Eles são importantes corredores de cargas, mas parecem esquecidos. Nos últimos meses, os trilhos que levam os trens pela região de Ribeirão Preto (SP) têm sido lembrados por descarrilamentos, como os que resultaram no derramamento de enxofre em São Simão (SP) este mês. Em maio, a roda de um vagão-tanque saiu da ferrovia na Avenida General Euclides de Figueiredo, no bairro Adelino Siminoni, zona norte de Ribeirão.
Para apontar as possíveis causas desse tipo de acidente, a EPTV convidou o especialista Denis William Esteves, presidente do Instituto Histórico do Trem, para avaliar linhas em funcionamento em Ribeirão e encontrou, além de dormentes podres e falta de proteção para erosões, um flagrante de saque com o veículo em movimento.
A VLI Logística, empresa responsável pelas linhas para o transporte de cargas, informou fazer a limpeza dos trilhos regularmente e que a ferrovia é segura, mas que enviará equipes aos locais mostrados na reportagem para avaliar possíveis problemas.
Saques
A reportagem flagrou saqueadores subindo em um trem de carga que passava pela região do bairro Quintino Facci 2, zona norte da cidade.
Nas imagens, é possível ver que um dos suspeitos sobe rápido, enche uma sacola com milho e pula do vagão em movimento.
De acordo com Esteves, o descuido da área de segurança dos trilhos passa a sensação de abandono e propicia os furtos. "Não tem segurança, está tudo largado, cria-se a impressão de que ninguém fiscaliza, ninguém acompanha. Então isso acaba estimulando a ação de marginais", afirma.
Dormentes podres
Em um dos pontos avaliados, próximo à Avenida General Euclides de Figueiredo, o especialista mostra a necessidade de troca dos dormentes, alguns deles podres e sem condições de fixação. Além disso, o tirefão - parafuso que ajuda a prender a estrutura ao chão - está embaixo do trilho em vez de estar por cima.
Situação que pode resultar no deslocamento da peça e, por consequência, provocar o tombamento ou o descarrilamento de um trem.
"Do outro lado está pior ainda. Aqui nós vemos que o trilho está completamente encavalado, em cima da fixação, quer dizer: está completamente solto. E a gente percebe que não é um problema pontual, ele vai se repetindo ao longo da linha a intervalos regulares", afirma.
Lixo
Os riscos de acidente ficam maiores com o acúmulo de lixo e terra, encontrados com frequência nessas linhas. De acordo com o especialista, a prática contamina o lastro ferroviário - camada de pedras usada para aumentar a estabilidade da ferrovia - , ou seja, prejudica a capacidade de absorção do impacto gerado pela passagem das composições.
"Isso começa a se acumular próximo aos trilhos e o próprio lixo pode ser atingido pelos flanges da roda do trem e ocasionar o descarrilamento", afirma.
Erosão
Em um trecho que passa por baixo da Avenida Marechal Costa e Silva, Esteves apontou o risco de queda de árvores próximas à ferrovia, além de erosão em barrancos sem proteção vegetal.
Isso, segundo ele, sem contar o perigo de alguém cair pela falta de uma cerca no local.
"Você não tem a manutenção nem das valetas para escoamento da água pluvial nem a cobertura vegetal, então o que acontece: a chuva vai lavando o solo e acontece o que estamos vendo aqui. O barranco começa a cair, a desmoronar."
Fonte: g1.globo.com