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29/08/2011

POPULAÇÃO DISCUTE A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE USUÁRIOS DE CRACK

Decisão da Justiça mineira de internar compulsoriamente mulher viciada acende a discussão sobre a medida

É triste, mais é a realidade! O crack é droga devastadora, de conseqüências letais – que está se alastrando cada vez mais, como um câncer no seio da sociedade. Conhecido por seu efeito devastador, ele está em todas as classes sociais, levando os usuários à degradação moral e física, à destruição de famílias e ao aumento da criminalidade.

A sociedade contra-ataca, abrindo várias clínicas e centros de reabilitação Brasil a fora. Os governantes também começam a se engajar nesta luta, oferecendo tratamento e acompanhamento médico e psicológico a dependentes e as suas famílias. Além disso, o número de internações voluntárias também cresce a cada dia, Afinal, esta medida pode significar um recomeço de vida. Entretanto, uma pergunta fica no ar: pode-se ajudar alguém, quando ele não quer ser ajudado?

Nesta semana, uma decisão da Justiça de Minas Gerais aqueceu esta discussão. O Ministério Público determinou que uma mulher de 24 anos, dependente química de crack, deva ser internada compulsoriamente para tratamento com as despesas pagas pelo governo do Estado. De acordo com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a decisão da 3ª Vara de Família de Belo Horizonte foi publicada no Diário do Judiciário, na última segunda-feira, 22 de agosto.

Ainda segundo o TJMG, a mãe foi quem pediu a internação da filha. O juiz Geraldo Claret de Arantes entendeu que a usuária corria o risco de morte devido a dependência de crack. A clínica onde a mulher for internada terá de enviar relatórios periódicos sobre o tratamento.

A mulher está internada no Hospital Raul Soares, em Belo Horizonte, e deve ser transferida para a clínica particular em Campos de Atibaia, no interior de São Paulo, nesta semana. O tratamento tem duração de nove meses.

Opiniões divididas

A internação compulsória divide opiniões. A Prefeitura de São Paulo também planeja adotar uma medida para internar compulsoriamente usuários de drogas que vivem na cidade, projeto semelhante ao que já vem ocorrendo no Rio de Janeiro.

Para tanto, foi realizada uma mesa de debate dia 15 de agosto, pela Comissão de Direitos Humanos, Cidadania, Segurança Pública e Relações Internacionais da Câmara Municipal de São Paulo. A questão, entretanto, ainda gera muita polêmica entre especialistas, médicos, defensores de direitos humanos, advogados e lideranças de movimentos sociais.

O médico e diretor do programa de Orientação e Assistência a Dependentes da Unifesp, Dartiu Xavier da Silveira, alertou que é preciso enxergar além da proposta. “Os grandes defensores da internação compulsória são os que vão ter ganhos diretos com a internação. Há interesses escusos por trás”, alertou.

“Sou totalmente contrário a internação compulsória. Trabalho há 24 anos atendendo dependentes químicos e essa experiência me ajudou a acabar com alguns mitos. A literatura médica e a vivência científica mostra que 98% das pessoas internadas contra a própria vontade recai nas drogas”, relatou Silveira.

Ministério Público

O promotor Eduardo Ferreira Valério, por sua vez, declarou que há cerca de 30 dias a Prefeitura de São Paulo procurou o Ministério Público para tratar a questão da internação compulsória. O objetivo é implantar na cidade um sistema semelhante ao do Rio de Janeiro.

Segundo ele, a medida seria adotada tanto com crianças e adolescentes dependentes de drogas, como também adultos. “Esta questão foi discutida pelas promotorias envolvidas, mas o Ministério Público decidiu aguardar o projeto impresso e concreto para assumir uma posição: se somos contrários ou favoráveis àquilo que pretende a Prefeitura”.

Segundo Rosangela Elias, coordenadora técnica de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do município, afirmou que, nos últimos dois anos, quatro mil moradores de ruas paulistanas foram encaminhados para atendimento médico. Isso resultou em 1,7 mil internações, sendo que 111 delas foram involuntárias ou compulsórias.

“A maior parte delas, de adolescentes. O que acontece, na maioria das vezes, é que o adolescente procura ajuda. O médico avalia e o interna. A partir do primeiro dia, o ele ainda quer o tratamento. Já no segundo dia, vem a fissura, e ele não quer mais. Aí o médico atesta que ele precisa ficar mais algum tempo”, explicou.

Enquete

Nesta semana, a Tribuna de Ituverava foi às ruas saber a opinião do ituveravense sobre o assunto. A maioria é a favor. “Aprovo a medida. Porém, acho que além de internar os usuários, deve-se investir primeiro na prevenção para que não seja necessário chegar a esse ponto”, ressaltou o empresário César Ribeiro de Paula.

Há também os que não concordam com a medida. “Sou contra, porque só se recupera de um vício com força de vontade. O fato dos usuários serem internados à força não fará com que eles se recuperem e ainda gastará dinheiro público”, afirmou a universitária Amanda Hypólito Batista.


