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Médicos serão obrigados a medirem circunferência do abdômem em consultas; no destaque, o médico Alcides Antônio Maciel Júnior
27/08/2017

ANS QUER MAPEAR OBESIDADE EM PACIENTES COM PLANO DE SAÚDE


Grupo recomenda que o cálculo do IMC seja feito para os pacientes que procuram assistência médica ambulatorial e hospitalar

A proporção de indivíduos com excesso de peso no país cresceu 12,5% e a de obesos, 36%, segundo a pesquisa Vigitel Brasil 2015, estudo realizado pelo Ministério da Saúde e Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Por conta disso, a ANS vai reunir, até o final do ano, diretrizes e protocolos para facilitar o rastreio e a abordagem dos pacientes com obesidade ou sobrepeso entre os beneficiários de planos de saúde.

O Grupo Multidisciplinar para Enfrentamento da Obesidade na Saúde Suplementar recomenda que o cálculo do IMC seja realizado para todos os pacientes que procuram assistência médica ambulatorial e hospitalar.

Segundo a ANS, a captação deste dado pelas operadoras de planos de saúde irá permitir o direcionamento para estratégias de prevenção e tratamento precoce (orientação para consulta com nutricionista, por exemplo) reduzindo morbimortalidade do indivíduo e de custos no sistema de saúde.

No encerramento das discussões, previsto para o final de 2017, o grupo pretende lançar uma publicação com informações referências ao tema e estimular que as operadoras de planos de saúde adotem essas diretrizes.

Rastreio do excesso de peso
Uma das propostas do grupo, que se reuniu pela primeira vez neste mês, foi a criação de um fluxograma para rastreio do excesso de peso e conduta. Ainda de acordo com a ANS, também estão incluídas nessas diretrizes recomendações básicas para mudança do estilo de vida, com redução calórica do consumo de alimentos ricos em açúcar, gordura e sal, por exemplo, e aumento da atividade física diária para 150 minutos/semana. Quando necessário, tratamentos medicamentoso e cirúrgico serão abordados.

“Não precisamos esperar chegar à obesidade. O paciente com sobrepeso já tem que ser bem orientado e direcionado a tratamento”, diz a diretora de normas e habilitação de produtos da ANS, Karla Coelho.

Já para aqueles com IMC acima de 30 kg/m², a previsão é que, além de apoio para adoção de hábitos saudáveis, haja direcionamento a endocrinologistas, que podem avaliar a possibilidade de uso de medicamentos.

Hoje, esses remédios não fazem parte do rol mínimo obrigatório para oferta pelos planos -e não há previsão de mudança nesse cenário.

Segundo a ANS, no entanto, várias operadoras já oferecem medicamentos dentro de programas específicos, como forma de estimular a adesão do usuário. Tratamentos com fitoterápicos, laxantes e hormônios não serão recomendados.

Além dos adultos, o grupo planeja medidas para controle da obesidade infantil, como incentivo ao aleitamento materno e reforço no diagnóstico do excesso de peso.

“A criança obesa tem mais chances de desenvolver obesidade também na vida adulta”, diz Mônica Moretzsohn, do comitê de nutrição da Sociedade Brasileira de Pediatria, que analisa as medidas.

Neste caso, uma das propostas em discussão é o incentivo ao uso de um “cartão da criança”, documento com informações nutricionais e dados de saúde, assim como já ocorre no SUS.

O modelo é semelhante ao da carteirinha de vacinação, mas com gráficos para acompanhamento do crescimento e evolução do peso.

“Antigamente se usava muito para verificar a desnutrição infantil. Agora estamos no outro lado”, diz Alberto Ogata, coordenador do laboratório de inovação da Opas-ANS e membro do grupo.

“Esse cartão já existe, mas não é preenchido, e é pouco usado na saúde suplementar”, diz Karla Coelho. Segundo ela, crianças que estiverem acima do peso podem ser encaminhadas a nutricionistas e educadores físicos para acompanhamento.

Bônus a Planos
De acordo com Coelho, apesar da adesão dos planos de saúde às diretrizes estabelecidas não ser obrigatória, a agência planeja dar bônus em avaliações para as operadoras que adotarem os protocolos em seus serviços.

“A ideia é atrelar ao índice de desempenho. São operadoras que participam dos programas e têm uma nota um pouco mais alta do que aquelas que não participam dessa discussão”, explica.

Hoje, parte das operadoras de saúde já oferece grupos de apoio e consultas com nutricionistas e psicólogos para tratamento da obesidade, por meio de programas próprios de promoção à saúde.

A intenção, agora, é verificar, entre as iniciativas existentes, quais modelos podem ser replicados. A previsão é que diretrizes sejam finalizadas até novembro.

Secretário municipal de Saúde fala sobre medida da ANS
Em entrevista concedida à Tribuna de Ituverava, o vice-prefeito e secretário municipal de Saúde, Alcides Antônio Maciel Júnior, elogia a medida da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

“A iniciativa é louvável. A obesidade é tão grave quanto o câncer, ainda mais quando somada ao diabetes, que tem se tornado um problema tão recorrente que pesquisas apontam que no ano 2040, metade da população mundial será diabética”, afirma.

“O diabetes é a maior causa de amputações não-traumáticas do mundo, aumenta em 40% o risco de desenvolver glaucoma e 60% de ter catarata — males que podem levar à cegueira. A probabilidade de morrer por problemas cardiovasculares e acidente vascular cerebral é de duas a quatro vezes maior para quem convive com ele. Uma doença sem cura e que cresce em um ritmo alarmante para um problema evitável e controlável”, ressalta.

Dados do atlas da doença elaborado pela International Diabetes Federation, atualizado em 2015, mostram que o Brasil soma 14,3 milhões de diabéticos — número quase 10 vezes maior do que a população de Porto Alegre e que coloca o país na quarta posição do ranking mundial.

“Para piorar, metade dessas pessoas sequer sabe que tem a doença. A pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgada em abril pelo Ministério da Saúde, mostrou que esses índices crescem de forma impressionante: em 10 anos, o diabetes aumentou 61,8% no país, passando de 5,5% da população em 2006 para 8,9% em 2016. Colocando uma lupa nesse percentual, podemos ver além: as mulheres saltaram de 6,3% para 9,9% nesse período, enquanto os homens passaram de 4,6% para 7,8%. Ou seja, é uma doença democrática, que afeta ambos os sexos”, diz.