POLϿ�TICA

01/03/2017

NOVE CANDIDATOS POSSÍVEIS À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA EM TEMPOS DE LAVA JATO




Geraldo Alckmin ou outro político tradicional. Marina Silva, ladeada ou não por Joaquim Barbosa. Lula ou Ciro Gomes. João Doria ou alguma surpresa ainda incógnita, à espera do momento certo para ser revelada, à moda dos profetas ocultos das religiões orientais. Neste fevereiro de 2017, estas são as apostas para a sucessão do presidente Michel Temer (PMDB) entre líderes partidários, analistas políticos e de mercado.







É um exercício que deságua no paradoxo socrático do “Só sei que nada sei”, devido ao imponderável representado na Operação Lava Jato. Os consultados, em sua maioria, não quiseram se identificar, para falar livremente. Dois deles resumiram publicamente a divisão nas especulações para 2018, descontando um cenário em que a crise política se agrava, derruba Temer e leva a um pleito indireto.







“Acho que a surpresa virá. E há espaço aberto para aventuras, pois o eleitorado vai pedir alguém de fora do sistema político”, diz o economista e filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca, que assessorou Marina em 2014, mas que aqui opina por si próprio. À frente do Centro de Liderança Pública, o cientista político Luiz Felipe D’Avila afirma que “o próximo presidente sairá da estrutura partidária tradicional”.





Candidatura de Lula é a dúvida no campo da centro-esquerda





Apesar dos anos de desgaste, o cenário atual entre observadores prevê alguém da centro-esquerda com chances de ir ao segundo turno em 2018. Os olhos convergem para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, único nome do PT com densidade eleitoral, exceto que o partido aposte em algum derrotado de 2016, como o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad.





A questão é menos se Lula será impedido de concorrer por uma condenação em duas instâncias na Lava Jato, uma possibilidade, e mais se ele irá encarar uma campanha na qual teria de enfrentar um rosário de questionamentos, do desastre econômico à Lava Jato.





Segundo a análise corrente, um candidato como Ciro Gomes (PDT) poderia emergir com a bênção lulista. Dado o histórico de desavenças entre ambos, tal aliança é incerta, e Ciro em si tem a fama de morrer pela boca – muito antes de haver redes sociais, ele perdeu o passo na campanha de 2002 ao chamar um eleitor de “burro” ao vivo no rádio.





“Ele se autosabota”, diz Eduardo Giannetti, completando: “mas é articulado e pode se cercar de gente mais competente na economia”. “Eu acho que Ciro é o candidato a ser derrotado, se Lula não sair mesmo”, completa um líder do PMDB.





O partido de Temer tende a estar a reboque, apesar do protagonismo acidental do momento. Poderia até lançar um quadro distante da Lava Jato, como o governador Paulo Hartung (ES), mas parece mais fácil ir com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que está no PSD e poderia ser um nome caso a economia demonstre reação. “Os avanços que estão sendo feitos no campo fiscal não chegam à ponta, são de uma assimetria dramática”, afirma Giannetti.





Em “eleitores”: o emprego dificilmente subirá rapidamente, por mais que os mercados comemorem reformas que venham a ser aprovadas – de resto, sempre rotuláveis por adversários de “tirarem os direitos dos trabalhadores”.





Nome conservador alternativo e Marina disputam terceira via





A equação para 2018 tem alguns candidatos a terceira via. No campo à direita, o vácuo de lideranças viáveis deu espaço ao crescimento do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que vem cravando por volta de 10% em intenções de voto. Há, contudo, certa unanimidade em apontá-lo como sintoma temporário, fadado a seus limites. “Não me surpreende o desempenho do Bolsonaro. Desde 2013, há um crescimento da simpatia à direita no eleitorado”, afirma o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.





Naquele ano, uma pesquisa já apontava que 48% do eleitorado tinha simpatias conservadoras. “Foi uma decorrência da decepção com os governos do PT, e prevejo uma votação inédita nesse campo”, diz. Hoje, Bolsonaro se sobressai, mas nomes menos heterodoxos podem ocupar esse espaço. “O campo mais tradicional precisa unificar sua candidatura até o fim do ano”, afirma Luiz Felipe D’Avila.





E há Marina Silva (Rede). A ex-senadora e ex-ministra ficou muito abalada com os ataques sofridos na campanha de 2014, e sua inapetência para o embate desencoraja simpatizantes. “Ela precisa se decidir se quer liderar um movimento ou ser presidente. Ela poderia ser um símbolo, como Nelson Mandela, desde que tivesse uma equipe e articulação política”, diz Giannetti.





Outro problema é a falta de capilaridade da Rede, quase um não-partido. A associação ao PSB, pelo qual Marina foi candidata, parece ser a saída, restando saber se o partido que ocupa a vice de Alckmin em São Paulo não tem outros planos.





Há também a hipótese Joaquim Barbosa na sua chapa. O ex-presidente do Supremo, algoz do PT no julgamento do mensalão, seria um ativo e tanto em tempos de Lava Jato, assim como a atual ocupante da chefia Judiciário, Cármen Lúcia. Barbosa já foi procurado por emissários de Marina, assim como por tucanos e pelo PSB, mas mantém-se fechado em copas.





Centro-direita vive paradoxo com apoio potencial e suspeitas





No chamado campo conservador, de centro-direita ou qualquer outra denominação imprecisa, o drama é enorme para 2018. É um paradoxo, com o PT destroçado após o impeachment de Dilma Rousseff e a devastação decorrente do mensalão e do petrolão. Mas os principais nomes deste campo estão também sob a ameaça da mesma Lava Jato. E, mantendo a tradição, estão brigando entre si.





O senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB, está acossado pelas diversas citações a seu nome nas delações – e a maior de todas, a da Odebrecht, ainda nem foi divulgada. “Aécio não vai se agarrar de forma quixotesca à candidatura”, resume um aliado. Como está no controle da máquina partidária, qualquer acerto passa pelo mineiro.





Aí entra Geraldo Alckmin, o longevo governador paulista, que trabalha sua candidatura junto a diretórios estaduais do PSDB. O objetivo é ter densidade no caso de prévias partidárias – e nem se fala ainda da dificuldade de penetração no eleitorado nordestino. Ocorre que o tucano também está citado na Lava Jato, ainda que de forma por enquanto mais lateral do que colegas de partido. Todos negam irregularidades.





Outro dos mencionados é José Serra, cuja saída do Itamaraty na semana passada pegou o tucanato de surpresa. Ele era o esteio da aliança PSDB-PMDB, em dupla com Aécio e em contraposição a Alckmin, que prefere uma relação mais distante.





Isso reforçou o governador, mas até certo limite: e se ele acabar comprometido? “Aí teremos de achar um Doria, se não for o próprio”, diz outro tucano. Além de ter de manter a sua alta aprovação (44% no mais recente Datafolha), Doria precisará se provar um fenômeno fora de centros urbanos. Num país em que 44% do PIB passa por mãos estatais (contas de Giannetti) e 90% dos municípios dependem de verbas federais (números de D’Avila), a antipolítica pode não colar universalmente.

Fonte:ndonline.com.br