Trabalhar na Olimpíada no "auxílio ao controle de acesso aos Jogos", uma função-chave da segurança, é uma oportunidade que ainda está disponível aos interessados. Para se inscrever, bastar ter ensino médio. O salário é de R$ 26 ao dia, mais um lanche.
A 16 dias da Olimpíada, o processo de seleção de 5.000 operadores de detectores de metal e aparelhos de raio-x ainda está em andamento.
O procedimento para a contratação é sumário: análise de currículo, palestra, leitura de uma apostila e prova virtual. Para especialistas, a seleção é marcada pelo improviso, colocando em risco a segurança dos Jogos.
A revista obrigatória do público está prevista para acontecer na porta dos estádios ou locais de provas. Em concorrência feia em junho, a empresa Artel Recursos Humanos, de Santa Catarina, venceu o pregão para oferecer o serviço por R$ 17,3 milhões.
Para conseguir a mão de obra necessária em menos de um mês, a Artel contratou a empresa Simetria Serviços Empresariais, do Rio, responsável pela seleção.
De acordo com candidatos ouvidos pela Folha, após o envio de um currículo, os selecionados assistem a uma palestra feita por profissionais da própria Simetria.
Feito isso, recebem por e-mail um link que dá acesso a uma apostila elaborada pela Sesge (Secretaria Extraordinária de Grandes Eventos), ligada ao Ministério da Justiça, com instruções sobre o funcionamento do raio-x e como inspecionar as pessoas.
Em seguida, respondem a um questionário de 20 perguntas. Quem acerta 70% delas é aprovado. A aprovação gera um certificado da Academia Nacional de Polícia, instituição que forma os policiais federais. O documento traz os brasões da PF, do governo federal e da Academia Nacional de Polícia, além das assinaturas digitalizadas do secretário da Sesge, Andrei Rodrigues, e do diretor da academia, José Rita Martins Lara.
Nele, consta que o candidato realizou o curso de "Controle de Acesso às Instalações - MAG & BAG" de março a setembro de 2016, mas candidatos disseram à Folha que conseguiram o certificado em apenas uma tarde -bastou a leitura das apostilas e responder ao questionário.
Com o certificado, os aprovados vão à quadra da escola de samba Portela, em um posto montado pela Simetria, para entrega de documentos.
"Os gestores deixam o evento vulnerável com essa escolha no improviso", opinou o antropólogo Paulo Storani, especialista em segurança de grandes eventos.
"Isso não pode ser levado a sério. Não é em uma entrevista que você verifica se alguém está capacitado para exercer essa função", afirmou o delegado federal aposentado Ângelo Gioia, que já atuou na fiscalização de empresas de segurança na PF.
OUTRO LADO
A Sesge, ligada ao Ministério da Justiça, diz que a Força Nacional de Segurança vai supervisionar os funcionários privados que controlarão o acesso às instalações olímpicas. Policiais farão revistas pessoais, quando necessário, e checagem de credenciais e demais exigências de acesso.
Profissionais do Depen (Departamento Penitenciário Nacional) irão monitorar os equipamentos utilizados.
Segundo a Sesge, a Artel é especializada "na operação de equipamentos de inspeção eletrônica de pessoas, bagagens e cargas". Sobre o processo de seleção de pessoal, o órgão federal limitou-se a dizer que avaliou os antecedentes de 30 mil candidatos.
A Simetria informou que o curso on-line é de responsabilidade da Sesge e que não tem qualquer gerência ou conhecimento de conteúdo.
O representante da Artel, Deivison Scheffer Jacinto, não foi localizado pela Folha para comentar o caso.
Fonte: www1.folha.uol.com.br