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12/03/2010
Sonia Regina Antiorio Freire Pessanha
A mangueira era fenomenal. Linda. Maravilhosa, imponente em seus galhos espaçosos. Fácil, fácil, passava de 15 metros de altura. Era muito longeva e formava uma copa tão frondosa que nada crescia embaixo dela. As folhas, lanceoladas e suaves , chegavam a trinta centímetros de comprimento. As flores, singelas e perfumadas, alternavam branco e amarelo-esverdeado e agrupavam-se às vezes em grandes panículas, outras vezes, em cachos terminais.
Essa árvore fantástica, que ninguém jamais plantou, estava fincada no quintal da nossa vizinha, Dona Nena, nascida Laurita Brunelli Abdalla, e que morava em frente a nossa casa na Rua Coronel Francisco Junqueira, 547 em Ituverava, e que, coincidentemente, fazia aniversário na mesma data que eu.
Naquela década de 50, infelizmente na rotina diária da maioria das pessoas, não estava incluído o hábito de comprar frutas, uma vez que as mesmas eram “conseguidas” através do plantio nos quintais de casa, de doações dos amigos e vizinhos, ou por meio de algum ser que eventualmente batia a nossa porta oferecendo alguma espécie acanhada, que quase sempre recusávamos.
A safra da manga era no final do ano, perto do Natal, e havia duas qualidades mais conhecidas da fruta. A manga comum, que conforme o nome já diz, tinha colheita farta e abundante, e a manga Sabina, sendo essa de sabor mais nobre, mais “chic”, mais difícil de se conseguir, mas uma delícia de saborear!
A simpática mangueira da Dona Nena produzia manga Sabina.
Eu particularmente a adorava, pois, além de já naquela época gostar demasiadamente de manga, podia me fartar da colheita dos seus frutos, pois Dona Nena, que era comadre de minha mãe, era um doce de criatura, um ser dotado de grande bondade e portadora de um espírito altamente elevado, nos deixava à vontade, assim como toda a vizinhança, para pegarmos quantas mangas quiséssemos desde que estivessem maduras.
Dona Nena, ainda, sabedora que era da afeição que eu tinha pela mangueira, também permitia que, no momento que eu desejasse, adentrasse em seu quintal, sem que precisasse avisar ninguém, para simplesmente sentar embaixo da esplendorosa árvore, me servir de sua sombra, pensando sei lá em que, absorvendo a sua energia, admirando o seu porte escultural, e refletindo sobre os milagres da mãe natureza, pois era ela quem nos oferecia aquela maravilha de mangueira, que além de linda e formosa, era indiscutivelmente uma fonte de suprimento à vida.
Um dia de outubro do ano de 1958, ocasião em que a mangueira já estava carregadinha de frutas ainda que verdes, e todos nós aguardávamos ansiosos para o seu amadurecimento, Jorge, o quinto filho do casal Nena/Cecílio, no vigor de seus 08 anos, peralta como sabiam ser os meninos daquele tempo - o que difere dos meninos de hoje, pois os de agora, não dispõem de tempo e nem de local para exercer a peraltice - já cansado das mesmas brincadeiras, decidiu INOVAR e escolheu a mangueira para ser palco de suas novas aventuras, prometendo para si próprio que atingiria o seu galho mais alto, iniciando então a sua desastrosa escalada .
Após galgar o quinto ou sexto galho, Jorginho se desequilibrou e, infelizmente, alçou o vôo mais certeiro de sua vida, sendo o seu destino, a terra vermelha de nossa querida Ituverava, fresquinha da sombra da mangueira.
O garoto chegou ao chão já desmaiado, e .............pânico total, correria total. Fora o mesmo levado imediatamente para a Santa Casa, onde felizmente nada de grave lhe havia acontecido, MAS PARA MIM...!!!
Dona Nena, no auge do seu desespero, cuja extensão somente quem já recebeu as bençãos da maternidade pode avaliar, ao ver um pedaço de si agonizando naquele chão batido, num ato de grande fé e religiosidade, invocou Nossa Senhora, fazendo uma promessa frente a todos que tentavam socorrer Jorginho, prometendo que, se o seu garoto vivesse, ela extirparia a mangueira, em sua totalidade, cuidando pessoalmente para que não restasse à mesma qualquer chance ou possibilidade de renascimento, ou de sobrevida.
Provavelmente Nossa Senhora não era a favor da eliminação daquela fonte de alimentos, fonte de vida, de energia, de calor, que era a nossa querida mangueira, mas mesmo assim resolveu ajudar Jorginho, que em 03 dias, já estava totalmente recuperado e já planejando novas aventuras, mas não desta vez utilizando-se da mangueira, pois ela já não mais existia pois fora extirpada como se tivesse praticado o mais abominável dos crimes.
Jorginho, graças a Deus, conosco permaneceu, porém não mais vivo do que minhas doces e saborosas lembranças do espetacular convívio que tive com a mangueira de Dona Nena e o GOSTO da fruta que ela com tanto carinho me ofertava principalmente nos Natais e que NUNCA MAIS SENTI.
Sonia Regina Antiorio Freire Pessanha