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10/08/2010

CONSULTORA DO PROINFO/MEC VISITA ITUVERAVA

O prefeito Mário Takayoshi Matsubara, consultora pedagógica do Proinfo/MEC e diretora-executiva da LTNet-Brasil, Vera Lúcia Atsuko Suguri, o esposo Hélio José de Freitas e o coordenador de Informática César Avanci Teixeira

Natural de Miguelópolis, Vera Lúcia Atsuko Suguri fala sobre sua juventude em Ituverava e compara a Educação ontem e hoje

Na semana passada, a professora Vera Lúcia Atsuko Suguri, especialista em Informática na Educação, consultora pedagógica do Proinfo/MEC e diretora-executiva da LTNet-Brasil, visitou Ituverava, cidade onde estudou. Ela foi recebida pelo prefeito Mário Takayoshi Matsubara, e pelo coordenador de Informática, César Avanci Teixeira.

Natural de Miguelópolis, Vera cursou o Normal no então Instituto de Educação Antônio Justino Falleiros. Em entrevista à Tribuna de Ituverava, ela falou sobre sua satisfação de voltar a cidade, da gratidão aos professores da época, citando a secretária da Educação Maria Sara Abdala Martins, Maria Luiza Seara e Maria Aparecida de Paula Cavallari Palhares (“Pida”), a costureira Arminda Marques Amêndola, entre outros.

Profunda conhecedora da Educação brasileira, Vera faz uma comparação da sua época com os dias atuais. “Ao longo de todo este período, houve profundas mudanças no sistema educacional brasileiro. Por um lado, as oportunidades de inclusão de grande quantidade de alunos contribuíram para disseminar escolas e permitir o acesso a milhões de brasileiros. Por outro lado, todas as dificuldades oriundas deste crescimento se fizeram presentes e hoje temos uma educação massificada, em geral, de baixa qualidade, salas de aula superlotadas, não raro os professores desmotivados e cumprindo jornadas de até três turnos diários, sem tempo e nem espaço para preparar adequadamente as aulas”, ressaltou.

Vera é casada com o engenheiro Hélio José de Freitas, gerente de Projetos do Ministério das Cidades, e tem os filhos Patrícia Suguri Cristino, cirurgiã-dentista, Professora de Saúde Coletiva na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e União Metropolitana de Ensino e Cultura (UNIME), e Rui Cristino Barbosa Júnior, corretor de imóveis.

Tribuna – Qual o objetivo de sua visita em Ituverava?
Vera Lucia Atsuko Suguri – Expressar a minha gratidão e reconhecimento da importância dos professores do curso Normal do Instituto de Educação “Capitão Antônio Justino Falleiros”, onde estudei no período de 1965 a 1968. Além dos professores, eu queria rever a Arminda [Marque Amêndola] – a melhor costureira da cidade – a quem devo todas as emoções da festa da minha formatura.

Deixei Ituverava aos 18 anos e hoje tenho 60. Durante estes 42 anos que estive distante, acalentei o sonho de um dia retornar para dizer o quanto essas pessoas foram especiais e determinantes para a minha vida pessoal e profissional.

Esta visita foi sempre adiada em função das minhas atividades e da dificuldade de localizar estas pessoas, depois de tanto tempo, porém a vontade de um dia realizá-la, nunca foi esquecida. Em maio deste ano, quando estive em São José dos Campos para realizar um evento de capacitação de Formadores de Professores, promovido pelo Ministério da Educação, conheci o professor César Avanci Teixeira. Ao ouvir as minhas histórias, ele se sensibilizou imediatamente e não poupou esforços para localizar e contatar as pessoas, encurtar distâncias, organizar e tornar este encontro possível.

E, pela segunda vez, senti-me acolhida por Ituverava na hospitalidade do prefeito Mário Takayoshi Matsubara. Na simplicidade de uma conversa que só se presenteia aos amigos, ele compartilhou a sua história de vida como administrador da cidade, a parceria da sua esposa, Delfina Sanae Maeda Matsubara, frente ao projeto social junto às comunidades carentes e, sobretudo, as alegrias colhidas nos abraços de sua neta.

