ENQUETES

Apesar da operação Carne Fraca, a maioria das pessoas não deixou de consumir carne
04/04/2017

EDIÇÃO 3224 ENQUETE - POLÊMICA ENVOLVENDO CARNE TOMA GRANDES PROPORÇÕES


Polícia Federal divulgou que constatou irregularidades em vários frigoríficos do país, inclusive, de marcas famosas

A Megaoperação da Polícia Federal, que desmontou um esquema de funcionários do Ministério da Agricultura que teriam recebido propina para liberar carne para venda sem passar pela devida fiscalização, causou grande polêmica em todo o país e também no exterior.



A operação aconteceu em 6 Estados e no Distrito Federal, com 35 pessoas presas – e há ainda dois investigados foragidos. O Ministério da Agricultura afastou 33 servidores envolvidos no esquema.

A possibilidade de que produtos adulterados e até vencidos podem ter ido parar na mesa da população deixou o país em alerta, mas muita coisa ainda não foi explicada pelos investigadores da operação Carne Fraca.



Segundo o delegado Maurício Moscardi Grillo, da PF, as irregularidades encontradas nos frigoríficos vão desde uso de produtos químicos para mascarar carne vencida a excesso de água para aumentar o peso dos produtos.

A PF fez busca e apreensão em 21 frigoríficos, mas ainda não especificou em quais deles foram flagradas irregularidades na produção. Também não há recomendação oficial para que alguma marca específica seja evitada.

Até o momento, o Ministério da Agricultura interditou 6 dos 21 frigoríficos investigados na operação Carne Fraca: uma unidade da BRF em Mineiros (GO), uma unidade da Peccin, dona da marca Italli, em Curitiba (PR), uma em Jaraguá do Sul (SC), uma unidade da empresa Souza Ramos, em Colombo (PR); um dos laticínios SSPMA, em Sapopemba (PR) e uma unidade da Farinha de Carne Castro, em Telêmaco Borba (PR). A fábrica da BRF produz frango, chester e peru para a marca Perdigão. Nesses locais, os produtos já foram recolhidos, e a produção, paralisada.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) anunciaram que cinco unidades de produção tiveram suas certificações suspensas de forma preventiva e não poderão operar nem no mercado interno nem no externo. As associações, porém, não informaram os nomes das empresas.



Apesar da operação Carne Fraca, a maioria das pessoas não deixou de consumir carne. É que o mostra a Enquete da Tribuna de Ituverava realizada nesta semana, quando foram ouvidas doze pessoas.

Papelão
Uma das gravações feitas pela PF durante a operação foi apresentada como indício de que haveria papelão em produtos da BRF, empresa dona de marcas como Sadia e Perdigão. Na ligação entre funcionários da empresa, um deles diz: “O problema é colocar papelão lá dentro do CMS também né. Tem mais essa ainda. Eu vou ver se eu consigo colocar em papelão. Agora, se eu não conseguir em papelão, daí infelizmente eu vou ter que condenar”.



Em nota, a empresa afirmou que a interpretação da gravação é um “claro e gravíssimo erro” e que o funcionário se referiu às embalagens do produto, e não ao seu conteúdo, como disse a PF. Ainda de acordo com o texto, isso ficaria claro quando o funcionário diz que “vai ver se consegue colocar em papelão”, pois esse produto é normalmente embalado em plástico.

Nessa mesma linha, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, também contestou a informação de que haveria papelão nos produtos.

Carne vencida?



A PF afirmou, ao anunciar a operação, que os frigoríficos estariam usando produtos químicos, entre eles o ácido ascórbico, para maquiar o aspecto de carnes vencidas que era comercializada. Segundo o delegado Maurício Moscardi Grillo, alguns desses produtos seriam cancerígenos.

O Ministério da Agricultura afirmou que o uso do ácido ascórbico não é proibido por lei, desde que esteja dentro das normas estabelecidas. A substância só representaria algum risco se consumida em doses muito altas. Na carne, está proibido o ácido sórbico, um conservante.

Um dos áudios da operação divulgados pela PF tem a conversa do dono do frigorífico Larissa, de São Paulo, com um funcionário para trocar as etiquetas das datas de validade dos produtos. Contatado para comentar a operação, o frigorífico não se manifestou.

Em uma das gravações divulgadas pela PF, o dono de uma das empresas investigadas, Idair Antônio Piccin, conversa ao telefone com a mulher, Nair Klein Piccin, sobre o uso de cabeça de porco em lotes de linguiça. Segundo a PF, a prática seria ilegal.



O médico veterinário Pedro Eduardo de Felício, especialista em carnes da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp, afirmou que a carne de cabeça é permitida no mundo. “É matéria-prima. Quando você industrializa, faz embutidos, é para aproveitamento em matérias-primas de menor custo”, diz.

Empresas investigadas
Big Frango Indústria e Com. de Alimentos Ltda.

BRF - Brasil Foods S.A. (dona de marcas como Sadia e Perdigão)



Dagranja Agroindustrial Ltda./Dagranja S/A Agroindustrial

E.H.

Constantino



Frango a Gosto Frigobeto Frigoríficos e Comércio de Alimentos Ltda.

Frigomax Frigorífico e Comércio de Carnes Ltda.Frigorífico 3D

Frigorífico Argus Ltda.Frigorífico Larissa Ltda.

Frigorífico Oregon S.A.

Frigorífico Rainha da Paz



Frigorífico Souza Ramos Ltda.

JBS S/A (dona das marcas como Friboi, Seara e Swift)



Mastercarnes



Novilho Nobre Indústria e Comércio de Carnes Ltda.

Peccin Agroindustrial Ltda. (dona da marca Italli Alimentos)

Primor Beef - JJZ Alimentos S.A.

Seara Alimentos Ltda.

Unifrangos Agroindustrial S.A./Companhia



Internacional de Logística



Breyer e Cia Ltda.

Fábrica de Farinha de Carne Castro Ltda. EPP

Salmonela



Segundo as investigações da PF, uma fábrica da BRF em Mineiros (GO) estaria contaminada com a bactéria salmonela e ainda assim teria exportado carne para a Europa. Em nota, a empresa afirmou que “existem cerca de 2,6 mil tipos de salmonela, bactéria comum em produtos alimentícios de origem animal ou vegetal”. Ainda segundo a nota, “todos os tipos são facilmente eliminados com o cozimento adequado dos alimentos”.

A empresa afirma no texto que “a BRF não incorreu em nenhuma irregularidade”, já que “o tipo de salmonela encontrado em alguns lotes desses quatro contêineres [de carne exportada] é o salmonela Saint Paul, que é tolerado pela legislação europeia para carnes in natura”.

O outro lado
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) criticaram a maneira como a PF divulgou os resultados da operação Carne Fraca. “Passou uma imagem generalizada de que tudo no Brasil é ruim, e não é isso”, afirmou Francisco Turra, da ABPA.



A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) rebateu as críticas e, em nota, afirmou que “na intenção de proteger setores do mercado e do governo, há uma orquestração para descredenciar as investigações de uma categoria que já provou merecer a confiança da sociedade”.

Ao comentar a operação, o presidente Michel Temer defendeu o setor, disse que os frigoríficos investigados representam um “pequeno núcleo” e que o país tem um sistema “rigorosíssimo” de avaliação sanitária.



Confira as respostas: