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12/11/2014

EDIÇÃO 3104 ENQUETES - REMÉDIO À BASE DE RAIZ COMBATE VÍCIO EM CRACK

A Cracolândia, em São Paulo

Medicamento está sendo testado por equipes da Universidade Federal de São Paulo

O sucesso no uso de um novo medicamento para combater o vício do crack animou familiares e pacientes que tentam se livrar de uma das drogas mais perigosas do mundo. O medicamento, feito a partir da raiz de uma planta, está sendo testado por equipes da Universidade Federal de São Paulo. Até agora, 60% dos pacientes que fizeram uso do medicamento conseguiram se livrar do vício.

O remédio possui forte efeito sobre o paciente, que deve ser monitorado o tempo todo, ele passa dez horas em uma espécie de sonho, onde vê uma retrospectiva de sua vida. A partir daí, a maioria consegue se livrar da droga.

A ibogaína é uma substância extraída da raiz da iboga, uma planta encontrada na África Central, usada em rituais religiosos. O medicamento é produzido no Canadá e liberado pela Anvisa.

Cardíacos ou portadores de determinadas doenças neurológicas não podem usar a ibogaína. O paciente tem que ficar um mês sem usar nenhum medicamento, álcool ou droga. Depois de uma avaliação psicológica, ele é liberado para o tratamento.

Os primeiros foram tratados em clínicas de reabilitação. Eles receberam o medicamento em cápsulas e ficaram internados. O clínico geral Bruno Rasmussen Chaves acompanhou um grupo de pacientes e, os efeitos começam depois de três horas.

“Nessa situação de pensamento começa a ter o que a gente chama de expansão de consciência. Começa a entender melhor o que está acontecendo com ele, qual o espaço dele na vida dele, qual o espaço no mundo, no universo, começa a entender porque relacionamentos não estão dando certo, perceber os erros e os acertos, vê o que tem que mudar”, diz o clínico geral.

Alteração da percepção
Os pesquisadores contam que durante dez horas o paciente tem uma alteração na percepção, com a sensação de reviver a própria vida. Tem lembranças fortes, emoções e sob o efeito da ibogaína consegue ver antigos problemas de uma nova forma.

O paciente é liberado depois de 24 horas. Em seguida começa a psicoterapia. A maioria não precisou tomar outra dose do medicamento. O psiquiatra que coordenou a pesquisa, Dartiu Xavier da Silveira, atende dependentes químicos há 27 anos e ficou animado com os resultados.

“O estudo foi muito impressionante para nós. De 75 pacientes, 61% simplesmente abandonaram a sua dependência seja de álcool, seja de crack ou cocaína. Os tratamentos habituais, em geral, tratam ou curam de 30% a 35% dos dependentes. Então esse estudo preliminar é muito promissor”, fala o psiquiatra.

Entretanto, ele lembra: é preciso vontade para se livrar do vício. “A ibogaína é um elemento promissor no tratamento da dependência desde que seja bem selecionado quem vai tomar, em que circunstâncias. Existe essa vivência psicológica, algo muito intenso, transformador, mas existem também vários estudos mostrando que tem regiões do cérebro que controlam os impulsos, a sua capacidade de gerenciar as coisas que você faz e o problema da dependência química é uma falta de controle do impulso”, diz.

“Então, na hora que você modifica essas regiões do cérebro através da ibogaína, você de certa forma, a gente até brinca, é como se você formatasse o disco rígido da sua cabeça, do seu cérebro. Você reinicia o seu cérebro. Ou seja, não existe mágica. Tratar dependência é algo complexo, é algo que não se resolve em um estalar de dedos”, finaliza Dartiu Xavier da Silveira.

Ibogaína devolve bem-estar físico e mental aos usuários
O estudo foi publicado no fim de setembro na revista britânica “Journal of Psychopharmacology”. De acordo com o médico Bruno Rasmussen Chaves, um dos autores do estudo, a substância estimula a produção do hormônio GDNF, que por sua vez estimula as conexões entre os neurônios e promove um equilíbrio dos neurotransmissores.

“O uso de drogas altera o funcionamento dessas conexões entre os neurônios, as sinapses, desequilibrando as proporções entre os neurotransmissores. A ibogaína coloca o cérebro em um estado muito semelhante de equilíbrio e funcionamento de quando nasceu. Ele volta a ter o mesmo padrão que tinha antes das drogas”, diz.

Segundo o especialista, esse reequilíbrio promove um bem-estar físico e mental, que leva o paciente a ficar mais consciente de si mesmo. Esse processo facilita o trabalho do terapeuta e faz com que ele tenha maior aderência à terapia. Para obter esse efeito, a recomendação é que o paciente receba uma dose única da substância.

Entenda o estudo
O estudo foi feito com 75 usuários de drogas que consumiam principalmente cocaína e crack, mas alguns usavam também álcool e maconha.

Ao todo, eram 8 mulheres e 64 homens. A princípio, eles foram submetidos a um tempo variável de psicoterapia e a exames para verificar se seu organismo estava com condições propícias para receber o medicamento à base de ibogaína. “Encaramos esse tratamento como uma pequena cirurgia. É uma coisas simples, mas não se pode fazer em uma pessoa com diabetes desequilibrada ou pressão descontrolada”, diz Chaves.

Enquete
Para saber se a população acredita que o medicamento pode realmente ser eficaz no combate ao vício em crack, a Tribuna de Ituverava foi às ruas nesta semana.

Medicamento
Para receber o medicamento, por via oral, eles ficaram internados por um período de 24 a 48 horas. “Nesse tempo, eles ficam deitados sob o efeito da medicação. Há algumas reações como tontura, náusea, vômito, tremor e um estado de confusão mental. Nesse momento, o paciente fica em um estado intermediário entre vigília e sonho”, explica.

Depois do período de internação, os pacientes iam para casa e ficavam em acompanhamento psicológico e psiquiátrico por tempo variável. Depois de um ano, 72% dos pacientes estavam abstinentes. Entre as mulheres, o índice de sucesso foi de 100% e, entre os homens, foi de 55%.

Ele observa que não é um tratamento para qualquer um, “mas para pacientes muito graves, que não responderam a outros tratamentos anteriormente e já passaram por inúmeras internações”. Segundo ele, não há risco de a ibogaína promover dependência, pois ela não tem potencial recreativo: a experiência de consumi-la é extremamente desconfortável.

O medicamento usado no estudo é produzido no Canadá, onde a ibogaína é aprovada e usada em tratamentos contra dependência química. No Brasil, não há uma regra que regulamente a substância, mas, caso ela seja receitada por um médico, pode ser importada.

Confira as respostas:

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