O beijo. A mordida para a foto. O olhar longínquo como se não acreditasse na láurea que acabara de receber. Conquistar uma medalha olímpica é o grande sonho dos atletas na Rio 2016, em agosto. No Brasil, o processo de produção do tesouro mais desejado ficou sob responsabilidade de uma instituição de 322 anos. Fundada em 1694, a Casa da Moeda do Brasil (CMB) precisou se reinventar para atender a uma demanda inédita para o órgão responsável pela confecção de todo o dinheiro que circula no país. A empreitada movimentou mais de 100 funcionários e também trouxe um legado e expertise antes desconhecidas.
+ Galeria de fotos - Veja o passo a passo da produção das medalhas olímpicas e paralímpicas da Rio 2016
Equipamentos foram comprados e outros tantos foram adaptados em um processo inovador. Acostumada a produzir medalhas comemorativas, a Casa da Moeda já havia feito as láureas dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007 e dos Jogos Mundiais Militares 2011. Nada, porém, pode ser comparado ao compromisso de produzir a encomenda do Comitê Rio 2016. Para entregar as 2.488 medalhas olímpicas e 2.642 paralímpicas, a CMB estudou a fundo e se preparou por meses. De compra da matéria prima a entrega, o processo de produção compreende 16 etapas em um processo automatizado, mas feito medalha a medalha, como toda joia rara é tratada.
O GloboEsporte.com visitou a Casa da Moeda e acompanhou de perto todo o processo de produção das medalhas olímpicas e paralímpicas (veja os detalhes no passo a passo abaixo). Do início ao fim, as medalhas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos passam por etapas idênticas, exceto na cunhagem - já que as medalhas da Paralimpíada são feitas através de duas placas -, e na instalação da câmara de ressonância, quando esferas de aço formam guizos que dão pela primeira vez sentidos sensoriais às medalhas.
BRIEFING DO COMITÊ RIO 2016
O design das medalhas olímpicas foi produzido pela equipe artística e de design do Comitê Rio 2016. Os profissionais responsáveis pela criação partiram de referências básicas e obrigatórias recebidas do Comitê Olímpico Internacional. Entre as obrigações está o fato da medalha ser em formato de círculo, com no mínimo 60mm de diâmetro e três centímetros de espessura. As medalhas de ouro e prata precisam ter ao menos 92,5% de prata e a de ouro obrigatoriamente precisa ter pelo menos seis gramas de ouro. A imagem do anverso (frente da medalha) precisa ter a Deusa Nike, que representa a vitória. O Comitê também repassou a Casa da Moeda definição das opções de relevo, altura, profundidade, espessura, peso e brilho. Ao contrário da olímpica, medalhas paralímpicas têm mais liberdade de criação.
MODELAGEM E MOLDE (USINAGEM)
A medalha olímpica da Rio 2016 nasce primeiramente com o processo de modelagem e molde, como numa brincadeira de criança. De posse de todos os dados do Comitê Rio 2016, o gravador da Casa da Moeda, Nelson Neto deu início ao processo de criação. Ele foi o responsável por desenhar a mão a Deusa Nike no anverso da medalha. Usando plastilina, como as massinhas de modelar das crianças, ele esculpiu a deusa e o Pantheon que fica ao fundo da imagem. Nelson confessou um segredo ao GloboEsporte.com: deu seu toque pessoal ao processo. Observando a medalha de Londres 2012, ele percebeu que precisava dar uma sensação de profundidade maior para que as pessoas percebessem a distinção do manto da Deusa Nike e do tecido que ela carrega nas costas. Assim, mesmo usando desenho igual a de todas as Olimpíadas desde 2004, a Deusa Nike da medalha carioca tem um quê brasileiro. Com o molde pronto, a imagem foi digitalizada e no computador recebeu o estádio de Panathinaikos e a inscrição da Olimpíada do Rio 2016. Esse arquivo, então, é enviado para uma espécie de impressora 3D que produziu a matriz em aço. Para esse processo, a Casa da Moeda precisou desenvolver equipamentos junto a fornecedores, inovando o processo. A confecção da matriz paralímpica tem o mesmo processo, mas sem a obrigatoriedade da Deusa Nike.
MATÉRIAS PRIMAS
De posse das solicitações da Rio 2016, a Casa da Moeda foi até o mercado comprar as matérias primas. O ouro utilizado na medalha carioca é sustentável. Ele foi retirado de uma mina que não utiliza mercúrio no processo. A mina fica localizada no Brasil, mas seu dono fez um pedido: não quer ter nenhuma aparição e proibiu a divulgação de seus dados e também da mina. Gerente de sustentabilidade da CMB, Marcos Pereira visitou a mina e garante que tudo foi pesquisado, das legislações trabalhistas a preocupação ambiental. A prata comprada é mais de 50% reciclada e tem 92,5% de pureza. Mais de 40% do cobre da medalha de bronze é reciclado. Foi utilizado material da própria Casa da Moeda que seria descartado após a produção de moedas que circulam normalmente no país. Para as fitas presas às medalhas foram usados em seu material 50% de garrafas PET recicladas também.
FUNDIÇÃO
Com os materiais comprados e separados, entra em ação a fase de metalurgia. A prata, o ouro e o cobre passam pela fundição, dando origem a placas de prata e cobre em um forno que atinge mais de 1.000ºC. A medalha de ouro tem na sua composição mais de 50% de prata com pureza 92,5% e seis gramas de ouro, dando um total de 500g (peso de todas as medalhas olímpicas, as mais pesadas da história). As placas são produzidas e passam por uma processo de resfriamento com água para depois seguirem para a laminação.
