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01/09/2014

EDIÇÃO 3094- ENQUETE - MORADORES DE RUA VOLTAM A PREOCUPAR

Moradores de rua na praça Hélvio Nunes da Silva

Esmola é um incentivo para que as pessoas não saiam da situação em que se encontram

Desilusão, problemas familiares, insanidade e vícios são alguns dos principais motivos que levam uma pessoa a viver nas ruas. Nesse submundo, muitas vezes ela acaba se deparando com problemas que a prende cada vez mais nessa situação, como consumo desenfreado de álcool e substâncias químicas; práticas de crimes e a total falta de compromisso com as normas da sociedade.

Em Ituverava, o número de moradores de rua tem preocupado já há alguns anos. Para constatar o fato, basta ir às praças Dez de Março e Hélvio Nunes da Silva, que estão brigando muitos andarilhos.

Muitos deles são de outras cidades e se instalaram em Ituverava justamente porque a população é muito solidária. Impressionadas com a preocupante situação dessas pessoas, os ituveravenses tentam “ajudá-las” com esmolas, sejam elas em dinheiro ou alimentos. O que a princípio parece humano, e uma maneira de melhorar suas vidas é, na verdade, uma forma de piorar.

Acomodação
O importante é não acomodá-los, oferecendo refeições regulares e dinheiro, pois desta maneira a pessoa que está nesta situação de risco acaba sendo incentivada a não mudar de vida e não aceitar ajuda para sair desta situação.

Geralmente o andarilho está em meio a uma jornada autodestrutiva, o que acaba também prejudicando a sociedade, pois ele não percebe porque está tendo uma concepção diferente da realidade, seja ela causada pelo uso de drogas ou pelo sofrimento emocional.

Ações
Autoridades competentes já compreenderam o quanto a situação é grave, e se reuniram para discutir o problema, a fim de fazer com que os moradores de rua possam ser reinseridos na sociedade.

A iniciativa partiu da Secretaria Municipal do Bem-Estar e Integração Social, que reuniu representantes da Secretaria Municipal da Saúde, Polícia Militar, Igreja Católica, CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) e CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial) para discutir o assunto.

Entre as ações programadas foi lançada uma campanha com o objetivo de incentivar os ituveravenses a não dar esmolas. Os órgãos da Secretaria do Bem-Estar tomaram várias providências, como oferecer internações em clínicas de reabilitação e tratamentos psiquiátricos. O resultado, no entanto, não parece ter sido o esperado.

A Prefeitura e os órgãos fiscalizadores devem continuar atuando em conjunto, porém é importante que a população se conscientize que a esmola contribui para o individuo se afundar ainda mais na situação em que encontra.

Crime
Outro problema gerado pelo crescimento no número de moradores de rua se refere ao conseqüentemente aumento da violência.

Os andarilhos, em busca de alimentos, mantimentos ou mesmo para suprir o seu vício em álcool ou drogas, acabam cometendo crimes, sobretudo furtos e roubos. Ao dar esmola, portanto, a pessoa também está contribuindo, mesmo que indiretamente, para o aumento da criminalidade.

Muitos moradores de rua, por não terem plena consciência de suas ações, ameaçam e xingam os cidadãos. Essas ações ferem a liberdade das pessoas, que muitas vezes só estão passando pelo local onde os andarilhos estão, e acabam afugentadas das praças públicas.

Comandante da PM fala sobre problema na cidade
Segundo o comandante da 3ª Cia Militar de Ituverava e Região e do 1° Batalhão da Polícia Militar de Ituverava, capitão Márcio Alves Cardoso, que atua há 21 anos na PM, Ituverava não tem muitos moradores de rua, no entanto, eles causam problemas. “Existem os que têm família na cidade e os itinerantes. Estes últimos, não costumam ficar muito tempo na cidade, entretanto alguns se fixam aqui. Os moradores de rua locais possuem família, porém, por vários motivos optaram por morar nas ruas. Há um caso até de uma pessoa aposentada que se tornou morador de rua”, afirma o comandante.

“A questão do morador de rua é um problema social, que gera também problemas na área de Segurança Pública. Os delitos mais típicos que alguns cometem são a perturbação ao sossego público, pequenos furtos, constrangimento ilegal, atos obscenos, entre outros”, ressalta.

