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Passeata
18/10/2016

EDIÇÃO - 3101 CADA PESSOA PODE SALVAR ATÉ 25 VIDAS COM A DOAÇÃO DE ÓRGÃOS


Brasil avançou muito nas técnicas cirúrgicas dos transplantes, sendo referência internacional nos procedimentos

Os transplantes de órgãos estão entre os procedimentos mais complexos da medicina e muitas vezes significam a única chance de sobrevivência para quem precisa. Um único doador pode salvar ou melhorar a vida de mais de 25 pessoas, se todos os órgãos e tecidos forem aproveitados corretamente.

O primeiro transplante bem sucedido de um órgão humano foi realizado em 1954, em Boston, nos Estados Unidos. Dez anos depois, em 1964, era o Brasil que fazia o primeiro transplante. Desde então, o país avançou muito nas técnicas cirúrgicas dos transplantes, sendo referência internacional para muitos países.

Além das novas técnicas, que permitiram o transplante de vários órgãos e tecidos, a medicina hoje dispõe de vários medicamentos que evitam a rejeição e aumentam a sobrevida do órgão transplantado.

Atualmente, vários órgãos e tecidos podem ser transplantados como rins, coração, pulmão, fígado, pâncreas, córneas, válvulas cardíacas, ossos, pele, tendões e medula óssea. Alguns transplantes podem ser realizados entre pessoas vivas como o de rins, fígado e medula óssea.

O Brasil tem o maior programa público de transplantes de órgãos do mundo, que paga 92% das cirurgias realizadas. Em número de transplantes feitos por ano, o país só perde para os Estados Unidos. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), no primeiro trimestre de 2012 foram realizados 1.839 transplantes de órgãos, 9.303 de tecidos e 420 de medula óssea.

Fila de transplante
Apesar do sucesso do programa brasileiro, mais de 70 mil pessoas aguardam na fila do transplante. Muitas acabam morrendo pela demora.

Dois motivos explicam essa situação: a falta de conscientização sobre a importância de doar órgãos e os aspectos técnicos da captação. Segundo o Sistema Nacional de Transplantes 70% dos órgãos que deveriam ser aproveitados são desperdiçados”.

A recusa familiar é grande: 25% das famílias dizem não. Problemas com transporte, infra-estrutura e manipulação correta dos órgãos respondem a 17% desse desperdício. Outro dado alarmante é que apenas metade das mortes encefálicas é comunicada pelos hospitais à Central Nacional de Captação de Órgãos (CNCDO).

Para se ter uma idéia das dificuldades logísticas, apenas os estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Pernambuco possuem aeronaves dedicadas ao transporte de órgãos. Os demais estados contam com as companhias áreas privadas, que realizam o transporte gratuitamente, em vôos comerciais. Alguns órgãos sobrevivem pouco tempo fora do corpo e isso explica também o alto índice de desperdício.

Administrador aposentado fala sobre transplantes recebidos
O administrador aposentado, Marcos Antônio Sampaio (“Grylo”), passou por dois transplantes, devido a problemas no fígado. Em entrevista concedida à Tribuna de Ituverava, ele narra sua história. “Por ser portador de hepatite C, eu perdi, no ano de 2000, as funções hepáticas. Entrei na fila para receber um transplante, o que só consegui em 2002, quando recebi o fígado de um motoqueiro de 24 anos, de Cuiabá, que havia morrido em um acidente”,lembra.

“Fiz um tratamento durante três anos, para negativar o vírus da hepatite C, no entanto, não consegui. Desta maneira meu fígado foi danificado e necessitei de outro transplante”, ressalta.

Em 2008, Gryllo recebeu um novo fígado de uma criança que havia morrido aos 6 anos, em São José do Rio Preto. “Desta vez, quem fez o procedimento foi a equipe do Dr. Silvano Raia, responsável pelos primeiros transplantes intervivos do mundo, que são aqueles em que o doador faz o transplante ainda com vida”, destaca.

“Neste caso, a pessoa doa 60% do fígado e fica com 40%. As células dos 40% se regeneram e em pouco tempo o doador volta a ter uma vida normal. Lembro, no entanto, que as duas vezes em que recebi o fígado de pessoas que haviam falecido”, diz.

Dois anos após do segundo transplante, ele conseguiu negativar o vírus. “Transplante de órgãos dão a oportunidade de uma nova vida para quem os recebe. Percebo que, embora ainda existam alguns desafios no que se refere à captação de órgãos, o Brasil é um dos países com a medicina mais evoluída nesta área”, completa Marcos Antônio Sampaio (“Grylo”), que hoje tem uma vida normal.

Para ser doador
É fundamental comunicar à sua família o desejo de ser doador de órgão após a morte

Potencial doador cadáver é todo paciente em morte encefálica, comprovada por diagnóstico clínico e neurológico. São realizados exames neurológicos que demonstram ausência dos reflexos do tronco cerebral.

A morte do cérebro inclui o tronco cerebral que desempenha funções vitais como o controle da respiração. Embora o coração ainda continue batendo.

Após o diagnóstico de morte encefálica, a família deve ser consultada e orientada sobre o processo de doação de órgãos.

Se o coração parar, só poderão ser doadas as córneas.

Quem não pode doar
Pacientes portadores de insuficiência orgânica que comprometa o funcionamento dos órgãos e tecidos doados, como insuficiência renal, hepática, cardíaca, pulmonar, pancreática e medular

Quem tem doenças contagiosas transmissíveis por transplante, como soropositivos para HIV, doença de Chagas, hepatite B e C

Pacientes com infecção generalizada ou insuficiência de múltiplos órgãos e sistemas.

Entenda o transplante
Órgãos e tecidos que podem ser doados em vida

O que pode ser doado apenas em caso de óbito

Córneas
Retiradas do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidas fora do corpo por até sete dias

Pulmão
Tem de ser retirado do doador antes do coração parar de bater e pode esperar por, no máximo, seis horas

(apenas parte e em situações excepcionais)

Coração
Pode esperar por, no máximo, quatro horas

Fígado
A retirado também é antes da parada cardíaca e mantido fora do corpo por, no máximo, 24 horas

Rins
Podem ser retirados do doador até 30 minutos após a parada cardíaca e esperar fora do corpo até 48 horas

Pâncreas
Após a retirada do corpo pode esperar, no máximo, 24 horas

Medula óssea
(se compatível, feita por meio de aspiração óssea ou coleta de sangue)

Ossos
retirados do doador até seis horas depois da parada cardíaca e mantidos fora do corpo por até cinco anos)

Quem tem indicação de transplante
Portadores de miocardiopatias (doença que compromete o músculo do coração). Nesse universo estão o infarto, angina do peito Doença de Chagas

Transplante cardíaco

Cadastrado
O paciente candidato a transplante é cadastrado na Central de Transplante de Órgãos e Tecidos após a realização de todos os exames, inclusive com o quadro clínico detalhado.

Compatibilidade
Quando surge o coração, o órgão vai para o paciente mais grave em lista prioritária ou aquele que está há mais tempo na lista de espera e que apresente compatibilidade sanguínea com o doador.

Tempo
O tempo entre a captação do coração e o implante no receptor não pode ultrapassar quatro horas. O processo é simultâneo. Enquanto uma equipe faz a retirada do órgão, a outra já está com o paciente preparado para receber o novo órgão.

Implante
É retirado o coração doente e, no lugar, implantado o novo coração. O paciente fica em torno de sete dias na UTI. Depois de receber alta, o acompanhamento é permanente.

Confira as respostas: