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04/08/2014

EDIÇÃO 3090- ENQUETE - PESQUISAS APONTAM QUE HÁ LIGAÇÃO ENTRE APRENDIZADO E ESCRITA À MÃO

Escrita à mão deve ser incentivada nas escolas

Entre os benefícios está o aumento da capacidade de gerar idéias e absorver informações

Em meio a tanta tecnologia, as crianças e os adolescentes de hoje são bem diferentes dos de décadas atrás. Com seus computadores e tablets, os jovens raramente escrevem à mão, mesmo na escola.

O ideal seria que os educadores incentivassem os alunos a escrever com letra legível não apenas na pré-escola e nos primeiros anos do Ensino Fundamental, mas também na continuidade dos estudos, pois pesquisas recentes apontam que os vínculos entre a escrita à mão e o desenvolvimento educacional são profundos.

Quando as crianças aprendem a escrever à mão, elas não apenas aprendem a ler em menor tempo, mas se mostram mais capazes de gerar idéias e absorver informações.

“Um circuito neural singular é ativado automaticamente quando escrevemos. E parece que esse circuito contribui de maneiras especiais, que desconhecíamos”, explica Stanislas Dehaene, psicólogo do Collège de France, em Paris.

Estudo
Um estudo de 2012 liderado pela psicóloga Karin James, da Universidade de Indiana, confirma essa idéia. Uma letra ou uma forma traçada em uma ficha eramostrada a crianças que não sabiam ler ou escrever. Depois, pedia-se que elas a reproduzissem. Em seguida, as crianças passavam por um aparelho de ressonância magnética cerebral e a imagem era mostrada a elas novamente.


Os pesquisadores descobriram que o processo inicial de reprodução fazia grande diferença.

Quando as crianças tinham desenhado a letra à mão, exibiram atividade aumentada nas áreas do cérebro ativadas em adultos quando lêem e escrevem. A ativação foi nitidamente menor em crianças que digitaram a letra ou a traçaram por cima da figura original.

“Quando uma criança produz uma letra irregular, pode ajudá-la a aprender essa letra”, diz a psicóloga Karin James.

Padrões cerebrais
Segundo estudos que acompanharam crianças da segunda até a quinta série, a psicóloga Virginia Berninger, da Universidade de Washington, demonstrou que letra de forma, letra cursiva e digitação em teclado são associadas a padrões cerebrais diferentes, e cada padrão resulta em um produto final distinto.

Quando as crianças escreviam à mão, não apenas produziam mais palavras em menos tempo do que produziam no teclado, como expressavam mais idéias. As crianças com letra melhor apresentavam ativação neural maior em áreas ligadas à memória operante e ativação geral aumentada nas redes de leitura e escrita.

Os especialistas trabalham, inclusive, com a hipótese que pode haver uma diferença até entre a escrita em letra de forma e letra cursiva. Na disgrafia, condição em que a capacidade de escrever é deficiente, às vezes ocorre algo incomum: algumas pessoas podem ter dificuldade em escrever com letra cursiva, enquanto outras têm problemas para escrever com letra de forma.

Na alexia, ou capacidade de leitura deficiente, algumas pessoas que não conseguem processar a letra de forma ainda assim conseguem ler letra cursiva, e vice-versa, fato que sugere que as duas maneiras de escrever envolvem redes cerebrais distintas e, portanto, mais recursos cognitivos.

Berninger chega a sugerir que a escrita cursiva pode treinar a capacidade de autocontrole de maneira que outros modos de escrita não fazem. Alguns pesquisadores argumentam que ela pode ser o caminho para tratar a dislexia.

Estudo norueguês também já havia abordado ligação
A teoria que escrever à mão fortalece o processo de aprendizagem já foi abordada anteriormente, há três anos, por um estudo da Universidade de Stavanger, na Noruega.


Segundo a professora-adjunta Anne Mangen, do Centro de Leitura, ao digitar em frente a um computador, o processo de aprendizagem pode ser prejudicado. Ela avaliou o que pode ser perdido quando se troca um livro por uma tela e uma caneta por um teclado.

Sentidos
“O processo de leitura e escrita envolve uma série de sentidos. Ao escrever à mão, nosso cérebro recebe um feedback de nossas ações motoras, juntamente com a sensação de tocar em um lápis e papel. Esse tipo de resposta é significativamente diferente daquele que recebemos quando tocamos e digitamos em um teclado”, explica.

Juntamente com o neurofisiologista Jean-Luc Velay, da Universidade de Marselha, França, Anne escreveu um artigo publicado no periódico Advances in Haptics, afirmando que examinaram uma pesquisa que confirma a importância dessas diferenças.

Um experimento realizado pela equipe de Velay demonstra que ao escrever à mão, os movimentos envolvidos deixam uma memória motora na parte sensório-motora do cérebro, o que ajuda a identificar as letras.

Verbos
Outros experimentos indicam que a Área de Broca (parte do cérebro responsável pelo processamento da linguagem, produção da fala e compreensão) fica perceptivelmente mais ativa quando as pessoas lêem um verbo que está ligado a uma atividade física, em comparação com a leitura de um verbo abstrato ou de um verbo que não está associado a nenhuma ação.

“Isso também acontece quando você observa alguém fazendo alguma coisa. Você não precisa fazer nada, pois a audição ou visão de uma atividade é muitas vezes suficiente. Pode até ser bastante para observar uma ferramenta conhecida e associá-la a uma atividade física”, diz a pesquisadora.

Experimento
Anne cita um experimento que envolveu dois grupos de adultos, no qual os participantes receberam a tarefa de aprender a escrever em um alfabeto desconhecido, composto por cerca de vinte letras. Um dos grupos foi ensinado a escrever à mão, enquanto o outro usava um teclado. Depois de semanas, a lembrança dos voluntários sobre essas letras e a agilidade deles para distinguir as letras normais das invertidas foram testadas.

Aqueles que haviam aprendido as letras pela escrita tiveram melhor proveito em todos os testes. Além disso, exames de ressonância magnética indicaram uma ativação da Área de Broca nesse grupo. Entre aqueles que tinham aprendido pela digitação, houve ativação de poucas partes dessa área ou nenhuma.

Enquete
Para saber se os ituveravenses têm o hábito de escrever à mão, a Tribuna de Ituverava foi às ruas nesta semana.

Adultos
Os benefícios de escrever à mão não existem apenas para as crianças. Para os adultos, digitar pode ser eficiente, mas pode reduzir a capacidade de processar informações novas.

Embora nem todos os especialistas estejam convencidos da importância dos benefícios de longo prazo da escrita à mão, Paul Bloom, psicólogo da Universidade Yale, considera as novas pesquisas interessantes. “O próprio ato de escrever à mão obriga você a focar sobre o que é importante. Talvez o ajude a pensar melhor”, finalizou.

Confira as respostas:

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