Avenida de Guará foi palco dos conflitos entre macaúbas e pés descalços (Foto: Cláudio Oliveira/EPTV)Quem visita Guará (SP) e se depara com a vida pacata no município de 20 mil habitantes, não imagina que uma disputa entre dois grupos políticos rivais já dividiu a população e motivou conflitos violentos na praça central.
A rixa entre “macaúbas” e “pés rachados” teve início há 66 anos e ainda se perpetua, ao menos na memória dos moradores mais antigos. É o caso do comerciante Sahid Elias Antônio, de 85 anos, que chegou a escrever um livro sobre as memórias.
Seu Milim, como é mais conhecido, conta que tudo começou em um comício durante as eleições gerais de 1950. O irmão dele, que era advogado, subiu ao palanque e comparou os correligionários à macaúba, palmeira brasileira cuja madeira é usada em construções rurais.
No mesmo discurso, segundo relembra Seu Milim, o grupo opositor foi chamado pejorativamente pelo irmão de “pés rachados”, uma referência aos trabalhadores rurais menos favorecidos economicamente, que andavam descalços pela cidade.
“Criou uma rivalidade tão grande que se você era pé rachado e eu, macaúba, você não entrava na minha loja para comprar alguma coisa. Se cruzava na rua, não cumprimentava. Os macaúbas faziam barba no barbeiro que era macaúba, e os outros, no pé rachado”, diz.
Memórias
Mas, como toda história tem muitas versões, há quem diga que a rivalidade teve início de outra forma. O aposentado Guilherme de Paula Santos reivindica para sua família a origem das denominações políticas que se eternizaram em Guará.
“Pé rachado era a turma que começou, descalça, e os macaúbas vieram da Bahia, depois. Tinha um bisavô meu, da cidade de Macaúba, e o sobrinho dele foi candidato. Foi um `pega´ bom. Os macaúbas sempre vencendo algumas eleições, e os pés rachados outras”, diz.
Santos relembra que as ruas na cidade eram de terra e os comerciantes se organizaram para contratar um caminhão-pipa, para amenizar a poeira. Entretanto, no meio do quarteirão, o serviço acabou sendo suspenso porque havia uma farmácia, cujo dono era do partido rival.
“Tinha briga mesmo, briga séria. Depois de uma eleição que os macaúbas ganharam, Guará foi destruída. O exército veio para dentro da cidade. Os partidos não se misturavam, era como água e óleo”, conta o aposentado.
Atualmente, não existe mais tanto conflito entre os grupos. Mesmo porque, os “macaúbas” e os “pés descalços” já não têm mais tanta força política. A rivalidade se tornou história e é dessa forma que continua sendo passada de pai para filho.
“Eu já fui dos dois lados. Hoje, não vou votar em ninguém. Eu tenho 85 anos e não estou com vontade de votar. Não quero saber disso, não existe mais honestidade na política”, desabafa Seu Milim.
Fonte: g1.globo.com