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ARTIGOS - DIREITO

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30/12/2014

QUANDO TIVER TEMPO, SORRIA

Arthur Theodoro é estudante

“Mais um ano se passou” é o clichê - quase musical - que versa o sentimento da maioria dos indivíduos na sociedade contemporânea. Depois de vitórias e derrotas –seja social (com a política), seja pessoal - um novo ano há de se legitimar. Visto que grandes vitórias não foram concretizadas, nota-se a falta de equilíbrio nesse embate quase romântico entre o bem e o mal. O grande mal da vida rotineira, fluída e veloz que existe na população moderna é a falta de realizações e de alegrias constantes. Nunca a alegria foi tão passageira, o que é sólido nunca “se desfez (tanto) no ar”, disse Marchall.

Na busca pela felicidade o pai busca o dinheiro; na busca pelo bem-estar de sua psique e de suas emoções, os indivíduos têm buscado a velocidade no obter, a velocidade no ganhar e a velocidade no adquirir. Tanta velocidade e os dias passaram, os meses correram, o ano acabou. Preocupou-se tanto com o “Ter”, mas essa Sociedade de Espetáculos, máscaras e cenários também se preocupou com o Ser? Conseguiram ser bons pais, bons maridos, bons filhos, bons estudantes? A maioria não teve tempo para isso, não conseguiu. E mais um ano se passou.

Fernando Sabino versou na “Última crônica” o desejo que tinha para escrever o seu último texto e ficou perplexo no seu problema, fez a sua autorreflexão. Depois disso, resolveu olhar para fora de si, “onde vivem os assuntos que merecem uma crônica” e, olhando ao fundo do bar onde estava sentado, viu uma família paupérrima sentada a mesa. Ele salienta que esses humanos se preparavam para algo maior do que “matar a fome”, era o aniversário da filha. Pedem um pedaço de bolo, batem palma e comem. Logo em seguida, o pai passa o olho pelo botequim e encontra os olhos do eu-lírico. O texto relata que o pai se perturba, fica constrangido, hesita em abaixar a cabeça, mas fixa os olhos nos olhos do escritor e dá um sorriso. Sabino salienta o sorriso daquele pai, o toma como base para a crônica. Nota-se que a família muito pobre não estava ali para a exibição de um “Ter”, mas uniram-se para dar à filha um presente de aniversário, um pedaço de bolo. É visível que a alegria desse pai não estava no botequim ou no aparentar, mas na satisfação de sua filha. Diferente dessa família da crônica, muitos da população atual têm trabalhado para um consumo jamais satisfatório. Sem valorizar o que realmente tem o seu valor (família e bons amigos), os trabalhadores são alienados a comprar (independente do que seja) e a trabalhar freneticamente na busca de mostrar, o que a geração atual denomina ostentação. Embora muitos indivíduos estejam buscando a satisfação pessoal no consumo doentio (no trabalho desenfreado), não é aí que se encontra o êxito das emoções, mas nos momentos em que há valorizaçãodos pequenos gestos. A prosperidade é o desenvolver da alma e das emoções para desfrutar daquilo que tem – ainda que seja um pedaço de bolo, como na crônica de Sabino. Hoje são muitos ricos e poucos os prósperos. Muitos cidadãos que gostam de falar coisas “bonitinhas” (se ficassem quietos, seriam mais sábios) costumam dizer que os “momentos em família não têm preço”, “amizades não se compram” e “amor não se vende” têm vendido todas essas afirmações por alguns (ou vários) salários mínimos mensais. Distribuindo cartões de créditos para a família, muitos pais veem-se como aquele que supre a demanda dos filhos e esposa, esquecendo que esses cartões não dão amor, companheirismo, amizade, confiança e harmonia familiar, que são sentimentos e elos que apenas o humano pode proporcionar. Vendem os momentos de harmonia para a empresa e depois querem comprar a própria família com presentes e viagens. Perda irreparável: tanto o ano, quanto os momentos em família e em amigos doados para as empresas.

Lutar em família, em amigos ou em companheiros pelos seus sonhos e não apenas cultivar o egoísmo pós-moderno, é uma trajetória promissora para a verdadeira e mais pura felicidade. A valorização dos pequenos atos (não devem ser chamados de pequenos), como um abraço fraterno, um sorriso amissível, uma palavra amorosa e um beijo patriarcal é de grande eficácia contra a insatisfação geral da sociedade - bem nítida nos términos de ano. Ademais, cabe aos pais refletir sobre o conceito de alegria que têm proporcionado aos seus filhos e cabem aos filhos encontrarem o verdadeiro amor em cada abraço, beijo e sorriso de seus pais. Fernando Sabino termina a sua crônica versando “Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.”; Cabe à Sociedade reestabelecer a família, a harmonia, os sorrisos. Os verdadeiros sorrisos.

Arthur Theodoro é estudante

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