AGRICULTURA

01/02/2017

EDIÇÃO - 3215 - ENQUETE MORTE DE TEORI ZAVASCKI LEVANTA SUSPEITAS NA POPULAÇÃO


Boa parte dos brasileiros acredita que não foi um acidente, mas homicídio do relator da Lava Jato no Supremo

A morte do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki se soma a um rol de episódios em que autoridades brasileiras morreram em circunstâncias não esclarecidas ou duvidosas. Zavascki morreu, junto com outras quatro pessoas, na última semana, no dia 19 de janeiro, após a aeronave em que estava cair no mar de Paraty (RJ). As causas do acidente estão sendo investigadas.

O ministro era relator da Operação Lava Jato no Supremo. Sua morte pode atrasar o andamento da investigação e pode até mesmo alterar o curso da operação, o que pode agradar muitos poderoso. Para os próximos dias era aguardada a homologação, por Zavascki, de diversas delações bombásticas da construtora Odebrecht.

A posição importante em que Zavascki estava tem alimentado a imaginação dos brasileiros e não faltam o que aparentam ser teorias da conspiração para tentar explicar a morte do ministro. Não é para menos, não dá para esquecer da morte do então prefeito o prefeito de Santo André Celso Daniel (2002), até não foi esclarecida e que paira uma enorme suspeita de crime político.

Outras mortes misteriosas
Também foi assim com as mortes do ex-presidente Juscelino Kubitschek (1961), de Ulysses Guimarães (1992), de do ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência Eduardo Campos (2014). O corpo de Dr. Ulysses, que sofreu um acidente de avião no mesmo local onde caiu o bimotor que levava Zavascki, nunca foi encontrado.

O delegado federal Marcio Adriano Anselmo, uma das principais figuras na força-tarefa da Lava Jato, pediu uma investigação a fundo do acidente, ocorrido na véspera da homologação da colaboração premiada da Odebrecht.

Esse acidente deve ser investigado a fundo, escreveu em sua página no Facebook, destacando a palavra acidente entre aspas, conforme noticiou o jornal Folha de S.Paulo. Depois, o delegado disse à reportagem que o post foi um desabafo pessoal.

Teorias
As teorias que envolvem a morte do ministro ganham força com fatos recentes vividos por ele e sua família. Em março de 2016, antes do impeachment de Dilma Rousseff, Zavascki foi hostilizado por manifestantes anti-PT depois de contestar uma decisão do juiz federal Sergio Moro.

Na ocasião, o ministro decidiu que a investigação de escutas telefônicas que envolviam Dilma e o ex-presidente Lula deveria ser enviada ao Supremo. Na noite de 22 de março, um grupo foi à casa de Zavascki, em Porto Alegre, e pendurou na fachada do prédio uma faixa de Teori traidor.

Em maio, Francisco Prehn Zavascki, filho do ministro, escreveu no Facebook que sua família estava sofrendo ameaças.

É obvio que há movimentos dos mais variados tipos para frear a Lava Jato. Penso que é até infantil imaginar que não há, isto é, que criminosos do pior tipo (conforme o MPF afirma) simplesmente resolveram se submeter à lei! Acredito que a lei e as instituições vão vencer. Porém, alerto: se algo acontecer com alguém da minha família, vocês já sabem onde procurar...! Fica o recado!.

No dia 20, contudo, o filho do ministro disse torcer para que seja um acidente. Eu, sinceramente, torço para que tenha sido um acidente. Acho que seria muito ruim para o país saber que meu pai foi assassinado, disse Francisco Zavascki à imprensa.

No mês seguinte ao post do filho no Facebook, o ministro confirmou a ameaça durante um evento no Rio de Janeiro, mas minimizou seu conteúdo. Não tenho recebido nada sério.

Reservado
O perfil reservado do ministro, avesso a holofotes, foi tema de conversa entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.