Clique aqui e veja na íntegra as respostas:

Autoridades ituveravenses concordam com internação recomendada por médico
Entre as autoridades ituveravenses, a opinião é unânime: todos são a favor da medida, desde que seja determinada por avaliação médica. O comandante da 3ª Cia. de Polícia Militar de Ituverava e Região, capitão Márcio Alves Cardoso, afirma que a internação compulsória que cada caso deve ser tratado de forma isolada. “Já é sabido que o índice de recuperação de dependentes químicos é muitíssimo maior para aqueles que chegaram espontaneamente numa clínica de tratamento”, afirmou.

Segundo ele, outra questão que deve ser analisada é aonde levar o dependente. “Infelizmente, estou vendo uma avalanche de aberturas de clínicas para recuperação de dependentes químicos e de álcool, que não possuem um responsável habilitado, uma infra-estrutura adequada, funcionários treinados, que tenha um método reconhecidamente capaz e com uma taxa aceitável de recuperação. Na verdade, para alguns se trata de mais um comércio, uma prestação de serviço mediante pagamento. Porém existem muitas clínicas sérias, o que me faz acreditar que a recuperação é possível”, complementou o capitão Cardoso.

.O delegado do município de Ituverava, Wilson dos Santos Pio, foi enfático: “finalmente, o Estado deve intervir, pois está passando da hora!”, disse. “A questão se tornou tão complexa que os governos em todas as suas esferas – federal, estadual e municipal – precisam intervir de forma urgente e assumir esta responsabilidade. No caso de Minas Gerais, a decisão do Estado em assumir as custas foi excelente. Que agora o exemplo se propague”, afirmou.

Pio ressalta ainda que apóia a decisão, mas se ela for determinada por um médico. “Quanto mais tempo passar, mais pessoas de bem serão arrebatados pelo terror das drogas. A Polícia Civil, por sua vez, cumprirá à risca as determinações que seguirem uma avaliação médica criteriosa”, acrescentou o delegado do município.

A delegada-adjunta Christina Bueno de Oliveira – que antes de trabalhar em Ituverava, atuava na região conhecida como Cracolândia, em São Paulo – também acredita que o Estado precisa intervir. “Eu vi muitas vezes, por exemplo, a degradação que o crack causa em seus dependentes. Por isso, eu concordo com a internação compulsória, desde que ela seja devidamente corroborada pela avaliação médica”, concluiu a delegada.

O efeito do crack no organismo humano


No dia 11 de junho deste ano, a revista “Veja” publicou uma esclarecedora reportagem sobre o crack, falando sobre a dependência, o usuário e a família.

Na reportagem, assinada por Ricardo Vestin, ele explica que crack é uma forma grosseira, porém mais potente de cocaína. Os efeitos de ambas as drogas são os mesmos: bem estar, energia e euforia.

Essas sensações se devem ao cloridrato de cocaína, seu princípio ativo, que, chegando ao cérebro, libera dopamina, o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. A dopamina é liberada naturalmente pela comida e pelo sexo - a alimentação e a reprodução despertam prazer porque são imprescindíveis para a manutenção da espécie.

A probabilidade de um iniciante se viciar em crack é o dobro da de se viciar em cocaína. Isso porque no vapor da pedra de crack há concentração mais elevada de cloridrato de cocaína do que no pó que se aspira. Além disso, os pulmões têm uma área maior que a do septo nasal para a droga ser absorvida pelo organismo.

A brisa

A “brisa” do crack, como dizem os viciados, surge em dez segundos e se esvai em dez minutos. O efeito da cocaína leva alguns minutos para começar e se prolonga por até uma hora. Normalmente, basta uma semana para que a pessoa já não consiga ficar sem o crack.

Com a cocaína, o vício leva meses para se estabelecer. Tanto o crack quanto a cocaína entram no Brasil em forma de pasta-base de coca, produzida na Colômbia, na Bolívia e no Peru. Os traficantes montam laboratórios caseiros perto dos pontos de venda para transformar a pasta-base em cocaína ou crack, conforme a demanda.

A literatura médica enumera mais de cinqüenta doenças desencadeadas pelo uso de crack: psiquiátricas, cardíacas, respiratórias e renais, entre outras. O enfisema pulmonar leva três décadas para se manifestar num fumante e poucos anos no usuário de crack. Para se recuperar do vício, o dependente precisa passar por um longo processo, que inclui internações, tratamento das doenças associadas, consultas freqüentes com psiquiatra e psicólogo e atividades que ajudem a reinseri-lo na família e na sociedade.

Também é útil participar de grupos de auto-ajuda, como os Narcóticos Anônimos. Já os pais e as mães do viciado em crack raramente contam com ajuda, orientação ou tratamento. Tendem a se afundar na dor, na raiva, na culpa e na vergonha.

É por causa da vergonha das famílias que as ambulâncias que fazem as internações involuntárias têm mais trabalho durante a madrugada – assim, não se corre o risco de que os vizinhos descubram que o filho está doente. “Os dependentes, pelo menos, têm o “barato” da droga. Nós só temos o sofrimento”, desabafa a aposentada Regina Tortorelli, paulistana de 61 anos, com dois filhos envolvidos com o crack.





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