Tribuna – Qual o vínculo que você tem com nossa cidade?
Vera – O meu vínculo é principalmente de gratidão. Ituverava foi o berço dos meus sonhos e esperanças sobre as quais construí minha vida.

Eu morava em Miguelópolis, onde não havia Curso Normal, por isso, vinha todos os dias para Ituverava. Foi um período marcado por momentos difíceis, quando tive que superar as dificuldades financeiras de minha família, graças à solidariedade dos professores e amigos que me acolheram e apoiaram.

Em 1968, quando se aproximava o final do Curso Normal, as nossas conversas giravam em torno do modelo do vestido de formatura e dos planos de continuar os estudos. Já havia desistido do vestido de formatura, mas ainda faria uma última tentativa para continuar os estudos. Procurei ajuda da professora Maria Luiza Seara, para que a mesma intercedesse junto ao Sr. Maeda [Takayuki Maeda] para obtenção de um empréstimo para viabilizar a continuidade dos estudos, pois ela havia comentado que ele era seu padrinho de casamento.

Com expressão desolada, a professora Maria Luiza me disse que não se sentia à vontade para fazer tal pedido. Compreendi e me senti impotente, pois o sonho estava se esvaindo – eu não via possibilidade de ir avante. Porém, sem eu saber, a professora Maria Luiza mobilizou seus colegas e numa ação de solidariedade incomum, cada professor doou parte de seu salário, presenteando-me de forma coletiva, recursos suficientes para três meses de um curso intensivo de preparação para o vestibular, em São Paulo, sem nenhum discurso ou recomendação. Lembro-me apenas da frase: “Vá em busca dos seus sonhos”.

“Nunca soube os nomes dos professores que participaram da doação, mas mesmo correndo o risco de cometer injustiça, devo agradecer à Maria Luiza Seara, Maria Aparecida de Paula Cavallari Palhares (“Pida”), Maria Sara Abdalla Martins, Guilhermina Tetralda de Lima Coimbra, Manoel Lázaro Pereira, Ada Vannucchi Coimbra e José Ferreira de Assis. Não pensei duas vezes e fui para São Paulo determinada a lutar pelo que dependia de mim”.

Lembro-me também que nas vésperas da formatura, recebi um telefonema da Arminda (costureira). Decidida como sempre, ela me disse para voltar a Ituverava para participar da festa de formatura. Falei que não seria possível, pois eu não tinha nada preparado, ao que ela respondeu: “Venha, está tudo pronto!” Ela havia feito um vestido longo, prateado, lindíssimo, valorizado com os mais belos acessórios e reservado até horário no salão de beleza para o penteado e maquiagem”.

Bem, mas não me fixei em São Paulo. Fui para Brasília, onde me formei em Letras, pela Universidade de Brasília – UnB e tornei-me professora da rede pública de ensino, onde atuei em vários cargos até minha aposentadoria.

Depois de aposentada, trabalhei no Ministério da Educação, especificamente, no Programa Nacional de Informática na Educação – Proinfo, onde ocupei o cargo de Coordenadora-Geral de Tecnologias Aplicadas à Educação, até 2002, continuando o vínculo como consultora pedagógica até hoje.

Em 2002, expandi as minhas ações para projetos sociais de empregabilidade e profissionalização de jovens de comunidades carentes, na área de TI, por meio de uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), a “Learning Tecnologies Network” (LTNET-Brasil), da qual sou fundadora e diretora executiva.

Além dos grandes mestres e amigos, deixei alguns familiares em Ituverava, que por circunstâncias da vida, há muito não os encontrava. Foi nesta oportunidade que nos reunimos no Espeto Show, de propriedade do meu sobrinho Cássio Cley Cristino de Oliveira. Reencontrei-me com o meu ex-cunhado Rubi Cristino Barbosa e conheci as famílias construídas pelos meus sobrinhos Cássio e Luciano Moisés Cristino. O Cássio, que deixei quase criança, sua esposa Lucíola, professora, de personalidade marcante que alterna jornadas diárias numa escola de Miguelópolis e outra em Ituverava e seus dois filhos. O meu sobrinho e afilhado Luciano, alegre e afetuoso desde criança, hoje é conhecido como João Pedro (da dupla João Pedro & Cristiano), sua esposa e filhos. Conheci também a esposa Sandra e filha Luana, do professor César Teixeira, que me acompanhou em todos os momentos e compartilhou de todas as emoções, a quem devo muito para que este reencontro acontecesse, e hoje posso dizer que tenho mais um amigo nesta cidade que tanto amo.

Tribuna – Como profissional da educação, como a sra. vê a educação ontem e hoje?
Vera – Numa avaliação de forma rápida e muito resumida, dada a complexidade e divergência de opiniões sobre o tema, digo que ontem os professores iam muito além dos conteúdos acadêmicos de suas disciplinas, olhavam nos olhos de cada aluno e buscavam enxergar seu potencial, liam os anseios de suas almas, importavam-se com a vida deles e, sobretudo, se orgulhavam da carreira e da instituição onde trabalhavam. Com freqüência eu ouvia: “lembrem-se de que vocês estudam no Instituto de Educação Capitão Antônio Justino Falleiros”. Dispensava maiores comentários, significava uma escola de excelência. Um Curso Normal não era destinado a preparar alunos para o vestibular, mas quase a totalidade seguiu carreira universitária.

Os grandes mestres nunca aposentam os seus ideais. Apenas como exemplo, a professora “Pida” montou a Escola Contos de Fada, onde se dedica pessoalmente como alfabetizadora e a professora Maria Sara, no papel de secretária municipal de Educação, hoje timoneia a educação do município.

Ao longo de todo este período, houve profundas mudanças no sistema educacional brasileiro. Por um lado, as oportunidades de inclusão de grande quantidade de alunos contribuíram para disseminar escolas e permitir o acesso a milhões de brasileiros. Por outro lado, todas as dificuldades oriundas deste crescimento se fizeram presentes e hoje temos uma educação massificada, em geral, de baixa qualidade, salas de aula superlotadas, não raro os professores desmotivados e cumprindo jornadas de até 3 turnos diários, sem tempo e nem espaço para preparar adequadamente as aulas.

Os professores, via de regra, são engolidos pela pressa, não há tempo para observar as diferenças individuais e o mesmo tratamento é dispensado a todos. Da parte dos alunos, não vejo mais aquela reverência de ontem, pois eles foram sendo envolvidos por todas essas mudanças e hoje os casos de violência e desrespeito com os professores são comuns.

Tribuna – Quais lembranças você tem de Ituverava, já que a sra. saiu daqui em 1968, e como era a cidade naquela época? Quando chegou, como foi a emoção e o que viu de diferente na cidade?
Vera – Quando cheguei, não encontrei a Ituverava da minha lembrança. Como não acompanhei as transformações gradativamente, senti um impacto ao entrar pelo Portal da cidade e seguir pela Avenida duplicada, ladeada por grandes lojas e empreendimentos comerciais. É visível o zelo do patrimônio público nas ruas sem lixo, na praça revitalizada e acolhedora, no chão brilhando de limpo, na antiga caixa d’água decorada com obras de arte com cenários da economia local, na caravela em comemoração do Brasil 500 anos, no monumento em homenagem a Gustavo Borges e muito mais. Da cobertura do Hotel Domus, pude ver os novos limites da cidade, que cresceu muito, emoldurados com o verde das plantações.

Hoje, os filhos de Ituverava têm a opção de estudar Agronomia, Medicina Veterinária, Direito ou Letras, sem se mudar para outra cidade. Isso é muito importante, pois uma vez enraizadas em outro lugar, dificilmente as pessoas retornam à cidade natal como profissionais para contribuir para o desenvolvimento da cidade.

Não tive a oportunidade de conhecer a sra. Delfina pessoalmente, mas soube do seu programa social pelo seu marido. A preocupação com o bem-estar da população mais carente – ocupação do tempo de forma saudável e criativa, perspectivas de geração de renda e administração dos recursos gerados pelo programa. Louvo a sua iniciativa de incentivar os jovens a aprenderem desde cedo a serem empreendedores e responsáveis pelas escolhas ao longo de suas vidas.

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