Nessa conversa, frequentemente lembrada em discussões conspiratórias nas redes sociais, gravada em março e divulgada em maio de 2016, Jucá sugere que apenas uma mudança no governo federal – que, segundo ele, seria resultado de pacto nacional, com o Supremo, com tudo – poderia estancar essa sangria provocada pela Operação Lava Jato.

Em outro momento da conversa, Sérgio Machado afirma que o ideal seria buscar um elo com Zavascki. Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori, mas parece que não tem ninguém, diz, ao que Jucá responde: Não tem. É um cara fechado, foi ela (Dilma) que botou. Um cara... burocrata. Da... ex-ministro do STJ.

Há quem defenda que acusações são teoria da cospiração
No que pesem as teorias da conspiração em curso, é importante lembrar que pelo menos outros dois aviões bimotor já caíram na mesma região – conhecida como Costa Verde – em que se acidentou a aeronave que levava o ministro: o primeiro em 2013, que deixou três mortos; e o segundo em 2016, com duas vítimas.

O acidente aconteceu próximo à Ilha Rasa, a dois quilômetros da cabeceira da pista do aeroporto, no litoral de Paraty. O avião modelo Beechcraft C90GT decolou do aeroporto Campo de Marte, em São Paulo, e caiu no mar por volta das 13h30, momento em que chovia em Paraty.

O aeroporto da cidade não está equipado para pousos por meio de instrumentos, o que pode dificultar aterrissagens de aeronaves em momentos de baixa visibilidade. Também não há torre de controle ou estação meteorológica no local.

O avião, cuja capacidade é de oito passageiros, era de propriedade do hotel Emiliano, um luxuoso empreendimento com sedes em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Contraditório
De acordo com informações da Folha de S.Paulo, as horas após a queda da aeronave foram movimentadas no hangar do Campo de Marte onde o bimotor era guardado. Por volta das 19h, um funcionário chegou ao local dizendo ser o responsável pelas câmeras de segurança e recolheu computadores do hangar. Minutos depois, membros da Aeronáutica e da Polícia Federal também estiveram no local em busca das imagens do circuito interno.

O Ministério Público Federal de Angra dos Reis (RJ) abriu inquérito para apurar as causas do acidente. A Polícia Federal também vai investigar o caso.

Aeronáutica afirma que piloto teve desorientação espacial
Análise preliminar do áudio da cabine do avião que caiu com o ministro Teori Zavascki (Supremo Tribunal Federal) indica que houve uma desorientação espacial do piloto, segundo técnicos da Aeronáutica que investigam o caso.


A conclusão final dependerá ainda de uma perícia técnica do avião, um King Air C90, sobretudo em seus dois motores. Mas, diante dos indícios coletados até o momento, a desorientação do piloto Osmar Rodrigues é a única hipótese em discussão para explicar a causa do acidente na última quinta (19), de acordo com a apuração conduzida pelo Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos).

A desorientação ocorre, por exemplo, quando o piloto perde a noção do espaço do avião em relação ao solo. Um relatório preliminar deve ficar pronto nos próximos dias.

As investigações apontam que a aeronave voava com um teto de 150 a 200 pés (45 a 60 metros de altitude) pouco antes da queda, ou seja, estava muito próxima do mar em Paraty (RJ). Nas palavras de um técnico do Cenipa, o piloto ciscava em busca de uma brecha que facilitasse o pouso no aeródromo da cidade.


Sem a ajuda de um copiloto e focado em buscar um caminho para aterrissar, o piloto teria perdido a noção de que estava tão perto da água. Sem essa referência visual, ao fazer uma curva, tocou com a asa da aeronave na água, capotando em seguida - além do ministro Teori Zavascki e do piloto, mais três pessoas que estavam a bordo morreram.

Na gravação da cabine, o piloto menciona a chuva na região e não relata problemas na aeronave. Segundo técnicos que ouviram o áudio, o piloto Osmar Rodrigues chega a conversar com outros dois pilotos que sobrevoavam o local naquele momento - um deles o reconhece, chamando-o inclusive pelo apelido de Mazinho.

