ARTIGOS - DIREITO

Gustavo Russignoli Bugalho
23/01/2017

ARTIGO - DIREITO


Comunicação Política e as Raposas

Início de mandato, após uma eleição bastante tensa e conturbada, finalmente conseguiu conquistar o almejado posto junto ao Poder Legislativo ou Executivo.

Agora é sentar, trabalhar com vontade e ser honesto. Afinal, se a população gostar, vai naturalmente te reconduzir ao cargo. Garantia de sucesso no mandato, correto?Não é bem assim.

A primeira pergunta que costumo fazer para o cliente que vem buscar serviços de consultoria política e marketing governamental e político, é:
- Você quer ser uma pata ou uma galinha?
Essa pergunta passou a martelar minha cabeça há alguns anos, quando ainda me dedicava exclusivamente à advocacia voltada ao Direito Público, quando ainda era sócio de um grande e respeitado escritório de advocacia. Na ocasião, o proprietário do escritório, o querido ex-chefe e ex-sócio Dr. Brasil Salomão, ao ver que eu havia conseguido reverter uma situação bastante complexa e havia ficado em silêncio a respeito, me perguntou, no alto de seus mais de cinquenta anos de brilhante carreira: Dr. Bugalho, o senhor é uma galinha ou uma pata?
Vendo meu olhar confuso, explicou: - Dr. Bugalho, a pata, quando bota um ovo, o faz em silêncio, e, assim, ninguém no galinheiro fica sabendo daquele momento único. A galinha, quando bota o ovo, faz um estardalhaço e, assim, todo galinheiro fica sabendo que a galinha está a originar uma futura vida. É importante que divulguemos nossa imagem e nossas atuações positivas, para que os clientes e colegas saibam do nosso valor.

Depois de recompostos do susto, os clientes percebem a importância de se divulgarem e, sem qualquer planejamento, apenas com essa pergunta em mente e um pouco de “experiência de vida”, passam a compartilhar todas suas posições sobre assuntos polêmicos ou sociais e todos os seus passos e caminhos. Não raro, passam a compartilhar sua vida pessoal pelas redes sociais, a ponto de, em um belo domingo pela manhã, sermos surpreendidos digitalmente por um: “- Bom dia, hoje pela manhã, fui jogar milho aos pombos no parque, quando me deparei com um de pelagem branca. Me senti em paz.”

Às vezes, até mais grave, passam a expor opinião pessoal sobre aquilo que não está sequer ligado à sua atribuição ou área de conhecimento, por mais polêmica ou minoritária que possa ser. Muitas vezes com impropriedades jurídicas ou legislativas graves.

Certa oportunidade, ao questionar um determinado vereador que viera me procurar porque sentia que já não conseguia manter seus eleitores em confluência de ideias consigo, este me respondeu: “- Ah, o senhor sabe, eu entro em todas as redes sociais e causo polêmica mesmo, afinal, não há publicidade ruim!”

Será que não há publicidade ruim? Será que marketing político é feito mediante declarações não estudadas, polêmicas, sob o pretexto de, tão somente, aparecer?Esta é, talvez, a mais cruel das inverdades do mundo político.

O gestor público fadado a ter longa vida em representar a população, conta com uma equipe especializada, consultores capacitados e, principalmente, planejamento estratégico de comunicação e gerenciamento de crises perante a sociedade e imprensa.

O tempo que se leva para reconstruir uma imagem arranhada por uma publicidade ruim ou por um marketing mal feito é trovão, ao passo que a destruição de uma imagem construída por anos, é raio.
As redes sociais estão aí e pouco se exige para a criação dos perfis na internet. Essa ferramenta, não raro, tem sido utilizada por indivíduos mal intencionados para dar interpretação falseada e prejudicar pessoas tidas como públicas. Nem é necessário, aliás, se chegar a isso: uma manifestação digital mal colocada pelo próprio gestor público, em segundos, pode tomar dimensão de milhares de visualizações e ser pulverizada por toda uma localidade.

Gestores e políticos que se recuperam de ranhuras à sua imagem o fazem à custa de uma excelente equipe de gerenciamento de crises e muito sacrifício pessoal e político. Até mesmo aqueles políticos que crescem através da publicidade polêmica e questionável, o fazem mediante um planejamento minucioso e estudado realizado por uma equipe, com cada risco e cada manifestação calculadamente expostos.

Desta maneira, depois de alguns anos lidando com campanhas eleitorais e gestão pública, a conclusão que posso notar quanto à relevância de uma comunicação governamental e política planejada é: “Seja uma galinha, mas se cuide em relação às raposas.”

(Gustavo Russignoli Bugalho. Consultor Político e em Relações Governamentais. Advogado. Especialista em Direito Constitucional pelo IICS-SP. Pós Graduado em Gestão Executiva de Marketing. Tem Formação Executiva em Relações Governamentais pelo Insper. Atua há 15 anos com Administração Pública Municipal. Professor de cursos de pós-graduação em Direito Público e Municipal. Professor de Comunicação e Oratória em cursos de Pós Graduação da Escola Superior de Direito. É colaborador e fonte em diversos jornais televisivos e imprensa no interior de São Paulo. Foi o responsável pela preparação da oratória e apresentação da Miss São Paulo 2014 que ficou em 2º lugar no Miss Brasil 2014. Já preparou diversos candidatos a mandatos políticos, empresários e advogados, no que tange abranding pessoal, técnicas de apresentação e comunicação. Autor de diversos livros em Direito Público. Diretor Geral da Sapienza Soluções Estratégicas e Desenvolvimento, empresa do seguimento de Consultoria Política e Relações Governamentais, em Ribeirão Preto-SP)