Protesto em defesa dos direitos femininosNos últimos tempos, movimentos em defesa dos direitos femininos têm ganhado força no Brasil. Na internet, na televisão ou nas ruas, tudo que elas pedem é que tenham, finalmente, os mesmos direitos que os homens. Cansaram de ter salários mais baixos, menos liberdade sexual e menos voz ativa na sociedade. O tema tem tido bastante repercussão, inclusive, na mídia. Um exemplo está na última edição da revista Época, uma das principais do país, onde o tema foi estampado na capa e em uma reportagem especial de 17 páginas.
Natasha Mosley é uma adolescente de 15 anos. Quando caminha pelas ruas da Zona Sul do Rio de Janeiro, onde mora, atrai olhares, e isso a incomoda. Aluna da Escola Parque, no bairro da Gávea, ela diz sentir medo quando ouve uma cantada. “Uma pessoa que não me conhece não tem o direito de dizer certas coisas para mim. Tenho vontade de reagir, de dizer que não quero ouvir aquilo, mas fico com medo. Se um menino da escola me cantar, posso dizer para ele que aquilo não me agrada porque estamos em igualdade de condições. Mas na rua, de um desconhecido, não posso fazer nada. Isso me oprime”, disse.
Cantada é violência
A violência de uma cantada indesejada parece pequena diante de casos como o da bailarina Ana Carolina de Souza Vieira, de 30 anos, assassinada em São Paulo por um ex-namorado ciumento, Anderson Rodrigues Leitão, de 27 anos.
Ou diante das agressões verbais sofridas pela jornalista Leka Peres no Facebook e via WhatsApp depois de criticar a decoração da lanchonete The Dog Haüs, no Itaim, em São Paulo – um quadro na parede trazia os dizeres: “Guys: no shirts, no service. Girls: no shirts, free drinks” (“Homens: sem camisa, sem serviço. Garotas: sem camisa, bebidas grátis”). Ou ainda diante da aprovação em uma comissão da Câmara dos Deputados do projeto de lei que dificulta, ainda mais, que vítimas de violência sexual possam interromper a gravidez.
Todos esses casos, do mais leve ao mais extremo, têm, no entanto, algo em comum: são inaceitáveis – e as mulheres, de todas as idades e gerações, não estão mais dispostas a contemporizar, e nos últimos dias uma onda de protestos femininos varreu o país, nas ruas e nas redes sociais, numa espécie de Primavera das Mulheres, que, muitas vezes, mesmo sendo as vítimas são vistas como culpadas pelas agressões sofridas.
Situações Constrangedoras
Das 8 mil entrevistadas, 99,6% relataram já ter passado por situações constrangedoras. Assim como Juliana, Natasha e outras mulheres retratadas nesta reportagem, milhares delas estão construindo as bases do que pode ser chamado não de um novo feminismo, mas de uma onda revigorada da luta pelos direitos das mulheres.
“Hoje a feminista está no cotidiano, não é mais aquela com o sutiã na mão, como era vista antigamente”, diz a antropóloga Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília (UnB). O feminismo ficou pop, como diz a historiadora Margareth Rago, da Universidade Estadual de Campinas.
O estopim para a mobilização feminina, que já vinha se desenhando nas escolas, universidades e locais de trabalho, veio no mês passado, quando mensagens com teor sexual a respeito de uma menina de 12 anos ganharam as redes sociais.
O Brasil ficou chocado com a brutalidade das ofensas contra Valentina, a participante do programa de TV MasterChef Júnior. A indignação fez com que milhares de mulheres de todas as idades se sentissem livres para relatar nas redes sociais situações em que se sentiram humilhadas, subjugadas por homens que se achavam no direito de persegui-las, tocá-las, ofendê-las e, em casos mais graves, estuprá-las.
Sob a hashtag primeiroassedio, a campanha trouxe à luz histórias havia anos mantidas em segredo por mulheres que se sentiam envergonhadas, como se tivessem culpa de ataques a caminho do trabalho, na volta da escola, no metrô, numa festa de família.
No coro de Valentinas estão mulheres como a jornalista paulistana, Juliana de Faria, de 30 anos. Há dois anos à frente do grupo Think Olga, espaço virtual para discutir questões femininas, Juliana ajudou a criar condições para que agressões cotidianas sejam finalmente encaradas pela sociedade como inaceitáveis.
É do Think Olga a campanha #primeiroassedio e o movimento Chega de Fiu-Fiu, que começou com uma pesquisa sobre as cantadas que as mulheres ouvem nas ruas.