Antes de cair nas águas de Paraty, o avião fez uma tentativa frustrada de pouso, segundo as investigações. Num trecho da gravação, Rodrigues diz a expressão setor Eco, que significaria uma curva para o lado leste. Depois, utiliza a palavra final, quando estaria então se preparando para pousar.

Um barulho forte é ouvido, de acordo com os investigadores, pouco antes de a gravação ser interrompida, uma espécie de ruptura. Acredita-se que, neste momento, o avião tenha se chocado com o mar.


Não há registros de alertas de emergência, pânico, ou algo parecido. De acordo com os técnicos do Cenipa, o áudio captou apenas o que foi dito na cabine - os ruídos de vozes dos passageiros são perceptíveis em alguns momentos, mas inaudíveis tecnicamente.

Durante os 30 minutos de gravação da cabine, é possível identificar, relatam os investigadores, diálogos do piloto com a torre do Campo de Marte, com o controle aéreo de São Paulo, além da conversa com pilotos que sobrevoavam Paraty. Como não há torre de controle na cidade, os pilotos fazem pousos e decolagens de maneira visual e conversam entre eles para orientação e coordenação.

Sem anormalidade
Em nota divulgada, a Aeronáutica informou que em uma análise preliminar os dados extraídos do gravador de voz do avião não apontam qualquer anormalidade nos sistemas da aeronave.

A Aeronáutica informou, em texto distribuído à imprensa, que o arquivo de áudio inclui não só informações de voz, mas outros sons que serão importantes para a investigação.

Nós analisamos sons diferentes, em que possamos identificar, hipoteticamente falando, o ruído de um trem de pouso sendo baixado, a aplicação de algum grau de flap ou outro equipamento aerodinâmico da aeronave, afirmou, segundo o texto divulgado pela Aeronáutica, o coronel Marcelo Moreno, da divisão de operações do Cenipa.

Justiça sem medo
Em março de 2015, Teori autorizou a investigação de 47 políticos. Também foi Teori quem determinou a prisão do então senador Delcidio do Amaral, do PT, e depois homologou sua delação premiada.

Em maio de 2016, ele mandou suspender o mandato de Eduardo Cunha, do PMDB, então presidente da Câmara.

Três meses depois, Teori autorizou investigar se a então presidente afastada Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula e dois ex-ministros petistas haviam tentado obstruir a Lava Jato.

Determinação, empenho, coragem são qualidades citadas por juristas e políticos, especialistas e leigos, do que se espera do futuro ministro relator do processo que investiga um dos maiores esquemas de corrupção do planeta.

Cármen Lúcia autoriza equipe de Teori a retomar as delações
A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, autorizou o prosseguimento dos trabalhos dos juízes auxiliares na homologação das delações da Odebrecht na Operação Lava-Jato. Eles atuam no gabinete do ministro Teori Zavascki.

Com a morte de Teori, os trabalhos da equipe por delegação do ministro haviam sido paralisados. Cármen Lúcia deu autorização para que a força-tarefa retome as análises das propostas de delação. A homologação dos acordos estava prevista para fevereiro. No total, 77 executivos da Odebrecht apresentaram relatos formais a serem analisados A decisão de Cármen Lúcia foi motivada pela urgência do caso e a existência de uma agenda prévia, com audiências já marcadas. Na intenção de que não haja atraso maior, a presidente da Corte decidiu liberar o prosseguimento dos trabalhos, enquanto analisa quem deve assumir a relatoria da operação de combate à corrupção.

A ministra se reuniu segunda-feira, dia 23, com ministros da Corte para discutir o tema. O presidente Michel Temer só fará a indicação do substituto de Teori no STF após um novo relator ser definido. A ministra também discute com a Procuradoria-Geral da República como será feita a escolha.

Confira as respostas: