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O ator José Mayer e atrizes que protestaram contra o assédio à figurista Susllem Tonani
22/04/2017

EDIÇÃO - 3227 ASSÉDIO COMETIDO POR ATOR TRAZ DEBATE SOBRE MACHISMO


José Mayer, ator da Rede Globo, assediou a figurinista Susllem Tonani durante gravações de novela

Desde o início do mês, atrizes da Rede Globo iniciaram a campanha mexeucomumamexeucomtodas, em solidariedade à figurista Susllem Tonani, que contou ter sido assediada pelo ator José Mayer durante as gravações da novela “A Lei do Amor”. Após pressão pública, Mayer escreveu uma carta na qual admitiu o erro e se desculpou por suas “brincadeiras machistas”. A TV Globo decidiu suspender o ator de qualquer produção por tempo indeterminado.

Segundo a vítima, o assédio de Mayer começou com elogios, que logo passaram a incluir palavreado impróprio, em comentários de cunho sexual. Ela disse que, durante meses, ficou envergonhada, sem graça. Até que, em fevereiro, o ator tocou em partes íntimas com a mão esquerda, sem o consentimento dela.

Ela ainda relata que passou a evitá-lo, mas que, depois disso, num set de gravação, diante de colegas, José Mayer a insultou pelo fato de Susllen não estar falando com ele.


Ela conta que foi depois deste fato que levou o caso ao Departamento de Recursos Humanos da Globo. Segundo Susllen, a empresa reconheceu a gravidade do acontecimento e prometeu a ela tomar as medidas necessárias.

Logo em seguida, um grupo de funcionários, colaboradores e executivos da TV Globo se manifestou contra o assédio sexual, usando camisetas com as inscrições “Mexeu com uma, mexeu com todas”, acompanhada da hashtag #chegadeassédio.

Rede Globo
A Globo divulgou a seguinte nota a respeito do caso: “em relação à denúncia de assédio envolvendo o ator José Mayer e a figurinista Susllem Tonani, a Globo reafirma o teor da nota divulgada na última sexta-feira, quando declarou que o caso foi apurado e que as devidas providências estavam sendo tomadas. Naquela nota, a emissora enfatizou que repudia toda e qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito. E que zela para que as relações entre funcionários e colaboradores se deem em um ambiente de harmonia de acordo com o Código de Ética e Conduta do Grupo Globo”.

Esta convicção da Globo foi reafirmada para um grupo de atrizes, diretoras e produtoras, reunidas num domingo à noite, quando a emissora informou que, apurado o caso, tomou a decisão de suspender o ator José Mayer de produções futuras dos Estúdios Globo por tempo indeterminado.

A emissora ainda afirmou “lamentar que Susllen Tonani tenha vivido essa situação inaceitável num ambiente que a emissora se esforça cotidianamente para que seja de absoluto respeito e profissionalismo. E, por essa razão, pede a ela sinceras desculpas”.

Resposta
Já o ator José Mayer divulgou a seguinte nota. “Eu errei. Errei no que fiz, no que falei, e no que pensava. A atitude correta é pedir desculpas. Mas isso só não basta. É preciso um reconhecimento público que faço agora. Mesmo não tendo tido a intenção de ofender, agredir ou desrespeitar, admito que minhas brincadeiras de cunho machista ultrapassaram os limites do respeito com que devo tratar minhas colegas. Sou responsável pelo que faço”, afirmou.

“Tenho amigas, tenho mulher e filha, e asseguro que de forma alguma tenho a intenção de tratar qualquer mulher com desrespeito; não me sinto superior a ninguém, não sou. Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são. Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele. Este é o meu exercício. Este é o meu compromisso. Isso é o que eu aprendi. A única coisa que posso pedir à Susllen, às minhas colegas e a toda a sociedade é o entendimento deste meu movimento de mudança”, ressaltou o ator.

Ele ainda afirmou que espera “que este reconhecimento público sirva para alertar a tantas pessoas da mesma geração que eu, aos que pensavam da mesma forma que eu, aos que agiam da mesma forma que eu, que os leve a refletir e os incentive também a mudar. Eu estou vivendo a dolorosa necessidade desta mudança. Dolorosa, mas necessária. O que posso assegurar é que o José Mayer, homem, ator, pai, filho, marido, colega que surge hoje é, sem dúvida, muito melhor”,completou.

Caso coloca tema do assédio no trabalho em discussão
A acusação de assédio sexual contra o ator José Mayer, feita por uma figurinista da Rede Globo, trouxe à tona o debate sobre esses casos dentro do ambiente de trabalho.

Diante da denúncia, atrizes e outras funcionárias da emissora se engajaram na campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas. Nas redes sociais, Taís Araújo, Fernanda Lima, Camila Pitanga, Leandra Leal, Angélica, entre outras famosas, fizeram publicações em apoio à causa.


No entanto, a violência de gênero nas empresas é mais comum do que você imagina. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em todo o mundo, 52% das mulheres economicamente ativas já sofreram assédio sexual no ambiente de trabalho.

Já um levantamento feito ao vivo no Facebook do site Catraca Livre, constatou que 40% dos leitores participantes, entre homens e mulheres, sofreram abuso sexual nas empresas em que trabalham ou trabalharam.

Na pesquisa, as vítimas também enviaram relatos, de forma anônima, que narram casos de assédio em todo o país. Em algumas situações, os casos de assédio são tão graves que se tornam tentativa de estupro.

Como identificar e denunciar
Uma das mais eficazes maneiras da mulher identificar se está sofrendo assédio no trabalho é perceber se a maneira como é tratada pelo chefe ou colega de trabalho a deixa constrangida.

Insinuações, cantadas, elogios inconvenientes, contato físico forçado, convites impertinentes e demais posturas inadequadas que causam constrangimento, humilhação e medo são caracterizados como assédio sexual.

Quando o assédio é cometido no ambiente de trabalho, ele geralmente vem associado a ameaças de demissão ou em troca de uma vantagem - como promoção no cargo ou contratação.

O assédio pode ocorrer ainda por intimidação ou chantagem. Acontece, por exemplo, quando o chefe ameaça, ainda que sutilmente, demitir a funcionária que negar fazer sexo com ele. O assediador, neste caso, está usando do poder que possui para fazer com que a vítima ceda ao ato para uma realização pessoal dele.

Assédio no trabalho é crime previsto em lei. Para denunciar um caso, a vítima pode recorrer dentro da própria empresa ou na Justiça. Na empresa, vai depender de sua estrutura. Se houver setor de Recursos Humanos ou Ouvidoria, estes podem ser um primeiro canal de acesso. Porém, como a maioria das empresas é de pequeno ou médio porte, nem sempre esses setores existem.

Outra possibilidade é entrar em contato com o respectivo sindicato, uma vez que o órgão tem peso institucional para lidar com a empresa.

Justiça
Já na Justiça, o assédio sexual pode ser denunciado tanto na esfera trabalhista como na criminal. Na Justiça do Trabalho será possível entrar com uma ação de indenização por danos morais pelos sofrimentos causados pelo assédio. Para essa esfera, o agressor não precisa ser necessariamente um superior hierárquico.

Na esfera criminal, só é considerado crime se o assédio for praticado por pessoa de posição hierárquica superior à da vítima. Para denunciar, é necessário fazer um boletim de ocorrência em uma delegacia de polícia.

Importante frisar que também será necessária uma declaração da vítima de que deseja processar criminalmente o assediador, o que se chama de ‘representação’. Ela deve ser feita em até seis meses da data do último episódio de assédio sexual. A punição, nesses casos, poderá ser uma pena de detenção de um a dois anos.


Quando for fazer a denúncia, a vítima pode levar consigo as testemunhas que presenciaram a cena ou outros tipos de prova que ela eventualmente tiver, como fotos e vídeos.

Participante foi expulso do BBB por atos machistas
Em outro caso de machismo, também ocorrido na Rede Globo, foi da Marcos, participante que foi expulso do “Big Brother Brasil 17”. O médico foi chamado ao confessionário e comunicado da decisão da direção do programa. Ele saiu da casa, assim como aconteceu com Ana Paula no momento da sua expulsão, na edição passada do reality show.


Mais cedo a delegada titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM) de Jacarepaguá, Viviane da Costa, esteve nos Estúdios Globo para pedir as imagens das discussões entre Marcos e Emilly. Foi instaurado inquérito polícial.

A estudante foi submetida a um exame clínico, por um médico da Globo, para avaliar a possibilidade de lesão corporal. Para Emilly ficaram claros seus direitos, garantidos pela Lei Maria da Penha, inclusive o de ficar distante de Marcos.

Repúdio
Em comunicado, a Rede Globo reafirmou seu repúdio a toda e qualquer forma de violência, tendo evidenciado isso em todas as suas atitudes.

Marcos havia agredido Emilly verbalmente e fisicamente várias vezes, além de menosprezar a sua inteligência e desrespeitar as suas decisões, como a de tomar bebidas alcoólicas ou escolher suas roupas.


Emilly Araújo, campeã da 17ª edição do Big Brother Brasil, prestou depoimento na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Jacarepaguá (Deam), no Rio de Janeiro, na manhã da última segunda-feira, 17 de abril.

O objetivo é dar a sua versão sobre a discussão que teve com o namorado na casa, Marcos Härter, expulso do reality depois de intimidá-la e de encurralá-la contra a parede.


Confira as respostas: