Treze pessoas foram presas e outras 16 foram alvos de mandado de condução coercitiva – quando é levada para prestar depoimento – em sete cidades no interior de São Paulo por suspeita de envolvimento em um esquema ilegal de cobrança para aprovação de candidatos em exames práticos de direção.
(Correção: ao ser publicada, esta reportagem errou ao informar que três pessoas haviam sido presas e outras quatro foram alvos de mandado de condução coercitiva durante a "Operação Delta Fake". Na verdade, foram 13 presos e 16 mandados de condução coercitiva cumpridos. O erro foi corrigido às 21h43 de 19 de junho).
Segundo a Polícia Civil, examinadores do Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) e funcionários de autoescolas estão envolvidos na fraude, que tinha como alvo interessados em carteira de habilitação profissional, ou seja, nas categorias D e E.
“O que chamou mais a atenção é que justamente motoristas profissionais, que vão dirigir os caminhões, os ônibus e as vans, estavam tendo esse tipo de facilidade. Essa foi a grande preocupação que motivou toda essa investigação”, diz o delegado João Osinski Junior.
Em nota, o Detran-SP informou que se forem comprovadas as irregularidades, os servidores responderão a processo administrativo e, ao final, poderão ser exonerados. Já as autoescolas podem ser descredenciadas do sistema.
Ao todo, 54 mandados foram cumpridos, entre eles de busca e apreensão, durante a operação nesta segunda-feira (19), batizada de “Delta Fake” – delta no alfabeto fonético internacional da polícia corresponde à letra "D" que, nesse caso, seria uma das principais categorias das carteiras fraudadas.
A Polícia Civil realizará uma coletiva de imprensa na manhã desta terça-feira (20) para informar o balanço oficial da operação.
O esquema funcionava em Barretos (SP), Guaíra (SP), Colômbia (SP), Bebedouro (SP), Jaborandi (SP), Olímpia (SP) e Colina (SP). Ainda segundo o delegado, o valor cobrado pelos suspeitos variava de acordo com a cidade e as condições financeiras do candidato.
“Para evitar que se levantasse suspeita, o centro de formação fazia um pool: todos os candidatos inscritos naquela oportunidade pagavam uma determinada quantia para que fosse diluída e, dessa forma, todos obtivessem aprovação”, afirma.
O grupo também ameaçava reprovar os candidatos que se negassem a pagar os valores cobrados. As quantias individualizadas e o total obtido com a fraude, assim como o período em que o esquema funcionou, ainda estão sendo investigados.
“Candidatos que foram obrigados a pagar, e que tinham condições de serem aprovados no exame, se indignaram com esse tipo de atitude e procuraram a polícia, reportando que estava sendo cobrado para que houvesse a aprovação”, conta o delegado.
Alguns suspeitos ainda se passaram por delegados para intimidar as vítimas. Isso porque, até 2015, as Circunscrições Regionais de Trânsito (Ciretran) ficavam sob responsabilidade da Polícia Civil. Hoje, só o Detran-SP pode autorizar a emissão ou a alteração de carteiras de habilitação.
“Em alguns casos, quando o candidato questionava o porquê pagar, era orientado a procurar diretamente o examinador: ‘você fala com ele, ele é delegado, e você vai ter a sua resposta a respeito disso’, ou seja, usavam o cargo para obter vantagem”, explica Osinski Junior.
Os três presos cumprirão prisão temporária por cinco dias, mas a Polícia Civil não informou para qual cadeia foram levados. Osinski Junior afirmou que os suspeitos responderão por organização criminosa, corrupção e falsidade ideológica.
Em nota, o Detran-SP informou que vem colaborando com a investigação criminal e continuará a prestar todo o apoio necessário, reiterando seu compromisso de combater qualquer tipo de irregularidade no órgão.
"No âmbito administrativo, se comprovadas as irregularidades, os servidores responderão a processo administrativo e, ao final, poderão ser exonerados; parceiros, como autoescolas, poderão ser descredenciados. Como garante a Constituição, todos terão o direito a ampla defesa", diz o comunicado.
Fonte: g1.globo.com