Capitão Cardoso lembra que a maioria destes crimes é de menor potencial ofensivo, portanto a prisão e a retirada do autor das ruas não acontecem em curto e médio prazo. “Há relatos de roubos mediante grave ameaça, principalmente, em desfavor de mulheres. Entretanto, infelizmente, as vítimas não registram o fato. No caso do roubo, que é subtrair algo mediante violência ou grave ameaça, o autor pode ser preso e encaminhado a um estabelecimento prisional, se for pego em flagrante”, esclarece.

Abordagem
Ele dá algumas dicas às pessoas ao serem abordadas por pedintes. “Se não houver nenhuma violência na abordagem, as pessoas não devem dar nada. Caso exista violência de qualquer natureza, as vítimas devem registrar a ocorrência. É importante, no entanto, nunca agir com violência contra os moradores de rua”, alerta.

“A Polícia Militar vem abordando constantemente essas pessoas e quando algo de ilícito é encontrado, são levados ao Distrito Policial, e quase sempre são liberados em razão da legislação em vigor”, destaca o comandante.

Providências
A Polícia Militar, de acordo com o capitão Cardoso, tem acompanhado de perto o problema. “Participamos das reuniões promovidas pela Secretaria do Bem-Estar e Integração Social e os policiais acompanharam as assistentes sociais quando nas abordagens a esses moradores”, explica.

“Providências já estão sendo tomadas e a Prefeitura está trabalhando para amenizar o problema. Porém é um processo trabalhoso e não se resolve de uma hora para outra. Pode ser que em alguns casos deve até ser acionada a Justiça, para pedir a internação compulsória em clínicas de recuperação de álcool e dependência química”, completa o Capitão Cardoso.

Secretaria do Bem-Estar desenvolve várias ações
Preocupada com esta situação, a Secretaria Municipal do Bem-Estar e Integração Social tem desenvolvido uma série de ações contínuas para mudar esta realidade. “A Secretaria realiza a abordagem social ‘Busca Coletiva’, na qual as assistentes sociais se deslocam até o local onde as pessoas nessa situação estão alojadas. Desta maneira, é possível identificá-las, saber os reais motivos que as levaram a esta situação e incentivá-las a fortalecer o vínculo familiar”, explica a primeira-dama e secretária municipal do Bem-Estar e Integração Social, Sueli de Fátima Mattar Terra.

“Depois propomos, de acordo com políticas públicas, ações para reinserir o indivíduo na sociedade”, ressalta Sueli.

Ainda segundo ela, a esmola é prejudicial para o próprio pedinte. “Dar esmola contribui com a situação de vulnerabilidade e muitas vezes sustenta o vício de álcool ou drogas. A esmola pode fazer com que esse se torne um modo de vida para essas pessoas”, diz.

“Em Ituverava percebemos que o perfil da maioria dos moradores de rua é da cidade, com endereço fixo, que tem família e saúde para trabalhar”, destaca Sueli.

Reuniões
Além das reuniões com autoridades, a Secretaria do Bem-Estar e Integração Social, juntamente com o Creas (Centro de Referência Especializada da Assistência Social), discutem semanalmente esta questão. “Elas são em conjunto com a Polícia Militar e as Secretarias da Saúde, Educação, Esporte e da Cultura, Turismo e Lazer, sempre na busca de alternativas para mudar a situação dos moradores de rua”, enfatiza a primeira-dama.

“É um trabalho muito importante e agradeço a parceria de todos que atuam com dedicação e empenho para mudar essa realidade”, completa.

Gesto pode acarretar em atos de violência no futuro
Mudar a cultura de dar esmolas é o desafio. O antropólogo Roberto Da Matta observa que ainda prevalece o ditado de que “quem dá ao pobre empresta a Deus”. “Quem dá esmola só pode esperar um benefício pessoal, pois a vida daquela pessoa não vai melhorar com uma moeda de R$ 0,50”, analisa.

A psicóloga e investigadora Suzana Braun, do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente, mesmo com anos de experiência, ainda sente vontade de atender aos pedidos que recebe nas ruas. Mas aprendeu a dizer não, convicta de que a esmola é uma outra forma de violência. “O pedinte a quem eu dou esmola hoje pode ser o meu agressor amanhã”, alerta.

A Enquete feita pela Tribuna de Ituverava nesta semana reflete a opinião dos dois especialistas. Dos doze entrevistados, seis têm o hábito de dar esmola e acreditam que este é uma forma de ajudar as pessoas.

Confira as respostas:

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