença não se manifestou, a chance de seus descendentes herdarem o problema é de 50%.

Sem sintomas

Na maioria dos casos, a hipercolesterolemia não apresenta sintomas. Por isso, uma das principais medidas de prevenção é medir o colesterol desde cedo. Quando antes for o diagnóstico, melhor será o tratamento.

"Há pacientes que infartam antes dos 30 anos", conta o cardiologista Raul Dias dos Santos, do Instituto do Coração, o InCor, em São Paulo, considerado uma das autoridades mundiais no assunto. O distúrbio é fruto de defeitos genéticos e interfere em receptores de células no fígado que são como pazinhas aptas a retirar o colesterol de circulação.

A hipercolesterolemia familiar não é tão rara assim. "No Brasil estimamos que a freqüência da forma heterozigótica, a mais comum, seja de 1 em 300 pessoas", revela a cardiologista Cinthia Elim Jannes, do Laboratório de Genética do InCor. E há a desconfiança de que existam ainda mais casos. A médica coordena, ao lado de Santos e outros profissionais, o programa Hipercol Brasil, que identifica, por meio de exames no DNA, mutações nos genes por trás da condição, encaminha pacientes dos quatro cantos do país para tratamento, além de apurar se há mais portadores na família.

Rastreamento
"Utilizamos o chamado rastreamento em cascata", diz Cinthia. Ou seja: quando se confirma um diagnóstico, os parentes mais próximos também passam por triagem. Isso porque o risco de pais, filhos ou irmãos apresentarem o distúrbio é alto.

"Trata-se de uma doença com transmissão autossômica dominante, o que significa que, para um indivíduo portador de uma mutação, mesmo sem desenvolver o problema, a probabilidade de seus descendentes diretos herdarem o defeito genético é de 50%", esclarece o cardiologista Andrei Sposito, da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.

"Apesar de grande parte dos portadores de HF não apresentar nenhum tipo de sintoma, existem manifestações na pele que aparecem em uma minoria", relata o cardiologista Hermes Toros Xavier, presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

O médico se refere ao aparecimento de bolas de gordura entre os dedos das mãos e dos pés, no calcanhar e nos joelhos - os xantomas, característica mais comum em pacientes homozigotos.

Diagnóstico precoceé muito importante
Como a doença é silenciosa e parece estar subestimada, há quem recomende a medição de colesterol a partir dos 20 anos em toda a população. "Quanto mais cedo o diagnóstico, mais eficaz o tratamento", defende a cardiologista Cinthia Elim Jannes, do Laboratório de Genética do InCor. "Além de lançar mão de remédios que baixam o colesterol, é crucial a adoção de um estilo de vida saudável", atesta. A primeira Diretriz Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar, elaborada em 2012, destaca, por exemplo, a necessidade de uma dieta bem regrada.

"Uma das principais recomendações é reduzir o consumo de alimentos ricos em gordura saturada", diz Xavier. Muita parcimônia, portanto, na ingestão de carnes vermelhas, laticínios integrais e frituras. A atividade física é outra medida que não fica de fora. Assim como fugir do tabagismo e dos abusos etílicos, atitudes que, vale dizer, são bem-vindas independentemente de ter herdado ou não a HF.

Como nessa doença o apoio farmacológico é fundamental, uma das melhores notícias dos últimos meses é que estão chegando ao país novas drogas que reduzem para valer os níveis de colesterol. É que as estatinas, comprimidos mais receitados para essa finalidade, nem sempre dão conta do recado. Desse modo, ganham destaque anticorpos monoclonais que, no fígado, fazem o sistema de faxina nos vasos funcionar direito. Com diagnóstico precoce e tratamento de primeira, o sonho de um coração livre de perigo pode, sim, virar realidade. E o melhor: para toda a família.

Caso de família
Quem tem um parente próximo que sofreu ataque cardíaco antes dos 55 anos deve dosar o colesterol desde cedo. Por exemplo, se uma pessoa perdeu um pai por infarto aos 40 e poucos anos e tem um dos avós com histórico semelhante, isso significa que ela possui maior risco de carregar nos genes uma propensão para o colesterol alto. Se as taxas de LDL passarem de 130 mg/dl entre as crianças ou 190, no caso de adultos, indica-se um teste para apurar a hipercolesterolemia.

Perigo maior
Complicações cardíacas estão à espreita nos casos heterozigotos de hipercolesterolemia - quando se herda um gene defeituoso somente de um dos pais. Mas a situação é bem mais ameaçadora se a herança vem tanto do pai como da mãe, característica dos pacientes homozigotos - cuja prevalência é estimada em 1 a cada 1 milhão de pessoas. Neles, as taxas de colesterol passam de 1 500 mg/dl. "Se não houver tratamento, a expectativa de vida é de 20 anos", afirma o professor Andrei Sposito, da Universidade Estadual de Campinas.

Problema de fábrica
A mutação no DNA também está por trás de imperfeições em uma proteína própria da LDL, a ApoB. Por causa disso, a LDL não consegue se ligar direito aos tais receptores. Resultado: mais colesterol dá sopa na corrente sanguínea.

Na HF, uma falha genética faz com que haja, nas células do fígado, um número menor de receptores responsáveis por captar as partículas de LDL - aquela bolota que transporta o colesterol pelos vasos. Assim, um monte de moléculas da gordura fica vagando na circulação.

Fígado: produção e coleta seletiva
O órgão fabrica até 70% do colesterol do corpo e suas células têm receptores específicos que recolhem o LDL-colesterol. A gordureba é, então, lançada para a bile e, de lá, vai parar no intestino, por onde se despede.

A doença interfere no funcionamento de uma enzima, a PCSK9, que participa, dentro da célula, da degradação dos receptores de LDL-colesterol. Trabalhando além da conta, a PCSK9 contribui para os níveis de colesterol decolarem.