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Pulverização é realizada para exterminar mosquitos Aedes aegypti
28/08/2016

BRASIL ENFRENTA EPIDEMIA DA FEBRE CHIKUNGUNYA


No Sudeste do país, a incidência disparou, passando de 0,2 casos por 100 mil, em 2015, para 11,5 neste ano

Com uma epidemia da febre chikungunya em curso, o Brasil já concentra 88% dos casos confirmados da doença nas Américas, de acordo com a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde). Em Ituverava, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, foram registradas 10 notificações da doença em 2016, porém nenhum caso positivo.

Transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a chikungunya não tem cura, somente medicação para alívio da febre e das dores intensas e muitas vezes incapacitantes, principalmente nas articulações de pés e mãos.

A preocupação dos especialistas é que a situação piore no verão e sobrecarregue ainda mais os serviços de saúde. Pelo menos 20% dos casos deixam seqüelas crônicas, como artrites e artroses.

No primeiro semestre do ano, o número de casos notificados no país foi quase dez vezes superior ao de igual período de 2015: 170 mil, contra 17 mil. Já são 38 mortes, contra seis no ano passado todo.

A região Nordeste apresenta a maior taxa de incidência da febre chikungunya: 267,8 casos por 100 mil habitantes – contra 27,9 em 2015. No Sudeste, a incidência também disparou, passando de 0,2 casos por 100 mil para 11,5.

Bola da vez
“O chikungunya é a bola da vez. O país já vive uma epidemia, sem dúvida, e não é pequena”, diz o infectologista Marcos Boulos, coordenador de controle de doenças da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo.

Os dados mostram que o vírus se espalhou pelo país, já que 2.154 dos 5.570 municípios brasileiros têm notificações. No ano passado, eram 696.

O Ministério da Saúde diz que o aumento de casos era previsto por se tratar de doença recente, identificada no Brasil em 2014. Afirma que o SUS disponibiliza acesso integral aos tratamentos para os pacientes com chikungunya.

São Paulo
Os registros paulistas acompanham o aumento no resto do Brasil. Até o início de agosto, foram notificados 4.987 casos pela secretaria do Estado, 834 já confirmados. Em todo 2015, foram 1.505 notificações, com 189 confirmadas.

"Na maioria dos casos, os sintomas desaparecem em até seis meses, mas parte dos pacientes pode ficar com seqüelas definitivas", diz Boulos.

Isso significa que, além de acesso a especialistas, como reumatologistas, e a remédios de alto custo, essas pessoas vão precisar de reabilitação, como sessões de fisioterapia, outro grande gargalo no SUS. A espera por uma consulta com um reumatologista no SUS pode levar até dois anos.

Lidar com complicações
“O país precisa se preparar rapidamente para lidar com as complicações em longo prazo. São artrites incapacitantes, que interferem no dia-a-dia, na vida profissional das pessoas”, diz o infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses.

Segundo o reumatologista Morton Sheinberg, a infecção pode não só causar quadro novo de artrite como reativar inflamações sob controle.

Para Artur Timerman, a explosão de chikungunya mostra que o vetor, o Aedes aegypti, está mais presente do que nunca no país. “Estamos enxugando gelo. A estratégia de combate domiciliar é inócua, e o mosquito está resistente aos inseticidas”, destaca.

Doença pode ser transmitida das mães para bebês
Ao menos três Estados do país (Bahia, Paraíba e Pernambuco) já registraram casos de transmissão da febre chikungunya da gestante para o bebê.

Em Campina Grande (PB), há um caso confirmado e outros cinco sendo investigados, segundo a obstetra Adriana Melo, médica também responsável pela identificação do vírus da zika no líquido amniótico de dois fetos com microcefalia em 2015.

Estudos feitos na ilha Reunião, localizada no meio do Oceano Índico e que enfrentou epidemia de chikungunya em 2010 e 2014, mostram que as crianças infectadas pelo vírus têm mais chances de apresentar déficit neurocognitivo no futuro.

Em um desses estudos, publicado na revista científica "PLoS Neglected Tropical Diseases", pesquisadores seguiram durante dois anos 33 crianças infectadas pelo vírus no parto e as com- pararam com 135 crianças que não tiveram o contágio.

Atraso desenvolvimento
Mesmo isolando variáveis, como idade gestacional ao nascer e ter sido ou não amamentadas no peito, após dois anos de seguimento, as crianças que tiveram chikungunya apresentaram três vezes mais chance de atraso no desenvolvimento neurocognitivos, como dificuldade de coordenação e linguagem.

O maior impacto do vírus parece ser no final da gravidez. O bebê nasce bem, mas depois de três, quatro dias, pode ter exantema [manchas vermelhas], choro forte, apresentar hemorragias e comprometimento neurológico.