LAMINAÇÃO
Com as placas em mãos, os funcionários da Casa da Moeda as levam para a etapa de laminação. Ali, as placas precisam passar de 12 a 13 vezes por um rolo compressor que as deixa na espessura necessária para a próxima etapa, o corte das placas e usinagens seguintes.
CORTE DAS PLACAS E SEGUNDA USINAGEM
As placas em seguida são levadas para a sala de corte. Ali, primeiro são cortadas em formato quadrado chamados de "blanque". Depois, recebem o corte redondo peculiar das medalhas, os chamados discos. Nesse processo, todas ficam uniformes, abauladas (não têm superfície plana e sim relevo diferenciado) e nas medidas e peso definidos para as medalhas olímpicas e paralímpicas. As medalhas, contudo, ainda não têm "vida", ou seja, seguem sem imagens.
CUNHAGEM
É nesse processo que as medalhas ganham "alma" e uma cara olímpica. E aqui é preciso relembrar da segunda etapa, da modelagem, molde e usinagem. Nesse processo, a matriz de aço é levada para uma prensa e os discos ganharão imagens. O processo é automático, feito por uma máquina, mas segue quase que um processo artesanal, já que o cunho, ao contrário das moedas que você têm no bolso, são feitos um a um. O segredo do processo é que os discos precisam ser prensados por três vezes para terem perfeição em seu anverso com a Deusa Nike e no reverso (a parte de trás) com a logo da Rio 2016 e a coroa de louros. A última prensa acompanha um acabamento fosco para dar ressaltar relevos. As medalhas paralímpicas passam por cunhagem igual, mas para a instalação da caixa de ressonância, elas são feitas através de duas placas que depois são unidas por uma prensa. Assim, cada lado recebe a cunhagem e mais tarde elas são unidas.
ACABAMENTO
Após ganharem vida, as medalhas passam por um acabamento. Em uma máquina, os discos perdem os contornos grosseiros, ganhando uniformidade com a retirada das sobras de metal, tornando-se discos perfeitos.
CORTE
Com os discos cunhados e acabados, outros funcionários operam uma máquina que faz o corte onde as fitas serão encaixadas. Na Rio 2016, as medalhas terão fitas embutidas, dando sensação de uniformidade e continuísmo. A cavidade é cortada em máquina que trabalha com fluído biodegradável. O formato do buraco é tipo "andorinha", ou seja, tem o fundo maior e a superfície menor. Aqui também acontece um processo de acabamento e polimento para retirada de contornos grosseiros do corte.
PERSONALIZAÇÃO
Nesse processo as medalhas ganham "nome". Um funcionário da Casa da Moeda recebe os arquivos digitais do Comitê Rio 2016 com os nomes oficiais e de premiação de cada modalidade. Esses arquivos são alinhados em ordem e as medalhas, uma por uma, são colocadas na máquina e recebem as inscrições da modalidade a que servirão de premiação. Neste momento, os funcionários sabem que aquela medalha que acabou de ficar pronta pode ir parar no peito de Usain Bolt nos 100m rasos, por exemplo, ou como na foto, com a medalha do basquete feminino em cadeiras de rodas.
BANHO DE OURO
Sim, as medalhas passam por um banho de ouro. Antes desse processo, as medalhas de prata e ouro têm a mesma cor. A diferença é que as de ouro têm em sua massa seis gramas do metal misturado em prata de 92,5% de pureza. Por isso, nesse processo, um dos últimos, as medalhas de ouro são separadas e passam por um banho para que enfim nasçam as medalhas de ouro da Rio 2016.
VERNIZAGEM
Até aqui, as medalhas de ouro, prata e bronze têm uma superfície brilhosa. A pedido da Rio 2016, todas passaram por um processo de vernizagem em tom fosco. Assim, perdem parte do brilho "exagerado" e também ganham proteção contra oxidação superficial. Depois do verniz, elas são fixadas em um equipamento e passam por um processo de secagem.
FIXAÇÃO DAS FITAS
Já envernizadas, banhadas e secas, as medalhas estão praticamente prontas. O último ajuste é inserção das fitas, feitas com 50% de garrafas PET recicladas. As fitas recebem pinos como de relógios. Esses pinos são inseridos nas fitas e depois encaixados nas cavidades feitas nas medalhas. Elas podem suportar 60kg de pressão sem soltar ou danificar.
CONTROLE DE QUALIDADE
Neste momento as medalhas olímpicas estão prontas. Antes de seguir para a embalagem, porém, passam por um criterioso processo de controle de qualidade. Aqui é observado se existe algum defeito, qualquer contorno fora de parâmetro, amassado, cor ou forma fora de conformidade. Se aprovadas, as medalhas seguem para embalagem. Caso contrário, são reprovadas e descartadas. As medalhas que não servirem voltam para o processo de fundição, ou seja, tornam para o estádio líquido e passarão por resfriamento para virarem placas e darem origem a novas medalhas.
Depois do controle de qualidade, um setor fica responsável por embalar as medalhas minuciosamente e colocá-las no estojo de madeira criado para a Olimpíada Rio 2016. Esse processo acontece ainda na Casa da Moeda e é acompanhado de perto por funcionários da Rio 2016. A entrada da imprensa nessa área é vetada. Dali, as medalhas vão para o cofre da CMB e são entregues para a Rio 2016.
CAIXA DE RESSONÂNCIA E GUIZOS
Para a Paralimpíada, pela primeira vez as medalhas trarão também sentido sensorial para ajudar os deficientes visuais a diferenciarem suas conquistas. Feitas através de duas placas, as medalhas paralímpicas recebem uma caixa de ressonância e esferas de aço que formam guizos. Depois, são unidas através de uma prensa. As medalhas de ouro têm 28 esferas; as de prata contam com 20 e as de bronze com 16, trazendo sons do mais forte ao mais sensível.
Fonte: g1.globo.com