O neurologista Dr. Jorge Alberto Martins Pentiado JúniorPatologia degenerativa do Sistema Nervoso mais frequente associada à idade (afeta aproximadamente 10% dos indivíduos com idade superior a 65 anos e até 40% dos que possuem mais de 80 anos), a doença de Alzheimer é caracterizada clinicamente por demência e com achados característicos em análise de cérebros de pacientes com este problema. A doença foi descrita pela primeira vez em 1907, pelo médico alemão Alois Alzheimer, e hoje está em franca evolução, acometendo um grande número de pessoas.
Síndrome demencial ou demência significa o declínio em duas ou mais funções cognitivas (geralmente inicia-se com déficit de memória) de instalação progressiva e com acometimento das atividades de vida diária (higiene pessoal, ato de cozinhar, lavar roupa, pagar contas e lidar com dinheiro, lembrar recados, tomar medicações e lembrar compromissos, etc.), além de atividades sociais (geralmente evita contato social com medo de constrangimento) e profissionais (desempenho no trabalho).
O neurologista Dr. Jorge Alberto Martins Pentiado Júnior, que atende na Clínica Longevitá, nem todo esquecimento é doença de Alzheimer. “Podemos citar algumas causas comuns, principalmente em pacientes jovens. Uma delas são depressão (pacientes deprimidos podem ter dificuldade para prestar atenção nas informações e depois não conseguir lembrar delas); síndrome da apnéia/hipopnéia obstrutiva do sono (roncos com dificuldade para respirar durante o sono, com sono não reparador e dificuldade para lembrar e gravar informações); e doenças da tireóide (é comum o paciente com hipotireoidismo ter lentificação no pensamento com dificuldade para lembrar fatos)”, relata.
Cérebro
“Sabe-se que o cérebro humano possui a capacidade de eliminar substâncias consideradas ‘tóxicas’ para os neurônios, como alguns tipos de proteínas. Geralmente o aumento dessas proteínas ou a dificuldade em eliminá-las resulta no acúmulo delas nos neurônios, que as leva à morte ou atrofia do cérebro”, destaca.
Dr. Jorge lembra, ainda, que ao contrário do que muitas pessoas pensam, a perda de memória com o envelhecimento não é natural. “O envelhecimento normal pode levar a graus leves de lentidão da velocidade de pensamento, como por exemplo, demorar um pouco para lembrar o número de um telefone, sem, contudo, errar o mesmo”, diz.
Diagnóstico
Ele afirma ainda que o diagnóstico da doença por meio da consulta com o médico neurologista, pois não existe um exame complementar (tomografia ou ressonância) capaz de dizer com certeza se existe ou não a doença.
“Durante a entrevista com o médico o paciente e principalmente os familiares são questionados sobre os esquecimentos e outras áreas da cognição, é realizado o exame neurológico com aplicação de testes para detectar a síndrome demencial”, relata o médico.
Tratamento
“O tratamento baseia-se em duas classes de medicamentos: os que agem aumentando o nível de acetilcolina (substância produzida pelos neurônios saudáveis e que está envolvida no processo de memória) e aqueles que atuam no glutamato (função semelhante à acetilcolina na formação da memória)”, observa.
Existem também, como lembra o neurologista, indicações formais para os referidos medicamentos que só podem ser utilizados e comprados com receita médica.
“Infelizmente ainda não existe a cura para o Alzheimer, entretanto, o tratamento atual consegue ‘voltar o relógio no tempo em um ano’, ou seja, o paciente pode voltar a ter o mesmo desempenho cognitivo (memória, por exemplo) de um ano antes do início do tratamento medicamentoso”, explica.
“A busca pela cura envolve muito recursos financeiros para pesquisas, e possivelmente veremos nos próximos anos algum medicamento capaz de interromper ou lentificar o curso da doença”, anuncia.
Prevenção
O médico ainda enumerou alguns hábitos que previnem a doença. “Sabe-se que pacientes que possuem alto nível de escolaridade (anos de estudo) ou que exercitam a mente freqüentemente (leitura de livros, por exemplo), possuem menor chance de desenvolver a doença. Dessa forma, nunca é tarde para iniciar um hábito de leitura ou outra atividade cognitiva como pintar quadros e desenhar”,completa.
Profissional
Natural de Araguari (MG), Dr. Jorge Alberto Martins Pentiado Júnior é graduado em Medicina, pela Escola Superior de Ciências da Saúde (Distrito Federal), possui residência médica em Neurologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, e tem “Fellowship” (sub-especialização) em Transtornos do Movimento e Aplicação Terapêutica de Toxina Botulínica pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de São Paulo.
Dicas para os familiares e cuidadores dos pacientes
Discuta com todos os familiares como será feito a divisão de tarefas: quem acompanhará o paciente em consultas médicas; com quem o paciente irá residir; custos de tratamento e outras despesas como vestimentas, por exemplo.
Tratar o paciente com carinho e sempre discutir as decisões que ele possa participar.
Continuar a levar o paciente em atividades que antes eram prazerosas, como ir à praia e caminhar em parques (a atividade física é um importante fator que melhora a qualidade de vida dos pacientes, além de prevenir outras doenças como o infarto agudo do miocárdio (coração).
Incentivar a memória mostrando álbuns de família com fotos das mais variadas épocas, bem como a leitura de jornais e revistas atuais.
Estimular o contato com plantas e animais domésticos, sempre de forma supervisionada.
Manter horários regulares das refeições, de preferência a cada três horas, sempre com dieta variada e balanceada.
Evitar situações embaraçosas para o paciente, como aquelas em que ele tenha que fazer discursos em público e possa esquecer de fatos e informações, o que poderia deixa-lo exposto.
Jamais o paciente pode sair de casa sozinho, pois ele pode perder-se na rua ou ficar vulnerável a atropelamentos.
É importante que o cuidador administre os medicamentos na hora certa, pois o paciente pode esquecer de tomar os remédios. Além disso, em fases mais avançadas da doença o paciente pode necessitar de ajuda para alimentar-se, vestir-se, tomar banho e até mesmo escovar os dentes.
Adaptar o ambiente domiciliar, como retirar escadas e construir rampas, evitar a presença de pisos escorregadios e objetos pontiagudos na decoração, pois quedas são comuns e poderia levar a traumatismos cranianos e fratura de fêmur, por exemplo.
Finalmente, é preciso cuidar de quem cuida: frequentemente o cuidador encontra-se esgotado física e mentalmente, o que pode predispor a quadros depressivos e transferir sentimentos desagradáveis para o próprio paciente, além de diminuir a capacidade de lidar com situações que causem o mínimo estresse (pode ficar irritado com o fato do paciente derrubar a comida no chão, por exemplo).
Nesse sentido, faz-se necessário o acompanhamento com profissionais de saúde ao se constatar os mínimos sinais de cansaço e esgotamento, além de sempre tirar as dúvidas durante as consultas com o neurologista.
Outras funções cognitivas são afetadas pela doença
Linguagem: geralmente os pacientes iniciam com dificuldades de lembrar algumas palavras, principalmente aquelas menos utilizadas e mais difíceis, progredindo para aquelas mais fáceis e comuns, como os nomes de instrumentos (pode esquecer o nome de um pente e dizer que serve para usar no cabelo) e em estágios mais avançados, até esquecer nomes de familiares próximos e finalmente não conseguir se comunicar.
Orientação Vísuo-espacial: o paciente pode esquecer uma rota usada constantemente (por exemplo, perder-se no percurso do trabalho para casa) e com o avançar da doença pode não conseguir se orientar dentro da própria casa.
Função executiva: pode apresentar dificuldades para tomar decisões que antes eram acertadas (comprar um carro ou vendê-lo por valores fora da realidade/não conseguir planejar a realização das etapas de uma refeição).
Comportamento: é comum a doença de Alzheimer ser precedida de depressão ou alterações psiquiátricas como ansiedade e irritabilidade, ainda mais que no início da doença o paciente tem ciência do declínio cognitivo e sente-se frustrado com o fato.