Juros podem dobrar valor de bem adquirido Embora muitos consumidores comprem veículos com pagamente em várias parcelas, o que faz com que o valor praticamente dobre, são poucos que sabem o valor do juro que está embutido. É o que aponta pesquisa elaborada pelo diretor da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade), Miguel José Ribeiro de Oliveira, em parceria com o portal Vida Econômica.
De acordo com o levantamento, 99,4% dos brasileiros desconhecem o conceito de juros compostos. Para entender o mecanismo, utilizado nas transações financeiras no Brasil, é preciso fazer as contas, a exemplo do financiamento de um veículo. Quem aplica R$ 10 mil em um investimento com rendimento mensal de 1%, teria no mês seguinte R$ 10,1 mil.
No próximo período, os juros serão calculados sobre o montante atual, e não sobre o inicial. Portanto, no segundo mês, teria R$ 10,1 mil mais 1%, ou seja, R$ 10.201, e assim sucessivamente. Se os juros fossem simples, o rendimento seria sempre calculado sobre os R$ 10 mil iniciais.
O exemplo mostra o caso de compras parceladas no longo prazo, os juros compostos elevam o preço final do bem, já que as taxas são sempre calculadas sobre os juros anteriores.
Compras
Outro exemplo simples é a aquisição de um veículo por R$ 55 mil, com entrada de 20% do valor (R$ 11 mil). Os R$ 44 mil restantes, se financiados em 72 parcelas de R$ 1.323,70, com juros compostos mensais de 2,50%, totalizariam R$ 95.306,40, elevando o valor final do carro para R$ 106.306,40.
O raciocínio é o mesmo no que diz respeito a imóveis. Cálculos de Mauro Calil, da Academia do Dinheiro, mostram que um apartamento de R$ 500 mil, com entrada de R$ 165 mil e financiado em 30 anos a juros anuais de 11%, o mutuário pagaria R$ 1,26 milhão ao final do período – ou seja, mais que o dobro do valor inicial.
No entanto, mais do que saber como funciona o cálculo, os especialistas afirmam que o consumidor precisa prestar mais atenção ao preço final do produto, e não só no valor da parcela. Ainda de acordo com a pesquisa, 95% dos participantes verificam apenas se a prestação cabe no bolso.
"A pesquisa não é surpresa para nós. O brasileiro olha muito a prestação na hora de fazer o financiamento, e não a taxa de juros. Se estivesse nos EUA ou na Europa, não teria que se preocupar com isso. Mas no Brasil, com juros elevados, é preciso conhecer a taxa. No fim, você paga dois carros", afirma Ribeiro.
Cuidados com os Juros
Para ele, a crise deve fazer com que os consumidores se atentem mais aos juros. "O aumento do desemprego, a redução do crédito e a elevação da inflação e dos juros passam a exigir do consumidor mais pesquisa de preços e instrumentos que possibilitem planejar e fazer economia", diz.
O momento é bom também para guardar dinheiro e barganhar desconto no pagamento à vista. Para móveis, eletrônicos e carro, vale poupar e adquirir o produto sem parcelar. Já no caso do imóvel, a dica é economizar o máximo possível para dar uma entrada maior e reduzir o valor a ser financiado.
Ribeiro diz ainda que o consumidor deve tomar cuidado com prazos curtos e comparar o número de prestações em lojas diferentes.
O Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) avaliou que as altas taxas de juros bancárias que estão sendo cobradas podem levar a um cenário de super-endividamento. No cheque especial, os juros são os maiores em 20 anos e, no cartão de crédito, superaram a marca dos 410% ao ano, segundo números do Banco Central.
"Um dos principais pontos que o consumidor deve se preocupar na hora de obter crédito é a taxa de juros oferecida pela instituição financeira quando recorrer a empréstimos, financiamentos ou cartão de crédito. Com a grande variedade de produtos financeiros, é comum não saber a taxa utilizada e até mesmo piorar a própria situação financeira devido a um descontrole no planejamento", avaliou o SPC Brasil.
A economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito, Marcela Kawauti, afirma que fazer um planejamento é uma das melhores saídas para evitar o endividamento. "Contrair dívidas não é aconselhável, já que parte da renda fica comprometida por um longo tempo. Porém, muitas vezes é a única saída para a aquisição de um bem importante, para o pagamento de contas essenciais ou para um momento de urgência. Neste caso, conhecer as diferentes taxas de juros ajuda a minimizar o comprometimento da renda", avaliou.
Planejamento
Segundo ela, o cheque especial deve ser usado somente em casos de emergência e com planejamento. "Mas se não houver cuidado, é comum não conseguir sair da bola de neve que uma dívida inicial vai gerando", afirmou a economista. Neste caso, uma dívida de R$ 1 mil hoje, subirá para mais de R$ 3 mil em um ano, e para cerca de R$ 12 mil em dois anos.
No cartão de crédito, uma dívida de R$ 1 mil pendente atualmente, em um ano saltará para quase R$ 5 mil; em dois anos, a dívida subirá para R$ 24 mil, e em três anos será 100 vezes maior do que a dívida inicial: aproximadamente R$ 120 mil.
"No momento de crise econômica que o Brasil está passando, a renda real do brasileiro está caindo, principalmente por conta da alta da inflação e da piora do emprego. Não é o momento de contrair um empréstimo bancário sem saber se, de fato, conseguirá pagar", afirmou ela.