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09/04/2012
Excesso do uso da Internet e de aparelhos eletrônicos pode levar a problemas psicológicos Excesso de tempo em frente ao computador, isolamento social e a desatenção em outras atividades são algumas das características
Ouso da Internet e de aparelhos eletrônicos em excesso pode levar a problemas psicológicos e até psiquiátricos. Considerada uma das psicopatologias da vida contemporânea, a dependência da tecnologia é uma espécie de compulsão.
A tecnose – como é conhecida a dependência tecnológica ou síndrome da dependência – pode ser muito semelhante à causada pela dependência do álcool ou drogas. As características dessa nova patologia são o tempo que a pessoa gasta em frente ao computador, o isolamento do ambiente social e a desatenção em relação às atividades profissionais, acadêmicas e pessoais.
De acordo com um levantamento da Nielsen Telecom Practice Group, o Brasil é o país do celular, apesar do número de aparelhos por habitante ainda estar abaixo da média latino-americana. Os brasileiros dividem com o México a liderança no ranking de celulares vendidos por região – aquele país registrou aumento de 5% na venda desses itens durante em 2009, sendo 61% desses aparelhos acoplados com câmeras e 3G.
A dependência tecnológica também é acompanhada do consumo excessivo das chamadas redes sociais, como Orkut, Twitter, Facebook, etc, já que o ciberespaço cria um mundo virtual perfeito para esses dependentes. “Não há como negar o quanto os avanços tecnológicos estão cada vez mais presentes no cotidiano de todos nós. Bem aproveitados eles podem e muito facilitar nossas vidas. Mas também merece intensa e cuidadosa reflexão: de que maneira fazemos e continuaremos a fazer uso deles. Porém, quando estes recursos passam a serem usados com outras finalidades, senão a de promover a facilidade, eles podem se transformar em dependência, numa obsessão ou perversão., o que é muito freqüente”, observa a psicanalista ituveravense Eucelena de Paula Leite Ferreira.
Aprenda como detectar e cuidar
dos indícios desta dependência
Mas a pergunta que não quer calar: como lidar com esse tipo de situação? Segundo a psicanalista, todos estão sujeitos à fugas.
“Fugimos da dor. A dor que nos incomoda e machuca a alma. Tentamos sempre encontrar um refugio para ela. Criamos defesas contra ela. A questão é: como podemos lidar com o intolerável? Ou, como é possível tornar o intolerável em tolerável? Preci-samos desenvolver uma capacidade de transformar o que é impensável, indigesto, insuportável em suportável e digesto. Esse não é um caminho muito fácil, mas não há outro jeito, caso contrário, o recurso será sempre a fuga”, disse a psicanalista.
Segundo ela, muitas pessoas optam pelo caminho ilusoriamente mais fácil: de aliviar-se, anestesiar-se com uma droga, transpor-se para um outro mundo, um mundo sem dor, um mundo mágico, sem faltas, sem limites, sem perdas, sem defeitos. Porém, não existe vida sem dor.
“Eu acredito que nessas situações, ou seja, em qualquer situação onde haja sofrimento mental o melhor caminho é a procura por um profissional que seja suficientemente capaz de ouvir, acolher, respeitar, nomear, compreender esse sofrimento, oferecer novos vértices de observação. Alguém que ajude a desenvolver a capacidade de pensar em si mesmo, no sentido da vida, que ajude a saber de si para dar conta de si, com o objetivo de melhorar sua condição de vida. Freud já dizia há muitos anos atrás, que o aumento de conhecimento é terapêutico”, defende.
“Obsessão, depressão, perversão, anorexia, uso de drogas, exibicionismo nunca deixaram de fazer parte da humanidade, que já passou por várias transformações: científicas, sociais, econômicas, mas, os sentimentos de solidão, vazio, angústia, egoísmo, inveja, gratificação ilimitada sempre estiveram presentes. É o trabalho de autoconhecimento que possibilita contato com o mundo afetivo, que possibilita aumentar a tolerância consigo mesmo, com a dor mental”, concluiu Eucelena.
‘Problema é o que fazemos com este aparato tecnológico’, diz psicanalista
Segundo Eucelena, a culpa não é da internet, nem do videogame, da televisão, do celular, das drogas, dos medicamentos, do fumo, do vinho, da cerveja, dos anabolizantes, da gordura trans, etc. De acordo com a psicóloga, o problema está em como, nós seres humanos, utilizamos estas novidades.
“Eu conheço muitos casos de adolescentes que se tornam dependentes da internet, seja por esses jogos em cadeia, seja por facebook, ou por todo tipo de mensagem. O que aparece nos bastidores é que se trata de jovens com muita dificuldade de se sociabilizar, com auto-estima baixíssima. Eles conseguem se comunicar com um grupo enorme de outros jovens, às vezes, do mundo inteiro, mas não têm nenhum amigo próximo, raramente saem de casa para namorar, passear”, afirmou Eucelena.
Ela também menciona que, em outros casos, alguns desses jovens vêm de uma família desarmoniosa, sem muita ligação afetiva, desestruturada, onde o pano de fundo é um sentimento de intenso desamparo.
“Na tentativa de apaziguar esse desamparo, de vazio, eles se ligam nas redes sociais freneticamente, como se buscassem um sentimento de existir, de fazer parte. A função primária então passa a ser o alívio da dor psíquica, causada por esses sentimentos”, exemplificou.
“Qualquer uma dessas situações o que é mais grave, é o comprometimento da qualidade de vida psíquica, emocional da pessoa, que na maior parte das vezes não tem muita percepção do que se passa com ela”, acrescenta Eucelena.
as Conseqüências do problema
As conseqüências da dependência tecnológica são muitas e variadas, desde isolamento, comprometimento no desenvolvimento pessoal, intelectual, amoroso, etc, até problemas sérios de ordem financeira.
Para a estudante Renata, sua relação com a tecnologia parecia normal. “Eu achava que estava tudo bem. No início passava um bom tempo no computador, depois o tempo foi aumentando e chegou ao ponto de eu não conseguir ficar sem acessar a internet do celular no meio da rua, de deixar a ir a festas, sair com amigos. Eu comia na frente do computador, não me importava mais com o mundo lá fora. Foi então que minha mãe preocupada por eu ficar isolada me levou a um psicólogo e foi lá que ele diagnosticou que eu era uma viciada em tecnologia. Com perguntas, ele me fez enxergar que eu sentia mal estar se não estivesse on line o dia inteiro, ficava ansiosa, não me concentrava em nada até chegar em casa e mergulhar no meu mundo, que basicamente se resumia a MSN, Orkut, My Space e jogos. Agora estou em tratamento, tomo ansiolíticos e tenho metas semanais de ficar cada vez menos tempo conectada, de praticar atividades ao ar livre”, explicou a estudante.